“O narcotráfico é mais uma corporação capitalista”. Entrevista com o antropólogo mexicano Gilberto López y Rivas

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Por: Caroline | 11 Abril 2014

Gilberto López y Rivas (foto), antropólogo, ensaísta e político mexicano é professor-pesquisador do Instituto Nacional de Antropologia e História em Morelos (México). Já foi deputado federal, assessorou o Governo da Nicarágua sobre questões étnicas e ao Exército Zapatista da Libertação Nacional (EZLN), durante os diálogos de San Andrés. Também foi integrante da Comissão de Intermediação para o Diálogo entre o Exército Popular Revolucionário (EPR) e o governo do México. Também colabora, desde 1994, para o jornal La Jornada.

O jornal Diagonal teve a oportunidade de conversar com ele, durante sua visita ao Fórum Social Mundial em Madrid, que ocorreu entre os dias 28 e 30 de março.

Em uma conversa concedida durante o Fórum, realizou uma revisão histórica do zapatismo e analisou o estado de saúde dessa organização após os 20 anos de seu levante, ocorrido em 1994. Este pesquisador também tratou de aprofundar a reflexão sobre o processo de recolonização que está sendo realizado em muitos países da América Latina, como é o caso do México.  A entrevista é de Emma de Coro, publicada por Diagonal, 10-04-2014. A tradução é do Cepat.

Fonte: http://goo.gl/H0ohF3

Eis a entrevista.

Em países como o México ocorre atualmente uma ocupação integral através das reformas estruturais estabelecidas pela Carta Magna, visto que não apenas em seu âmbito econômico são afetados, mas também o campo político, ideológico, das comunicações e os marcos constitucionais e legislativos. Dentro dessas estratégias de ocupação integral o senhor cita o narcotráfico como uma delas. Em que consiste, exatamente, o papel do narcotráfico na recolonização do México?

Os estrategistas estadunidenses chamam de guerras assimétricas aqueles que não estão entre os poderes similares, mas que ocorrem através de inimigos difusos. O papel, antes ocupado pelo comunismo, agora é deempenhao por dois fantasmas: de um lado o narcotráfico e do outro o terrorismo. A ocupação de países requer semear uma guerra, obviamente com os atores locais, neste caso com um governo, como o de Felipe Calderón (2006-2012), que inicia com uma suposta “guerra contra o narcotráfico” e, em seguida, é acompanhada pelo auxílio dos EUA. Neste sentido o narcotráfico não é apenas um negócio, uma corporação capitalista a mais, visto que sua tarefa política é instalar o terror através da violência e servir de desculpa para militarizar o país e criminalizar todas as lutas sociais, mas ele justifica a implantação de um aparato repressivo que serve para o controle da população, controle dos trabalhadores e controle do território para a entrada do capital.

Quando fala das reformas da Constituição e as leis, quais são as que, de maneira mais profunda, têm afetado o México?

A primeira destas reformas foi a reforma do artigo 27 de nossa Constituição que abriu as terras comunais e exigências de mercado. Contudo, a partir desta contrarreforma, promoveu-se uma lei de mineração que deixa os territórios nas mãos das grandes companhias de extração de metais preciosos, principalmente as canadenses. Foi emitida também a lei das águas, cada vez mais privatizada e controlado por corporações como a Coca Cola e, mais recentemente, a “cereja do bolo” transnacional, isto é, uma reforma energética aprovada em dezembro do ano passado. Para o Governo estadunidense, em um conflito aberto com a Venezuela, o que o proporciona cerca de 8% a 12% do petróleo dos EUA, era uma prioridade forçar a ruptura do monopólio estatal da  empresa estatal Petróleos Mexicanos (PEMEX). Com esta reforma privatizou-se totalmente a reserva de petróleo e eletricidade do México, a qual passa a se tornar uma extensão da reserva estratégia petroleira dos EUA.

O México também sofreu reformas no âmbito educacional, o que levou a períodos tumultuados com greves de professores e protestos de todos os tipos no setor da educação.

