A vida simples e cheia de graça de Pedro Fabro

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25 Março 2014

 

No último mês de agosto, o Papa Francisco surpreendeu um entrevistador quando disse que Pierre Favre (normalmente aportuguesado para Pedro Fabro) estava entre seus jesuítas favoritos (cf. revista America, 30-09-2013). Fabro não é alguém famoso do público geral. Graças ao papa ele está começando a se tornar conhecido, e com razão. Fabro foi formalmente proclamado santo em 17-12-2013.

A reportagem é de John W. Padberg, publicado por America, 24-03-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Pedro Fabro está no limiar da Companhia de Jesus. Foi o primeiro companheiro, em Paris, de Inácio de Loyola. Francisco Xavier foi o segundo. Conhecemos Inácio como o autor dos “Exercícios Espirituais” e o primeiro e mais importante dos 10 fundadores da Companhia.

Conhecemos Francisco Xavier como uma inspiração para gerações de missionários cristãos, levando a mensagem do Evangelho a todas as partes do mundo. Por outro lado, Pedro Fabro – o primeiro a ser ordenado padre – foi o “companheiro discreto”.

Como jesuíta, a pedido dos demais era transferido de um lugar para outro, de uma atividade para outra, nos primeiros anos de sua vida apostólica. Foi um ministro que trouxe o Jesus compassivo, consolador, redentor àqueles com quem trabalhou. Ele assim o fez especialmente através da presença, amizade, pregação e direção espiritual. Em grande parte estas atividades dependem de características pessoais. O Papa Francisco descreveu bem as características que, em particular, o comoveram: “[O seu] diálogo com todos, mesmo com os mais distantes, até mesmo com os seus oponentes, a sua piedade simples, talvez uma certa ‘ingenuidade’, a sua disponibilidade imediata, o seu discernimento interior cuidadoso; o fato de que foi um homem capaz de grandes e sólidas decisões, mas que também conseguia ser gentil e amoroso”.

Os primeiros companheiros

Pedro Fabro, nascido em 1506, veio das montanhas pastoris do Ducado de Saboia, um reduto destemidamente independente de cidadãos igualmente decisivos. Certa vez um de seus legisladores exclamou em desespero: “Estes demônios de Saboia não se contentam. Se o bom Deus fizesse chover moedas de ouro sobre as casas locais, iriam reclamar dos danos causados em seus telhados”.

Fabro e Xavier se encontraram pela primeira vez em 1525 quando tinham 19 anos de idade. Fabro chegou como estudante à Universidade de Paris, a instituição educacional mais famosa na época. Três anos mais tarde Inácio chegava para dar continuidade a seus estudos no intuito de “ajudar as almas”. Durante um ano Inácio frequentou o tradicional Collège de Montaigu, bem como o fez Fabro por um tempo; esta escola foi imortalizada por Erasmo de Rotterdam como o lugar de “escorbuto, pulgas, camas duras, peixes estragados, ovos podres e vinho azedo”. Em seguida, Inácio se transferiu para o mais contemporaneamente orientado Collège Ste. Barbe, onde conheceu seus colegas de quarto, Fabro e Xavier.

Supõe-se que este trio era diferente dos alunos do Ste. Barbe, vividamente descritos por um professor à época: “Enquanto o professor grita até ficar rouco, esses malandros preguiçosos dormem ou ficam a pensar em seus prazeres. Um, que está ausente, terá um amigo para responder por ele a chamada. Um outro perdeu os calçados (...). Este outro está doente, aquele outro está escrevendo para seus pais (...) e então temos os alunos vadios que vêm da cidade”.

Pedro começou ajudando Inácio em seus estudos; Inácio aos poucos se tornou um amigo querido e conselheiro com quem Fabro partilhava seus problemas. Inácio poderia compreendê-los bem; ele havia experimentado os mesmos dissabores, as tentações, incertezas que há muito atormentavam Fabro. Fabro nunca se livrou destes fardos por completo, mas aprendeu com Inácio a lidar com eles e a ajudar os outros nas mesmas circunstâncias.

