A mistificação do pré-sal está afundando o Brasil

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09 Abril 2015

"Ao invés da campanha 'O petróleo é nosso', melhor seria uma campanha: 'A energia renovável é nossa', ou 'O sol e o vento são nossos'. A questão política chave dos próximos anos e décadas é permitir que o povo produza e consuma a sua própria energia", escreve artigo de José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor, em artigo publicado pelo portal EcoDebate, 08-04-2015.

Eis o artigo.

“Ai que saudade…
do tijolinho de banana
do meu Autorama
do Cinerama
do Mario Quintana
e da Petrobrás pré-lama”
Veríssimo (23/11/2014)



Fonte da imagem: Wikigeo


O mito do Eldorado é uma lenda antiga que ficou na moda durante a colonização das Américas e descrevia uma cidade construída de ouro maciço e repleta de diversos tesouros. O sonho de uma riqueza fácil e abundante é um fato recorrente na história da humanidade. Nos últimos dez anos, o Brasil – que já foi considerado um Eldorado para os exploradores europeus – encontrou o seu sonho dourado, em pleno século XXI, na forma de enormes jazidas de petróleo, como se fosse uma Atlântida perdida nas profundezas do oceano Atlântico.

Revivendo a velha lenda do Eldorado, os governos petistas, desde 2006, criaram um mito em torno destas “riquezas” do pré-sal. Num primeiro momento, foi criada a ideia de um Emirado Tupiniquim, pois parecia que o Brasil seria um grande exportador de combustíveis fósseis, onde haveria dinheiro para financiar as fantasias do neodesenvolvimentismo. Mas a ilusão desvaneceu e agora o PT, o governo Dilma e o Brasil estão afundando no fosso profundo da mistificação criada em torno do “bilhete premiado” de uma loteria que não existe. O mito das riquezas abissais foi cuidadosamente acalentado para encobrir as “tenebrosas transações”, como mostram os dados da operação Lava-Jato desencadeada pela Polícia Federal e pelo Ministério Público. Trata-se, segundo o Procurador-geral da República, Rodrigo Janot, do “maior escândalo de corrupção da história do Brasil”.

A ideia do pré-sal como “passaporte para o futuro” sempre foi equivocada, pois ignorava a diferença entre os conceitos de jazida e reserva de petróleo e entre reserva provada e reserva estimada. As jazidas de petróleo do pré-sal devem ser, provavelmente, enormes. Mas isto não quer dizer que sejam reservas economicamente viáveis, muito menos ecologicamente sustentáveis. O alto custo da exploração do petróleo das profundezas não é bom para a economia e é péssimo para o meio ambiente.

Ninguém sabe, de fato, qual é a quantidade de óleo que poderá ser trazida à superfície. As estimativas de custos são ainda mais incertas e a viabilidade dos poços depende da capacidade de gerenciamento da extração e do preço internacional do petróleo. Mas o governo Lula ignorou toda a prudência possível e passou a gastar desregradamente em nome de uma suposta riqueza que o tal “Deus brasileiro” teria nos abençoado. E o pior, em vez de organizar a economia e a sociedade brasileira para os desafios da contemporalidade, o governo passou a dizer que a saúde, a educação e a infraestrutura do Brasil seriam resgatadas e aperfeiçoadas com a “riqueza pressaliana” do petróleo. O mito do Eldorado petrolífero ruiu no governo Dilma Rousseff.

Em vez de reforçar este mito, no dia 12 de março de 2010 – numa época em que só se ouvia loas ao “bilhete premiado” e o preço das ações da Petrobrás (PETR3.SA) estavam em R$ 41,49 – escrevi um artigo no EcoDebate questionando a mistificação das jazidas de petróleo do pré-sal e indaguei: “Elas vão realmente gerar riquezas para pagar a dívida social do país, para a segurança energética e a segurança nacional? A energia do petróleo é a energia que o Brasil precisa e que vai garantir uma economia forte e limpa no futuro? O óleo abissal vai ajudar ou atrasar a transição de uma economia de alto carbono para uma de baixo carbono? Quanto vai custar a extração do petróleo do pré-sal? O investimento é viável, economicamente e ambientalmente? Foi a melhor escolha para investir os recursos da Petrobras e do país?”

Portanto, há 5 anos eu já identificava os problemas que viriam pela frente. Mas confesso que subestimei os níveis de inconsistência administrativa e corrupção e não imaginei que os problemas atingiriam níveis tão graves e tão profundos.

