Vaticano: a cirurgia plástica é uma ''burca de carne''

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04 Fevereiro 2015

Testemunha da Assembleia Plenária do Pontifício Conselho para a Cultura, assim como rosto do vídeo encomendado pelo Vaticano para a iniciativa sobre as culturas femininas #LifeofWomen (site ítalo-inglês), a atriz Nancy Brilli (foto) respondeu ao cardeal Gianfrancio Ravasi e à sua definição extrema de cirurgia estética: é como "uma burca de carne".

A reportagem é de Katia Riccardi, publicada no sítio do jornal La Repubblica, 02-02-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"As mulheres buscam se homologar para serem aceitas. Eu não entendo por que demonizar se alguém não se sente à vontade e, depois, após a operação, está melhor, quando se trata de nos tornarmos como desejamos e não de seguir um padrão imposto de fora", respondeu Nancy Brilli, companheira, como ela mesma lembrou, de um cirurgião plástico, falando na coletiva de imprensa do Pontifício Conselho sobre a plenária convocada para os dias 4 a 7 de fevereiro.

"Estou muito envolvida com isso, estando junto de um cirurgião plástico que se ocupa principalmente de reconstrução pós-câncer. Definir essa cirurgia como 'nova burca' depende do fato de que as mulheres, muitas vezes, buscam se homologar a um modelo para serem aceitas. Se alguém altera a fisionomia com que vem ao mundo, na qual se sente desconfortável, no entanto, não entendo por que deva ser demonizado e criticado: se está melhor, onde está o dano? Não entendo. Ao contrário, se se trata de se tornar como uma mulher deve ser, isso é terrível. Nesse sentido, é burca: 'Você não pode ser como você é. Você deve ser como eu decido'".

A réplica do cardeal

Presidente do dicastério vaticano, o cardeal Gianfranco Ravasi teve que defender a afirmação do documento preparatório, que evidentemente havia aprovado como chefe do dicastério. Assim, definiu o frequente recurso à cirurgia plástica como "um aspecto interessante" da cultura de hoje e revelou ter estudado, pessoalmente, o problema em uma perspectiva particular, a da medicina esportiva, que pode recorrer a isso para "favorecer o desempenho muscular", evitando "o doping tradicional".

"Nesses casos – advertiu Ravasi –, trata-se de uma intervenção também na estrutura psicológica da pessoa. E isso, no futuro, vai ir muito mais longe. Então, o discurso será muito mais dramático."

Mas a reviravolta é real. O Vaticano está se preparando para discutir  sobre "culturas femininas", e o documento preparatório da cúpula publica um "esboço de trabalho" que, dentre outras coisas, também aborda a questão da cirurgia estética: "'Burca de carne' – explica o texto – é uma definição muito pertinente, embora contundente, dada por uma mulher. Deixando a liberdade de escolha para todos, não estamos sob o jugo cultural do modelo feminino único? Pensamos nas mulheres usadas na publicidade e na comunicação de massa?".

Igreja e neurociências

O cardeal Ravasi disse que "é impressionante o crescimento da cirurgia plástica para aderir a um modelo extrínseco: as jovens de 18 anos que pedem um novo seio de aniversário". A questão, para o purpurado, no entanto, é mais ampla e diz respeito à "questão da trans-humanismo ou pós-humanismo", por exemplo, "as neurociências: quando se começa a intervir na interconexão neuronal, estamos diante de âmbitos que têm redundâncias delicadas sobre o plano ético" e, outro exemplo, "a evolução da medicina esportiva, em que não se trata apenas de favorecer o desempenho muscular, por exemplo, mas também de mudar a estrutura fisiológica e psicológica da pessoa, além do doping, e será uma questão muito mais dramática".

O vídeo da #LifeOfWomen

Já haviam sido polêmicas as reações ao vídeo de Nancy Brilli, cuja versão em inglês foi censurada [assista abaixo à versão em italiano]. No clipe de #LifeOfWomen, a atriz pergunta às mulheres quantas vezes elas se perguntam: "Quem é você? O que você faz? O que você pensa de si mesma como mulher?". Depois, convida-as a enviarem um vídeo de 60 segundos que as represente. Os escolhidos, incluídos em uma montagem, serão exibidos durante a plenária.

A iniciativa, porém, foi duramente criticada, particularmente nos EUA, onde a atriz foi considerada muito sexy para ser porta-voz do Vaticano.

Phyllis Zagano, da Hofstra University, declarou ao National Catholic Reporter: "O que eles estão pensando no Vaticano? Além do óbvio – a lógica do 'sexo vende' já foi superada há muito tempo nas nações desenvolvidas e é totalmente inaceitável nos países predominantemente muçulmanos –, o fato é que dar destaque a uma porta-voz estereotipada não é a maneira certa de pedir as contribuições das mulheres".

Foi diferente a posição da socióloga Consuela Corradi, uma das 15 mulheres que aconselharam o cardeal Ravasi sobre a iniciativa: "Se tivéssemos escolhido uma mulher feia, a mensagem teria mudado? Acho que não".

"Eu fiz esse vídeo com um grande prazer – disse, de sua parte, a atriz, na sua primeira vez na Sala de Imprensa vaticana –, estou contente com a abertura por parte do Vaticano e do Papa Francisco, e com a clarividência do cardeal: era uma ocasião que não se podia perder. Como mulher, profissional, mãe, sinto que é a primeira vez em que se pede a nossa opinião. Não se sabe quais papéis haverá depois, talvez será preciso inventá-los. O fato é que fazer parte deste trabalho é importante para todas nós, cada uma com a sua contribuição."

Assista abaixo a versão do vídeo em italiano:

{youtube}M-ROkyDR-jQ{/youtube}

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