Oscar Romero futuro beato. O postulador monsenhor Paglia: eis a verdade histórica sobre um pastor fiel

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04 Fevereiro 2015

Romero é o primeiro grande testemunho da Igreja do Concílio. O reconhecimento, sancionado pelo Papa, do seu martírio em ódio da fé é dirimente, não deixa nem a reservas sobre a natureza do seu agir, nem a interpretações instrumentais de sua figura”. Quem o afirma é monsenhor Vincenzo Paglia, postulador da causa desde 1996.

A entrevista é de Stefania Falasca, publicada pelo jornal Avvenire, 04-02-2015. A tradução é de Benno Dishinger.

Eis a entrevista.

O Papa Francisco autorizou hoje, terça-feira 3 de fevereiro, a promulgação do decreto de beatificação de Romero. São passados vinte e dois anos desde o início da causa. Por quê transcorreu tanto tempo assim?

A figura do bispo Romero se tornou logo objeto de instrumentalizações políticas. Semelhante situação comporto, portanto, a necessidade de examinar contextualmente a conduta e sobretudo os escritos de Romero para chegar à verdade histórica de sua ação na difícil e controversa situação salvadorenha de seu tempo. O percurso foi, portanto, assinalado por paradas, suspensões e outras medidas dilatadoras.

Houve reservas de caráter doutrinal?

Após o início da fase romana do processo, em 1988 a Congregação para a doutrina da fé assumiu o exame do caso.

E quais foram os resultados?

O resultado final do estudo dos testemunhos processuais, dos documentos e das outras cinquenta mil cartas do arquivo de Romero é que o seu pensamento teológico era “igual àquele de Paulo VI, definido na exortação Evangelii nuntiandi, como respondeu ele mesmo em 78 a quem lhe solicitava que apoiasse a teologia da libertação. E que, em substância, num contexto histórico caracterizado pela extrema polarização e pela cruenta luta política, descambou por conveniência para a ideologia marxista a defesa concreta dos pobres, que Romero sustentava não por proximidade às idéias socialistas, mas por fidelidade à Tradição, a qual desde sempre reconhece a predileção pelos pobres como escolha própria de Deus.

Como se chegou a estabelecer que seu assassinato fosse em ódio da fé?

Demonstrou-se que o ódio profundo da repressão oligárquica que armou a mão do assassino de Romero (“ex parte persecutoris”) era motivado somente pelo amor demonstrado pelo bispo pela justiça e a defesa dos pobres, dos indefesos e dos oprimidos. Um ódio que se voltou também sobre outros membros da Igreja. Em definitivo, Romero pagava não uma participação política num contexto violento de guerra civil, mas uma opção totalmente evangélica. Além disso se demonstrou (“ex parte servi Dei”) que Romero foi um verdadeiro pastor que deu a vida pela sua grei e sofreu a morte por coerência com sua fé, com a doutrina e o magistério da Igreja. Sua disposição a dar a vida se cumpriu no altar da mesa eucarística. E esta imagem final de Romero é aquela que o qualifica. São João Paulo II afirmou a respeito: “Mataram-no precisamente no momento mais sagrado, durante o ato mais alto e divino... enquanto exercia a própria missão santificadora oferecendo a Eucaristia”.

Após o ícone do Romero “militante” não há, todavia, o risco de fazer-lhe agora uma [imagem] somente espiritual?

O reconhecimento sancionado pelo Papa do seu martírio em ódio da fé é dirimente, não deixa mais espaço nem a reservas sobre a natureza do seu agir, nem a interpretações instrumentais de sua figura. Um retrato de Romero aderente à realidade é aquele que me deixou num testemunho escrito Gustavo Gutierrez: “Monsenhor Romero foi acima de tudo um pastor, esta é a primeira condição que aparecia desde o primeiro contato com ele. Foi um testemunho autêntico da verdade evangélica, com uma formação espiritual e teológica que podemos dizer tradicional. Não era uma pessoa que estava à mercê das opiniões dos outros, não era manipulável. Sua fé o levava a discernir os pontos de vista e as realidades que se lhe apresentavam. Foi um homem livre. A razão desta liberdade estava no seu senso de Deus, que lhe permitiu conservar a serenidade também diante da morte”.

Falou-se então de uma “conversão” de Romero: de padre conservador a revolucionário...

Logo após sua eleição a arcebispo de San Salvador, Romero assistiu a uma escalada da violência: aquela represssiva do governo militar e aquela eversiva dos grupos de guerrilha revolucionária. Os seus padres são trucidados, torturados. Diante deste clima de violência e de perseguição da Igreja, Romero reage como bispo e pede com força justiça às autoridades, o respeito pelos direitos humanos e começa a denunciar publicamente as atrocidades e as injustiças. Protege os oprimidos, o clero e os fiéis perseguidos, e o faz precisamente em força dos ensinamentos dos Padres da Igreja e através do magistério conciliar e pontifício. Poucos meses antes de morrer, quando um jornalista venezuelano lhe refaz a enésima pergunta sobre sua conversão de “padre em talar” a pastor militante desbalanceado em política, responde: “A minha única conversão é a Cristo, e ao longo de toda a minha vida”. 