No dia 27 de julho de 2010, quando as ações da Petrobras estavam a R$ 31,80, escrevi o artigo “Vamos nos preparar para o fim do mundo (do petróleo)” onde discuti o fato da extração do óleo ser um processo cada vez mais caro e da necessidade dos países se prepararem para o fim do petróleo barato e investir em energias renováveis.

No dia 29 de novembro de 2013, quando as ações da Petrobras estavam em torno de R$ 20,00, escrevi no EcoDebate o artigo: “Petróleo, aquecimento global e doença holandesa: os riscos do pré-sal”. Como o título mostra, além de questionar o aumento das emissões de gases de efeito estufa e a sobrevalorização cambial, escrevi: “Todos estes dados mostram que a exploração do pré-sal não é uma operação com retornos garantidos. O fracasso da empresa OGX do ex-bilionário Eike Batista (que foi considerado o homem mais rico do Brasil e o sétimo na lista mundial de bilionários da revista Forbes) assustou os investidores internacionais e indignou os acionistas brasileiros. A dívida acumulada da OGX foi estimada em mais de 5 bilhões de dólares e o valor das ações da empresa caiu para a bagatela de sete centavos. Além da má gestão, pesou o fato de a extração dos depósitos terem sido demasiado otimistas e as dificuldades técnicas de extração terem sido subestimadas. A bancarrota da OGX de Eike Batista deveria servir de alerta para a Petrobras e o Brasil”.

No dia 11 de abril de 2014, quando as ações da Petrobras estavam ao preço de R$ 15,61, escrevi no EcoDebate o artigo “Petróleo do pré-sal: ‘ouro em pó’ ou ‘ouro de tolo’?” criticando os ideólogos do “Eldorado do pré-sal” e mostrando que o petróleo barato já havia sido extraído e queimado no mundo e os novos campos requerem muitos recursos. A Energia Retornada sobre a Energia Investida (EROEI) muitas vezes não compensa a exploração: “Existe uma visão cornucopiana bastante difundida de que a natureza é capaz de nos fornecer todos os meios para o desenvolvimento humano. Porém, se por um lado a natureza é rica ela também é frágil e incapaz de corrigir os erros das escolhas humanas. Os nacionalistas que alardeiam as vantagens milagrosas do petróleo podem estar dando um tiro no pé, pois estão ajudando o Brasil a embarcar numa canoa furada, sustentada em um modelo de crescimento dependente dos combustíveis fósseis, que vai se tornar inviável após o Pico do Petróleo e ao acirramento das mudanças climáticas”.

No dia 19 de novembro de 2014, quando as ações da Petrobras estavam ao preço de R$ 12,26, escrevi no EcoDebate o artigo “Petrobras no fundo do poço profundo do pré-sal” onde mostra que o mito estava se desintegrando. Escrevi: “Quanto mais “pro-fundo” está o petróleo mais “pro-alto” vão os preços dos combustíveis. Assim, vamos torcer para que as promessas do “Brasil do Futuro” não fiquem atoladas no fundo do poço do fundo do mar. Enquanto isto, os consumidores brasileiros devem se preparar para novos e seguidos aumentos do preço da gasolina e do dieesel, que, por sua vez, vão impactar também no preço dos fretes e no aumento do custo dos alimentos”.

No dia 04 de março, quando o preço da ação da Petrobras estava em R$ 9,50 escrevi o artigo “O pré-sal, a crise na cadeia produtiva da Petrobras e a estagflação brasileira” mostrando como toda a estratégia de criar “campeões nacionais” e promover o “conteúdo nacional” fracassou em meio à incompetência e à corrupção, mas principalmente por ignorar os custos da exploração do pré-sal. Artigo de Fred Pierce mostra que o preço (breakeven) para o retorno dos investimentos no pré-sal é de US$ 120,00. Assim, mesmo que o preço internacional do barril do petróleo volte para a casa dos 100 dólares, a rentabilidade das jazidas abissais não deixará de estar comprometida. O fracasso da política do governo de impulsionar a produção de combustíveis fósseis jogou o Brasil na estagflação, afetou toda a cadeia produtiva e gerou desemprego em massa, com custos sociais incalculáveis.