Em 1538, após terminarem os estudos e não tendo condições de irem como peregrinos à Terra Santa como esperavam, aqueles que seriam os 10 primeiros jesuítas apresentaram-se ao Papa Paulo III, em Roma, para servi-lo em seu papel de pastor da Igreja universal. Ele imediatamente os enviou para uma grande variedade de ministérios. Fabro primeiramente foi para Parma. Deste momento até sua morte, papas, imperadores, reis, cardeais, núncios e seu superior jesuíta, Inácio, fariam da vida dele uma longa caminhada de atividades pastorais. Esta vida se tornou uma ladainha de cidades e amizades, destas últimas muitas foram face a face, outras nutridas via cartas. Os seus correspondentes iam de Inácio a Guillaume Postel, um famoso humanista francês; de Pedro Canísio, o futuro apóstolo da Alemanha, ao rei de Portugal; de jovens que ele havia recrutado para esta nova Companhia de Jesus ao prior dos Cartuxos, da localidade de Colônia (Alemanha).

Em 1540, o papa enviou Fabro a Worms com um representante de Carlos V, o imperador do Sacro Império Romano, para uma reunião com líderes protestantes. Pedro foi o primeiro jesuíta a entrar na Alemanha. Dada as condições da Igreja Católica aí, ele disse que “jamais poder-se-ia ficar surpreso com alguma coisa (...), exceto com o fato intrigante de que nem mesmo há mais luteranos”. Por exemplo, o imperador lembrou o arcebispo católico de Colônia, onde Fabro logo começou a trabalhar: “Como aquele pobre homem poderia fazer alguma reforma? Durante sua longa vida ele sequer celebrou a missa por mais de três vezes. Ele nem mesmo sabe a Confiteor [oração de Confissão]”.

Em todo o lugar a que foi, Fabro pregou, ministrou os Exercícios Espirituais, ouviu confissões, se envolveu na direção espiritual e fundou comunidades jesuítas. Numa carta a um outro jesuíta, de forma bastante decisiva ele estabeleceu dois princípios para toda e qualquer obra entre os reformadores: “[Em primeiro lugar], se alguém estiver a ajudar os hereges em nossa época, primeiramente deve olhá-los com grande carinho e amá-los em verdade. Além disso, deve fechar sua mente a tudo aquilo que tende a diminuir suas afeições por eles. [Em segundo lugar], a aproximação dever ser estabelecida junto deles em áreas nas quais há concórdia entre nós, e não naquelas coisas que tendem a apontar para nossas diferenças mútuas”. Tudo isso ocorreu enquanto teólogos católicos e protestantes fulminavam anátemas uns contra os outros. Mas como um dos mais violentos porta-vozes entre os católicos comentou, com admiração, sobre Fabro: “Encontrei-me com um mestre da vida das afeições”. Simão Rodrigues, um dos primeiros companheiros jesuítas, escreveu sobre Fabro: “Ele tem o gênio da amizade. Tem um charme e uma graça para lidar com as pessoas que não vi em ninguém mais”. E Inácio disse que, de todos os jesuítas, Pedro era o mais completo como diretor dos Exercícios Espirituais.

Os luta interior

Com uma atribuição após outra, frequentemente com a saúde debilitada, em 7 anos estando em mais de 25 cidades no que hoje são a Itália, Alemanha, França, Espanha, Suíça, Bélgica e Portugal, Fabro pregou e deu forma a um Cristo simples e compassivo. Plantava sementes de renovação e, em seguida, precisa deixar o campo para que outros fizessem a colheita. Deixar os amigos que foram feitos em cada um destes lugares quando o pediam para assumir uma nova responsabilidade constituiu uma autoabdicação difícil. Se se somar todas voltas e reviravoltas de suas viagens, provavelmente totalizarão 25.000 km, raramente a cavalo, muitas vezes sobre uma mula e, frequentemente, a pé. Esta foi a caminhada externa de Fabro.

Em parte, sua viagem interna está registrada nas 150 cartas e, principalmente, em seu “Memoriale”, uma espécie de autobiografia espiritual. Foi escrito durante suas viagens, entre meados de 1542 e início de 1546, em meio a todas as suas atividades. O diário assim começa: “Bendito seja o Senhor, Ó minh’alma e não esqueçais de todos os seus benefícios”.