Certamente o assassínio do padre Rutilio Grande, seu amigo fraterno, determinou nele um espírito de “fortaleza”, como o chamou ele mesmo. Uma consciência de dever agir naquele momento com mais coragem como “defensor civitatis”, apelando ao amor evangélico na vida social.

Quem era este padre?

Era um jesuíta. Mas, não pertencia ao grupo dos jesuítas intelectuais, acadêmicos, que teorizavam a mudança cultural e política do país. Padre Rutilio tinha escolhido a periferia, vivia em meio aos camponeses. Romero sublinhava particularmente a motivação de amor que havia guiado Rutilio em seu trabalho pastoral: “O amor verdadeiro é aquele que leva Rutilio Grande à morte enquanto dá a mão a dois camponeses. Assim ama a Igreja. Não por inspiração revolucionária, mas por inspiração de amor”.

Aquilo que Romero fez precisamente daquele sacerdote missionário é a conversão pastoral conforme o parágrafo 28 da “Evangelii nuntiandi”. Enquanto não se vive uma conversão do coração tudo será débil, revolucionário, passageiro, violento. Não cristão”, havia dito na homilia durante o funeral do jesuíta.

Quando encontrei o Papa Francisco ouço depois de sua eleição, ele me solicitou logo a ir em frente com a causa de Romero, e até me disse de correr... e me falou também da importância do padre Rutilio Grande, que ele havia conhecido e através do qual se compreende a fundo a ação pastoral de Romero.

Um agir pastoral que, no entanto, frequentemente encontrava oposições da parte do núncio e de outros no episcopado...

Como escreve Romero no diário, referindo-se a alguns coirmãos, “a fidelidade a este povo tão paciente que eles não conseguem compreender está entre as coisas essenciais”, e sobre a qual ele não pode ceder. A relação com o Papa constituía uma referência essencial e decisiva para identificar as suas responsabilidades e modelar a sua fisionomia de bispo segundo as exigências do Evangelho, do Concílio e do magistério. Desde o primeiro encontro com Paulo VI, ele recebeu apoio para prosseguir com coragem na sua difícil missão, obstaculizada por incompreensões, contrastes e calúnias para sua pessoa. Vinte dias antes da morte havia dito numa pregação:“Para mim, o segredo da verdade e da eficácia da minha pregação é estar em comunhão com o Papa”.

Também com a expressão desta fidelidade vivenciou plenamente o seu moto episcopal: “Sentire cum ecclesia”.”

Que coisa caracteriza o caso de Romero com respeito a tantos outros martírios do século vinte?

A Igreja canonizou muitos mártires dos regimes totalitários do comunismo e do nazismo. A história do martírio de Romero se insere nas perseguições da Igreja da América latina nos anos Setenta-Oitenta. Romero, como outros sacerdotes, foi assassinado por um sistema oligárquico formado por pessoas que se professavam católicas e que viam nele um inimigo da ordem social ocidental e daquela que já Pio XI, na “Quadragesimo anno”, chama de “ditadura econômica”. Foi o primeiro exemplo conhecido neste sentido”.

Qual é hoje a oportunidade desta beatificação? O que pode significar para o tempo presente e futuro da Igreja?

Sempre me impressionou o fato de que Romero, embora sendo arcebispo, primaz da Igreja salvadorenha, preferiu habitar não na residência episcopal, mas na casa do porteiro de um hospitalzinho. Penso que sua beatificação, após tantas vivências, encontra precisamente nesta época eclesial o seu cumprimento, o que responde a um desígnio providencial.

Romero é um bispo que, com espírito de fortaleza, pôs em prática as bem-aventuranças evangélicas. Procurou a justiça, a reconciliação e a paz social. Sentiu a urgência de anunciar a Boa Nova e proclamar em cada dia a Palavra de Deus. Amou uma Igreja pobre com os pobres, viva com eles, sofria com eles. Serviu Cristo nas pessoas do seu povo. Sua fama de homem de Deus ultrapassa os confins da Igreja católica. É o primeiro grande testemunho da Igreja do Concílio Vaticano II. Um exemplo de Igreja em saída. Neste sentido, creio que represente uma figura emblemática para a Igreja de hoje e lhe ilumine o ministério presente e futuro”.

O Papa disse que não celebrará sua beatificação. Já foi fixada a data?

O Papa Francisco, como é seu costume, não celebra beatificações. Com certeza será celebrada proximamente em San Salvador pelo prefeito para as Causas dos santos, o cardeal Amato. Mas, a data exata ainda não foi definida”.

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