Basta de energias fósseis ou ainda não?

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22 Maio 2015

A Swarthmore College não é mais o discreto campus do subúrbio da Filadélfia que ela foi durante 150 anos. Há cinco anos, depois de voltarem de uma viagem pelos Apalaches onde eles viram a dimensão das devastações ao meio ambiente causadas pela extração do carvão, alguns estudantes pressionaram – com sucesso – os fundos de investimentos de seu campus a retirar o dinheiro investido em energias fósseis.

A reportagem é de Simon Roger, publicada pelo jornal Le Monde e reproduzida pelo Portal UOL, 20-05-2015.

A universidade americana estava abrindo caminho para uma vasta campanha mundial de "desinvestimento" do dinheiro aplicado em companhias de mineração, petróleo e gás. O movimento inicialmente se estendeu a Stanford, Yale e Harvard, e depois ganhou as universidades de Glasgow e de Oxford. O conselho administrativo dessa última decidiu, na segunda-feira (18), "verdejar" seus investimentos por pressão de mais de 2.000 estudantes e de uma centena de professores.

A iniciativa agora ultrapassou o domínio das ricas universidades americanas e britânicas. Os 800 milhões de libras (R$ 3,7 bilhões) geridos pelo Guardian Media Group, a holding do jornal britânico, não serão mais investidos em energias fósseis. As fundações filantrópicas do príncipe Charles e a Igreja da Inglaterra estão indo pelo mesmo caminho. Na Noruega, o governo conservador, seguindo o exemplo de sua capital Oslo, anunciou no dia 10 de abril que quer proibir que seu fundo de pensão, o maior fundo soberano do mundo, com 835 bilhões de euros ativos graças à sua receita petroleira, entre no capital das empresas mais nefastas para o clima. O Parlamento tomará sua decisão no dia 5 de junho.

Qual a ideia por trás disso? Para os partidários da campanha de desinvestimento, os grandes acionistas, representados por fundos de pensão ou fundos institucionais, devem se desfazer de suas participações em energias fósseis, carvão, petróleo e gás. Isso porque esses combustíveis são as principais causas do aquecimento global e representam 80% das emissões mundiais de CO2 e 67% das emissões de gases de efeito estufa.

220 instituições

Desde 1880, com o início da era pré-industrial, a temperatura do globo aumentou 0,85° C. Para permanecer abaixo do limite de 2° Celsius de aquecimento – a meta estabelecida pelos países - , seria preciso, por exemplo, segundo um estudo da University College of London, abrir mão de explorar um terço das reservas de petróleo, sendo metade delas de gás e 82% de carvão. Para isso, o melhor meio é pegar as empresas pelo bolso.

Até o momento, cerca de 220 instituições de todo o mundo aderiram à campanha, em um total de US$ 50 bilhões em ativos (R$ 150 bilhões), segundo estimativas da 350.org, a ONG que teve seu nome inspirado no limite de CO2 na atmosfera determinado por alguns cientistas para evitar um desequilíbrio irreversível do planeta, que é de 350 partes por milhão. "Desde o início do movimento de proteção do clima, nenhuma estratégia teve tanta repercussão quanto essa", afirma a jornalista e ensaísta Naomi Klein em sua mais recente obra, "Tudo Pode Mudar". Próxima do fundador da 350.org Bill McKibben, a escritora canadense tem apoiado ativamente a campanha lançada nos Estados Unidos no outono de 2012.

Contudo, esses resultados são somente uma gota d'água no oceano. Embora a campanha pelo desinvestimento esteja realmente crescendo, seu alcance continua limitado. Os setores do petróleo, do gás e do carvão representam mais de US$ 5 trilhões na Bolsa do mundo inteiro, e os grandes fundos institucionais não aderiram à campanha até o momento.

E por trás dos anúncios ruidosos de adesão, a aplicação das promessas às vezes é lenta. Assim, a Igreja da Inglaterra se comprometeu a desinvestir, mas unicamente nos setores de areias betuminosas e do carvão térmico, o que representa somente 16 milhões de euros. Quanto a seus investimentos nas grandes companhias petrolíferas, ela promete somente pressionar a direção delas para evitar as técnicas mais poluentes.

"Há uma centena de campanhas em andamento na Europa", afirma Bill McKibben. "Elas estão se propagando rápido e pressionando cidades como Londres, Estocolmo, Amsterdã, Berlim e Paris." Paris, que junto com Le Bourget sediará a 21ª Conferência das Nações Unidas sobre o Clima (COP21) em dezembro, votou no dia 16 de março uma promessa contra os investimentos "em setores que contribuam para o aquecimento climático". "Uma promessa não vale por uma resolução, mas é um forte sinal. Esperamos que Anne Hidalgo aplique esse princípio ao fundo de aposentadoria dos servidores da prefeitura de Paris", espera Nicolas Haeringer, diretor da 350.org para a França.

Na França, onde o dinheiro privado não irriga o tecido universitário, os defensores do desinvestimento têm ocupado um outro terreno: o dos bancos internacionais. Mobilizada nessa questão, a ONG Amigos da Terra não perde uma oportunidade de pedir aos grandes atores das finanças que eles se juntem ao "apelo de Paris" comprometendo-se, antes da COP21, a encerrar seus apoios à indústria do carvão "pelo clima e pela saúde do povo". Na quarta-feira (13), a ONG apareceu na assembleia geral do BNP Paribas para pedir ao banco que se recuse a financiar a usina de carvão de Rampal, em Bangladesh, que se localiza perto do maior mangue do mundo.

A associação havia conseguido, no final de março, uma promessa por escrito do BNP-Paribas, da Société Générale e do Crédit Agricole, de que se retirariam dos projetos de mineração da bacia da Galileia, perto da Grande Barreira de Corais, na Austrália. Em compensação, no dia 13 de maio ela recebeu somente uma resposta educada de Philippe Bordenave, diretor-geral delegado do BNP Paribas, afirmando que o principal grupo bancário francês estava atento a esses "setores delicados", mas que um banco não podia se retirar totalmente do setor das energias fósseis, uma vez que "as pessoas ainda precisavam se aquecer!"

"Outras soluções energéticas são possíveis, e qualquer financiamento de projeto de exploração de carvão desencadeia emissões poluentes por um período de no mínimo trinta anos", ressalta Pascal Canfin, ex-ministro do Desenvolvimento e agora conselheiro para o clima do think tank americano World Resources Institute.

A grande transição dos mercados financeiros na direção de energias limpas provavelmente não virá tão cedo, ainda que tenha se aberto um debate. Mas o presidente americano, Barack Obama, na ofensiva para conseguir um acordo em dezembro, em Paris, na segunda-feira (11) autorizou, sob certas condições, que a petroleira Shell retomasse suas campanhas de exploração no oceano Ártico, ao largo do Alasca, apesar das súplicas dos defensores ambientais.

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