A Comunidade de Santo Egídio e o futuro dos imigrantes africanos

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21 Outubro 2013

O Papa Francisco fez propaganda para a Comunidade de Santo Egídio durante o seu discurso do Ângelus do dia 6 de outubro, quando viu uma faixa do movimento na Praça de São Pedro. Ele exclamou: "Sono bravi questi di Sant'Egidio!" – o que significa, aproximadamente, "Essas pessoas da Santo Egidio são ótimas!".

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 18-10-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Nascido em meio aos protestos estudantis europeus de 1968, a Santo Egidio começou como uma casa para jovens italianos progressistas que queriam permanecer católicos. Ao longo dos anos, tornou-se um portador principal do diálogo ecumênico e inter-religioso, assim como do Evangelho social da Igreja.

Um rosto familiar da Santo Egidio é Mario Marazziti, há anos porta-voz da comunidade e agora membro do Parlamento italiano e presidente da sua Comissão para os Direitos Humanos. Marazziti publicou recentemente um artigo e algumas fotos de uma viagem a Lampedusa, uma ilha italiana no sul do Mediterrâneo, que serve como um importante ponto de chegada dos imigrantes da África e do Oriente Médio que procuram chegar à Europa.

No dia 3 de outubro, um bote lotado com mais de 500 homens, mulheres e crianças eritreus naufragou às margens de Lampedusa e pegou fogo, com apenas 155 sobreviventes e 364 cadáveres recuperados. Em si, não houve nada de incomum no desastre, já que se acredita que mais de 20 mil pessoas pereceram durante a última década ao fazer a travessia de 110 quilômetros. Dados os surpreendentes números de mortos neste momento, no entanto, o incidente ganhou as manchetes mundiais.

O Papa Francisco dedicou a sua primeira viagem fora de Roma a Lampedusa ainda no dia 8 de julho, condenando o que chamou de uma "globalização da indiferença" aos migrantes. Por um breve momento, parecia que a tragédia do dia 3 de outubro poderia mudar as coisas, já que o primeiro-ministro italiano, Letta, prometeu um funeral de Estado para as vítimas, legisladores falaram sobre como se livrar da dura lei da Itália que criminaliza o "estatuto de clandestinidade", as autoridades europeias ponderaram formas mais humanitárias para lidar com os imigrantes e grupos humanitários em todo o mundo se mobilizaram para ajudar os sobreviventes.

Escassas duas semanas depois, no entanto, já parece que o vento saiu das velas. Enquanto o governo italiano vacilava sobre os detalhes de um funeral de Estado, os mortos foram enterrados sem cerimônia, porque seus corpos em decomposição representavam riscos à saúde. Os sobreviventes, enquanto isso, estão enfrentando investigações criminais por entrada ilegal, enquanto definham em favelas compostas principalmente por colchões abandonados e lama.

Marazziti passou um tempo com os sobreviventes, coletando as histórias de como eles acabaram naquele barco. Da Eritreia, descobriu ele, levou dois meses para que eles chegassem em Cartum, no Sudão, tendo sido chantageados ao longo do caminho por "agentes" da imigração e traficantes de seres humanos. Eles passaram um ano em Cartum como escravos virtuais, implorando para recolher dinheiro suficiente para pagar os agentes que os levaram a Trípoli, na Líbia. Eles passaram mais meses em Tripoli, juntando os 1.600 dólares por cabeça que custava para fazer a etapa final da viagem – que, é claro, terminou em morte para a maioria.

Marazziti está impulsionando um programa multiponto para tentar evitar tais tragédias no futuro:

• A construção de centros de refugiados adicionais em Lampedusa. Neste momento, há apenas um, com espaço para 250 pessoas, embora o número de migrantes na ilha a qualquer momento é geralmente mais de 1.000. (Marazziti observa que Andrea Riccardi, fundador da Santo Egídio, tinha alocado fundos para um novo centro enquanto ele era ministro no governo do ex-primeiro-ministro Mario Monti, mas ele nunca foi construído.)

• A criação da possibilidade de entrada legal na Europa, incluindo o rápido processamento dos pedidos de estatuto de refugiado e de asilo. "Tudo o que alonga as rotas de entrada", argumenta ele, "é uma forma de aumentar o número de mortes e de engordar os traficantes de seres humanos".

• A abertura de escritórios para processar os pedidos de asilo na margem sul do Mediterrâneo, na Tunísia e na Líbia, recorrendo a consulados e embaixadas europeias.

• A criação de um Gabinete Europeu de Imigração no Norte da África, que, segundo ele, "quebraria o tráfico de seres humanos" e "possibilitaria viagens legais (…). As pessoas poderiam vir pagando uma taxa em um navio ou barco normais".

• A criação de um Centro Europeu de Acolhida e Primeiros Socorros na Sicília, onde os pedidos de asilo em todas as 28 nações europeias poderiam ser encaminhados.

• A abertura de um "corredor humanitário" no Mar Mediterrâneo, com bancos de radar na Líbia e na Tunísia para identificar carregamentos de migrantes e navios de patrulha capazes de assegurar que essas pessoas permaneçam seguras, onde quer que elas finalmente cheguem. Marazziti chama isso de "patrulhamento humanitário", dizendo que essa é a única forma de conter a "pandemia da morte".

Para que ninguém pense que tudo isso equivale à rendição unilateral diante da imigração ilegal, Marazziti insiste que o movimento de pessoas do Sul ao Norte hoje é uma "parte estrutural desta fase da globalização".

Em outras palavras, Marazziti acredita que realinhamentos econômicos e culturais estão alimentando o movimento através das fronteiras internacionais, e levantar muros mais altos ou adotar leis mais duras não vai mudar essa dinâmica. A escolha, a seu ver, é se o mundo vai tratar essas pessoas de forma humana, ou vai ficar para trás para ver mais delas morrendo.

Aliás, Marazziti observa que muitos desses imigrantes são cristãos, sugerindo um motivo adicional para que seus irmãos cristãos no Ocidente se preocupem.

Resta saber quanta sorte Marazziti terá para pressionar pela sua agenda. O que parece mais certo é que, quando Francisco chamou a multidão da Santo Egidio de bravi, esse era o tipo de coisas que ele tinha em mente.

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