Para Bergoglio, Calvino é um ''carrasco espiritual''. Artigo de Paolo Ricca

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07 Junho 2014

Surpresa e desilusão provocadas por algumas das páginas do atual pontífice sobre a Reforma protestante: a partir de tal visão, uma celebração ecumênica do 500º aniversário da Reforma, em 2017, parece ser literalmente impossível.

A opinião é do teólogo e pastor valdense italiano Paolo Ricca, em artigo publicado na revista Riforma, das Igrejas evangélicas batista, metodista e valdenses italianas, 06-06-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Uma má surpresa. Realmente má. E uma inesperada desilusão. Surpresa e desilusão provocadas por algumas das páginas do atual pontífice sobre a Reforma protestante, que, infelizmente, reproduzem os mais desgastados e grosseiros clichês polêmicos usados pela Contrarreforma em tempos distantes para difamar o protestantismo.

Nunca esperávamos vê-los repropostos pelo papa "que veio de longe". Essas páginas – já assinaladas na revista Riforma do dia 16 de maio passado, por uma carta de Carlo Papini, p. 11 – reproduzem uma conferência proferida pelo então arcebispo Bergoglio, na Argentina, em 1985, com o título: "Quem são os jesuítas", publicadas agora em italiano, junto com dois outros artigos, em um livreto lançado em maio deste ano e precedido por uma introdução de Antonio Spadaro, diretor da La Civiltà Cattolica (a conhecida revista dos jesuítas), autor de uma ampla e instrutiva entrevista com o pontífice atual [1].

Agora, segundo o padre Spadaro, "os dois casos concretos" examinados por Bergoglio na conferência agora citada, isto é, a Reforma protestante e a missão latino-americana, "são dois riquíssimos afrescos" (p. 13), que "iluminam o leitor sobre o modo de proceder de Bergoglio como pontífice" (p. 11) – modo de proceder que, ainda de acordo com o diretor da La Civiltà Cattolica, "está fundamentado sobre dois pilares: a realidade e o entendimento" (p. 14).

Ora, eu não sei bem o que o padre Spadaro e, com ele, o Papa Francisco entendem por "realidade". Mas estou certo de que a "realidade" da Reforma, pelo pouco que a conheço, é completamente diferente da "afrescada" por Jorge M. Bergoglio. É verdade que as páginas remontam há quase 30 anos. Mas foram publicadas tais quais 30 anos depois, em italiano, em maio deste ano, sem a mínima modificação ou nota explicativa e, de fato, apresentadas como um "riquíssimo afresco".

Ouçam o que o papa, quando ainda era arcebispo, dizia (esperamos que agora não o diga nem pense mais) sobre Calvino, que, segundo ele, é muito pior do que Lutero. Lutero era herege, e a heresia é "uma ideia boa enlouquecida" (p. 22) [2]. Mas Calvino, além de herege, também foi cismático e o foi em três áreas diferentes: o homem, a sociedade e a Igreja.

No homem, Calvino provoca até mesmo dois cismas. O primeiro é "entre a razão e o coração", do qual nasce "a miséria calvinista" (p. 23). O segundo ocorre dentro da própria razão, "entre o conhecimento positivo e o conhecimento especulativo", com danos irreparáveis para "toda a tradição humanista" (p. 23).

Na sociedade, Calvino provoca o cisma entre as classes burguesas, que ele privilegia "como portadoras de salvação" (p. 25), e as corporações dos ofícios que representam "a nobreza do trabalho". Calvino seria promotor de "uma internacional da burguesia" e, como tal, "o verdadeiro pai do liberalismo" (p. 26).

Na Igreja, enfim, Calvino provoca o pior cisma: "A comunidade eclesial é reduzida a uma classe social" – a burguesa –, e "Calvino decapita o povo de Deus da unidade com o Pai. Decapita todas as confraternidades dos ofícios, privando-as dos santos. E, suprimindo a missa, priva o povo da mediação em Cristo realmente presente" (p. 32). Em suma: Calvino é um verdadeiro carrasco espiritual, que decapita tudo o que pode!

Custo a acreditar que o atual pontífice pense essas coisas de Calvino e da Reforma, que não estão nem no céu nem na terra, e que nenhum historiador católico – ao menos entre os que eu conheço e leio – diz mais há muito tempo. E, dado que os jesuítas, quando nasceram, assumiram como tarefa, além da missão entre os pagãos, também a de combater com todos os meios o protestantismo – como efetivamente aconteceu – então, se o protestantismo que combateram é o "afrescado" por Bergoglio, eles devem saber que combateram um protestantismo fantasma, que nunca existiu, um puro ídolo polêmico criado só pela sua fantasia, que pouco ou nada tinham a ver com a famosa "realidade", que também queriam assumir como "pilar" do seu "modo de proceder".

Mas isso não é tudo. Ouçam o que Bergoglio dizia (esperemos que não o diga nem o pense mais) sobre as consequências da Reforma. Segundo ele, "a partir da posição luterana, se formos coerentes, restam apenas duas possibilidades para se escolher no curso da história: ou o homem se dissolve na sua angústia e não é nada (e é a consequência do existencialismo ateu), ou o homem, baseando-se nessa mesma angústia e corrupção, dá um salto no vazio e se autodecreta super-homem (é a opção de Nietzsche) (…) Tal poder [o imaginado por Nietzsche], como ultima ratio, implica a morte de Deus. Trata-se de um paganismo que, nos casos do nazismo e do marxismo, adquiriria formas organizadas" (p. 34).

Tudo isso "a partir da posição luterana", que evidentemente – segundo essas páginas de Bergoglio – é a causa primeira, embora remota, das piores coisas que aconteceram no Ocidente, incluindo a secularização, a "morte de Deus", e os vários totalitarismos que infestaram a história moderna da Europa.

Em suma, é a velha tese da Contrarreforma: a Reforma protestante visto como fonte de todos os males ou, melhor, de todos aqueles que a Igreja de Roma considera como "males".

Pergunto-me como é possível ter ainda hoje (ou mesmo há 30 anos) uma visão tão deformada, distorcida, deturpada e substancialmente falsa da Reforma protestante. É uma visão com a qual não só não se pode começar um diálogo, mas nem mesmo uma polêmica: não vale a pena, porque é distante e disforme demais da "realidade". Uma coisa é certa: a partir de tal visão, uma celebração ecumênica do 500º aniversário da Reforma, em 2017, parece ser literalmente impossível.

Notas:

1. Jorge Mario Bergoglio, Chi sono i gesuiti. Bolonha: EMI, 2014 (a primeira edição, publicada em Buenos Aires, é de 1987; uma segunda edição foi publicada na Espanha, em 2013).

2. Portanto – digo-o em nota de rodapé –, nós, valdenses, "hereges" há oito séculos, somos, junto com todos os outros protestantes, seguidores de "uma ideia boa enlouquecida", isto é, até certa medida, todos loucos.

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