Evangelho: intuição que supera os preconceitos positivistas. Artigo de Pierangelo Sequeri

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05 Julho 2013

Quais são o significado e o destino do cristianismo no clima cultural e espiritual dos nossos tempos? No livro Interrogazioni sul cristianesimo. Cosa possiamo ancora attenderci dal Vangelo?, o filósofo Gianni Vattimo e o teólogo Pierangelo Sequeri, entrevistados pelo jornalista Giovanni Ruggeri, se confrontam com a contraditória atitude do nosso tempo com relação à religião e, em particular, com o papel da mensagem cristã e da Igreja na sociedade pós-moderna. Surge daí um amplo afresco de temas e de perspectivas através do qual é possível repensar o significado e a possibilidade da fé cristã, sem degradá-la na repetição catequística ou desnaturalizá-la em um moralismo simplista.

Publicamos aqui um trecho do artigo de Pierangelo Sequeri sobre a figura de Jesus. O artigo foi publicado no jornal Avvenire, 03-07-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Aos meus estudantes, eu costumo dizer frequentemente: para conhecer a tradição sobre Jesus, não é preciso interrogar toda a história do mundo ou fazer inúmeras comparações (como muitas vezes ocorre hoje, porque o cristianismo foi difundido e dado a conhecer a todos, com o inevitável adensamento da floresta das interpretações). Na realidade, não temos muito mais do que os Evangelhos. Esse fato me leva a propor duas considerações.

Em primeiro lugar, o que impressiona nos Evangelhos – depondo a favor da seriedade do seu testemunho – é que os fiadores da sua confiabilidade, por outro lado, são obrigados a figurar nos próprios relatos evangélicos como protagonistas do cotidiano mal entendimento daquele dos quais eles eram discípulos, isto é, de Jesus. Esses textos, concebidos certamente com uma intenção querigmática, por isso também apologética e propagandística (no sentido mais elevado da palavra), contêm com autoridade não apenas o testemunho sobre Jesus, mas também a crônica do cotidiano mal entendimento diária daqueles que garantiam a sua confiabilidade.

Esse fato – seria preciso dizer com uma brincadeira – é quase uma prova da existência do Espírito Santo!

Tentemos, de fato, nos colocar na situação: quando se leem os textos evangélicos, diante do nome de Pedro, João ou Tiago, para dar alguns exemplos, se levantava o cabeça e se ficava em um silêncio religioso. Agora, porém, nesses textos também está escrito (sem, no entanto, que houvesse a necessidade de escrever tal história, porque o cristianismo já tinha uma dogmática, uma liturgia, um mistério) que Pedro não entendeu Jesus, Judas o traiu, aquele outro o abandonou, o outro ainda queria fazer a propaganda segundo a própria maneira de ver...

Pois bem, para expressar tal verdade desconcertante, é preciso ter uma coragem extraordinária, que se pode pensar que vem apenas do Espírito Santo, porque eu nunca vi nenhum folheto paroquial mimeografado nem mesmo uma encíclica papal tão críticos com relação a si mesmos! No entanto, eu acredito que essa peculiaridade das Escrituras é totalmente pertinente, porque somente as Escrituras são inspiradas, no sentido entendido também pelo dogma católico, quando afirma que nelas está presente uma qualidade diferencial da confissão da fé (que é ao mesmo tempo apologética e autocrítica, quando vem do Espírito) que nunca mais se reproduziu naquela altura. Esse fato me impressiona muito e eu acho que ele pede um confronto sério com esse testemunho.

Em segundo lugar, impõe-se à atenção a atitude que Jesus tem com relação ao ponto crucial e delicado de Deus e da relação do ser humano com Deus. Eu vejo Jesus como fulgurado por uma intuição, por uma percepção, se poderia dizer até por uma fé (eu não tenho medo desse termo, já que a própria Carta aos Hebreus fala da fé de Jesus, entendida não em sentido intelectualista, mas sim do ponto de vista do vínculo) com relação a Deus, o Pai, que poderia se deixar expressar nestes termos: "Eu quero que vocês se confiem totalmente a Ele, com todo o coração, com toda a alma, com todas as forças, como diz a velha Lei, ao custo de eu ficar em segundo plano e sabendo também que há coisas que não devem ser perguntadas a mim porque só o Pai as conhece".

O rigor dessa mediação resplandece também no fato de que em Jesus eu vejo um unicum, isto é, alguém que não fala simplesmente de Deus na terceira pessoa, como um profeta. Isso é impressionante, porque, com relação à antiga Lei de Deus, ninguém se permitiria dizer: "Mas eu vos digo...", como Jesus faz (cf. Mt 5, 21ss), muito menos um homem religioso, que sabe que não se pode acreditar nisso. Essa maneira de fazer de Jesus teria suscitado dúvidas também em mim, como, aliás, em todos, pela sua enormidade. Mas, ao invés, surge daí uma fé que corresponde à sua, que ousa tal modo de se expressar, manifestando ao mesmo tempo também a clara consciência da diferença entre ele e Deus (na medida em que ele é a revelação), como, por exemplo, quando Jesus diz que nem mesmo o Filho do homem sabe quando virá o fim do mundo, ou que estar à sua direita ou à sua esquerda não é ele que decide, mas sim o Pai.

A meu ver, aí encontra-se o cerne da questão. Em uma cultura como a nossa, cheia ainda de velhos preconceitos positivistas, Vattimo se abre e diz: os relatos evangélicos me dizem que aqui aconteceu algo de enorme para o nosso destino, e eu me encontro dentro desse anúncio, não tenho nenhum motivo para não estar.

De minha parte, eu faço uma operação simétrica: em vez de me expressar – como seria fácil demais fazer – sobre o fundamento da ressurreição, da missão trinitária do Filho etc., eu gostaria de dizer: de noite, quando eu me interrogo sobre as coisas sobre as quais é justo que cada um se interrogue para ser honesto ao prestar-lhes razão, o que me chama a atenção com relação ao cristianismo é isto: eu me sentiria um velhaco se eu não continuasse tendo a mesma fé de Jesus.

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