A educação é um dos primeiros ambitos atacados com uma reforma que persegue a vários fins. Em primeiro lugar, eliminar das escolas primárias e secundárias as humanidades, a história, todos os civismos, tudo o que significa pensar, questionar ou recordar; para entrar em uma espécie de amnésia histórica. Além nisso é uma reforma que busca romper com os diretos adquiridos por um magistério muito politizado. Esse, por sua vez, será questionado de modo permanente por uma série de testes padronizados realizados pela iniciativa privada, no qual nem ao menos serão os próprios professores que se avaliarão entre seus pares, mas trata-se de um avaliação externa baseada em parâmetros como eficiência ou qualidade, provenientes do mundo capitalista. E, por último, limita o papel do professor na socialização das crianças e jovens. Não se deseja pessoas críticas que possam em certo momento tomas as ruas e rebelar-se, como os zapatistas.

Neste contexto de invasão da vida pública, outros movimentos que estão sendo duramente atacados são os processos de Autonomia Indígena. É o caso da Coordenadoria Regional de Autoridades Comunitárias – Polícia Autônoma Comunitária em Guerreiro (México)?

A Coordenaria Regional de Autoridades Comunitárias (CRAC) e sua polícia comunitária, no estado de Guerreiro, constituem um dos processos autônomos mais importantes. As comunidades empreenderam esta prática autônoma para fornecer segurança que as autoridades estatais e federais não lhes ofereciam. Esta polícia não recebe pagamento algum e, a única gratificação recebida, é o reconhecimento social.  A polícia comunitária tem alterado os interesses estabelecidos entre as forças de segurança e o narcotráfico, e são um freio para o negócio que a segurança pública representa para quem a controla e para aqueles que cobram das despesas públicas e se dedicam a organizar os grupos criminosos. Por isso mesmo, a polícia comunitária tem sido atacada violentamente pelos governos federal e estatal, assim como pelo Exército. Atualmente vários de seus membros encontram-se encarcerados. Também não devemos esquecer que a CRAC se opôs às concessões da mineração, o que o fez ganhar muitos inimigos.

A eclosão da rebelião Zapatistas e os processos de diálogo que foram abertos, nos quais o senhor participou como assessor do EZLN, foram representativos para os movimentos sociais e processos Indígenas no México?

O processo de discussão e debate aberto em 1994, não era novidade para os indígenas, mas para o restante da sociedade foi inusitado, foi uma espécie de universidade para muitos temas que logo se tornaram chaves para o Zapatismo. Um deles foi a Autonomia, mas não uma autonomia entendida como disposições administrativas ou a distribuição de competências, mas uma Autonomia como processo de conscientização, processo de afirmação de identidades étnicas, processos de resistência anticapitalista a partir de uma velha tradição de autogoverno dos indígenas, de justiça própria, de formas de organização coletiva...

O êxito da Escolinha Zapatista na qual, no mês de agosto do ano passado, participaram mais de 1.700 pessoas vindas de todas as partes do mundo, o que acredita que ela tenha trazido?

A Escolhinha chamada “A Liberdade segundo os Zapatistas” serviu para demonstrar várias coisas. Por um lado, das pessoas assistidas podemos constatar que 80% dos “votantes” (os “vótans” são os guardiões, o coração do povo, o acompanhante que cada um teve durante dias e noites) eram jovens. Comprovamos que o Zapatismo teve uma mudança geracional, que é uma organização que se mantém viva mesmo frente às vozes que preconizavam seu desaparecimento a qualquer momento, como diversos jornais, entre eles o El País. E, por outro lado, constatamos, na contramão das opiniões racistas que sustentam que os indígenas são meros marionetes, cobaias, há argumtenos  como o de Vargas Llosa, de que estes são sujeitos que controlam seus próprios processos. A Escolinha Zapatista partiu de seus Conselhos de Bom Governo (Juntas Buen Gobierno) como uma tentativa de tornar conhecido ao mundo sua realidade.


Após 20 anos da eclosão da rebelião, o que apresentou o Exército Zapatista (EZ)?

O EZLN segue como uma força intacta, com uma congruência ética que se manifesta, por exemplo, na retirada de todos os seus quadros políticos militares dos órgãos do governo, ao contrário do que fez qualquer outra organização partidária, que persegue o caminho da burocratização e a eternização de seus dirigentes. O EZ segue como uma consciência crítica, sempre presente na vida do país.

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