É uma lembrança dos feitos de Deus na vida de Fabro, um diálogo contínuo com Deus como o parceiro principal e, às vezes, com os santos, os anjos (pelos quais tinha uma devoção especial), seus irmãos jesuítas e os “espíritos” das cidades pelas quais passou. O lado do diálogo em que Fabro se encontra mostra seus desejos, os “movimentos” espirituais que vivenciou, o discernimento de seus significados e pedidos de esclarecimento, iluminação.

Cada vez mais fala de “percepções” espirituais elevadas, como as descreveu: um “conhecimento imediato com a compreensão amorosa (...) de Deus, o próprio Senhor”, e de ser “elevado ao semblante de Deus”. Uma de suas breves orações resume sua espiritualidade trinitária fundamental: “Pai, em nome de Jesus, dê-me seu Espírito”.

Muitas vezes também, Fabro reza tanto com grande satisfação quanto com realismo para pessoas específicas, sendo algumas delas escolhas surpreendentes. “Oito pessoas me vieram à mante e senti o desejo de lembrá-las em oração e ignorar seus defeitos. Elas eram o supremo pontífice [Paulo III], o imperador [Carlos V], o rei da França [Francisco I], o rei da Inglaterra [Henrique VIII], Lutero, o Turco [o sultão muçulmano], Bucer, e Melanchthon [dois reformadores proeminentes] (...) e, no impulso do espírito, ocorreu em mim um certo sentimento de compaixão por eles”. Têm-se poucos registros de pessoas naquela época, seja do lado católico ou do lado protestante, que rezavam por seus oponentes.

Fabro foi, naturalmente, um homem condicionado pelas circunstâncias do século XVI. Porém, algumas das circunstâncias de nossa época são análogas àquelas da época dele, e a forma como ele as respondeu pode bem ser apropriada para nós no século XXI. De tempos em tempos, Fabro foi convocado a trocar de um lugar para outro (de uma responsabilidade para outra), tal como acontece muitas vezes com as pessoas hoje. Mas ele aceitava tudo isso de forma tão profunda que, em todo lugar onde ia, era apoiado tanto pela presença de Deus quanto por uma comunidade de amigos. Vivenciou profundamente as mudanças, às vezes dolorosas, a seu redor neste mundo e na Igreja, tal como aquelas mudanças que existem atualmente. Mas, em meio à dúvida e desânimo, via o mundo e a Igreja com um sentido de providência, proporção e paciência. Também, sua sensibilidade para com seus estados interiores o ajudaram a ser igualmente sensível às circunstâncias dos homens e mulheres, de enorme variedade, com os quais ele entrou em contato. Enfim, Fabro desejou uma relação sempre mais profunda com Deus. Ele sabia que isio dependia, primeiramente, da iniciativa do amor infalível de Deus.

Por fim, convocado pelo Papa Paulo III a servir no Concílio de Trento, Fabro, já com a saúde debilitada, fez sua última viagem de Madri a Roma. Aí, em 1546, com apenas 40 anos, morreu cercado de seus irmãos na residência jesuíta.

Fabro agora descansa no limiar da Companhia de Jesus num outro sentido. Na [Iglesia del] Gesù, a principal dos jesuítas em Roma, peregrinos veneram relíquias de Inácio e Xavier nos dois altares magníficos. Mas quando a Gesù foi construída, no final do século XVI, era impossível distinguir os restos mortais de todos os seus irmãos jesuítas que foram enterrados ao longo das décadas na antiga residência e igreja da Ordem. Assim, todos estes restos foram reunidos e enterrados numa cripta bem embaixo da principal entrada da Iglesia del Gesù. Todos os peregrinos que entram aí hoje – vindos de todos aqueles lugares onde Faber evangelizou e para os quais rezou – caminham, ainda que sem saber, diretamente por sobre e em direção à presença do último lugar de descanso de um místico, missionário, guia espiritual, jesuíta e, agora, santo.

 

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