Mesmo depois da extinção do “império” de Eike Batista e dos inúmeros erros da Petrobras, ainda há setores da esquerda estatista e do nacionalismo de direita que creem que o pré-sal é um “bilhete premiado”. Estas sub-forças políticas mistificam o valor das jazidas abissais para defender ideias patrióticas, mas que desconsideram o custo da extração dos combustíveis fósseis do pré-sal e ignoram os efeitos perversos sobre o meio ambiente. Muito melhor seria que todos se unissem para a produção de energia renovável de forma descentralizada, democrática, incentivando os prosumidores (produtores + consumidores) descentralizados e democratizados. Uma produção de energia de baixo para cima é a melhor forma de universalizar o acesso à energia e combater a corrupção dos grandes projetos centralizados pelo mercado ou pelo estado.

Ao invés da campanha “O petróleo é nosso”, melhor seria uma campanha: “A energia renovável é nossa”, ou “O sol e o vento são nossos”. A questão política chave dos próximos anos e décadas é permitir que o povo produza e consuma a sua própria energia (“Power to the people”, como já dizia John Lennon). Há diversas palavras de ordem mais atuais do que o velho lema da Petrobras: “O povo na rua quer a energia sua”; “Energia alternativa é a alternativa aos combustíveis fósseis”, “Renovar a energia das massas para conseguir energia renovável”, etc.

Segundo o site Bloomberg, a Petrobras chegou a valer US$ 310 bilhões em 2008 e seu valor caiu para US$ 48 bilhões em fevereiro de 2015. Mas a dívida da companhia está em mais de US$ 100 bilhões (sendo 70% da dívida denominada em dólar). Ou seja, a dívida é duas vezes maior que o valor da empresa. Tudo isto afeta o valor diário das ações, a despeito da existência das “riquezas” do pré-sal. No início de 2010 a ação da Petrobras valia algo em torno de 20 dólares. Em meados de março de 2015 a ação da Petrobras bateu no recorde de baixa de 8 reais, enquanto o dólar turismo chegou a bem mais de R$ 3,30. Ou seja, a ação da Petrobras está perto de 2,5 dólares, oito vezes menor do que há 5 anos.

Em síntese, a crise da Petrobras está piorando o processo de descarbonização da economia e reforçando a crise econômica brasileira. Em consequência, a popularidade da Presidenta Dilma Rousseff também está afundando. Pesquisa IBOPE (de 01/04/2015) mostrou que somente 12% consideram o governo ótimo/bom e 64% consideram o governo Ruim/péssimo.

O preço do petróleo (em torno de US$ 50 o barril) no mercado internacional torna deseconômico a exploração do pré-sal. Artigo de Fred Pearce, de 13/01/2015, já citado, mostra que o preço de equilíbrio (break-even) do barril do petróleo para o retorno dos investimentos no pré-sal, de US$ 120,00, é muito alto. Assim, o quadro de crise não deve melhorar mesmo se houver uma recuperação do preço internacional do petróleo para o nível médio de 2014 (Alves, 04/03/2015). Enfim, o pré-sal parece não encaixar na categoria de “bilhete premiado”. Infelizmente, a entrevista dada pela Presidenta Dilma ao site da Bloomberg, em 01/04/2015, parece contribuir para a mistificação do pré-sal.

Evidentemente, todo cidadão brasileiro torce pelo sucesso da Petrobras e para que a empresa se livre das práticas de corrupção e tenha um papel importante no sentido de avançar com uma matriz energética mais limpa e supere esta fase de dependência do pré-sal.

O Brasil precisa reduzir sua subordinação aos combustíveis fósseis. Não dá para jogar o futuro do país na dependência do petróleo das profundezas abissais. Precisamos reverter este processo de mistificação do pré-sal, pois este mito está afundando o Brasil. O Brasil deve descarbonizar sua economia e avançar com uma matriz energética com base nas fontes renováveis e defendendo um acordo avançado de superaçao dos combustíveis fósseis na Conferência do Clima, de dezembro de 2015, em Paris.

Referências:

ALVES, JED. Uma dúvida sobre o pré-sal e o sonho da (in)segurança. Ecodebate, RJ, 12/03/2010

ALVES, JED. Vamos nos preparar para o fim do mundo (do petróleo). Ecodebate, RJ, 27/07/2010

ALVES, JED. Petróleo, aquecimento global e doença holandesa: os riscos do pré-sal. Ecodebate, RJ, 29/11/2013

ALVES, JED. Petróleo do pré-sal: “ouro em pó” ou “ouro de tolo”? . Ecodebate, RJ, 11/04/2014

ALVES, JED. O pré-sal, a crise na cadeia produtiva da Petrobras e a estagflação brasileira. Ecodebate, RJ, 04/03/2015

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