Buchenwald, o arquivo do inferno

Revista ihu on-line

Etty Hillesum - O colorido do amor no cinza da Shoá

Edição: 531

Leia mais

Missões jesuíticas. Mundos que se revelam e se transformam

Edição: 530

Leia mais

Nietzsche. Da moral de rebanho à reconstrução genealógica do pensar

Edição: 529

Leia mais

Mais Lidos

  • Papa Francisco reabilita Ernesto Cardenal, padre e poeta nicaragüense

    LER MAIS
  • Papa Francisco revoga permanentemente todas as sanções canônicas contra o padre e poeta Ernesto Cardenal

    LER MAIS
  • Ernesto Cardenal. Não é um filho pródigo da Igreja

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

07 Dezembro 2012

O Totenbuch, o registro dos mortos no campo de concentração de Buchenwald, gela a pele só de vê-lo em fotografia, com a sua lúgubre capa preta. Ele contém, anotados com obsessiva minúcia, os nomes, as datas, os locais de origem, a hora e o minuto da morte dos deportados. A sua vida é classificada de forma maníaca: os comportamentos durante os interrogatórios e nos barracões, as doenças, as chicotadas, até mesmo o número de piolhos encontrados na última inspeção corporal.

A reportagem é de Corrado Stajano, publicada no jornal Corriere della Sera, 05-12-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Marco Ansaldo, autor de um terrível livro, Il falsario italiano di Schindler, publicado pela editora Rizzoli, pôde ver muitos dos Totenbuch, que reúnem os nomes das vítimas da perseguição nazista. Jornalista do La Repubblica, foi um dos primeiros no mundo a entrar no arquivo de Bad Arolsen, em Hesse, na Alemanha central, aberto aos estudiosos, depois de infinitas tergiversações e negociações, somente em 2007.

Ansaldo viu e reviu milhões de documentos contidos nos 26 quilômetros de fichários de aço do arquivo que contam com inimaginável precisão o que aconteceu com os judeus, políticos, militares, homossexuais, ciganos capturados pelos nazistas. Não só em Buchenwald, mas em todos os campos de concentração perdidos pelas nações sob o domínio do Terceiro Reich, em Auschwitz, em Bergen-Belsen, em Dachau, em Flossenbürg, em Mauthausen e em outros lugares.

O autor estudou por anos pastas, fascículos, mapas, desenhos, cartões, cadernos. "Um inferno de papel", escreveu. Também viu fotografias, microfilmes e os objetos mais diversos que pertenceram aos prisioneiros. Embora a bibliografia sobre o inferno nazista depois de tantas décadas seja enorme, esse é um livro impressionante. Acrescenta ao que se sabe mais informações dolorosas e sem possibilidade de desmentida sobre os Muselmann, os prisioneiros sem esperança da loucura ideológica de Hitler, sobre os seus destinos nublados e perdidos.

Poucos nos jornais escreveram sobre esse livro. Faz-se de tudo para esquecer o que aconteceu à época, também porque faz mal para o coração?

O livro de Ansaldo, realmente ao contrário da moda atual, descobre novas peças úteis para fazer entender, talvez até aos negacionistas, o que foi a crueldade nazista que marcou não só o século XX. Anos atrás, Norberto Bobbio escreveu que os campos de extermínio foram "não um dos eventos, mas o evento monstruoso, talvez irrepetível da história humana".

Quem foi o italiano da Lista de Schindler, o episódio conhecido por causa do filme de Steven Spielberg de 1993, que dá título ao livro? Foi Schulim Vogelmann, mestre tipógrafo, judeu polonês que se tornou italiano, deportado de Milão – pelo trilho 21 – para Auschwitz. Ansaldo encontrou o seu nome debaixo da inscrição "Ju.Ital." em um papel com bordas rasgadas, a lista de Schindler. É o único italiano dos 1.117 salvos da indústria nazista alemã. Ninguém o tinha descoberto.

O jornalista fez inúmeras descobertas, falou com o filho Daniel, diretor e alma da Giuntina, a editora de Florença especializada na publicação de obras da cultura judaica. Pela sua habilidade de tipógrafo, Schulim Vogelmann se tornou um dos "falsários" da Operação Bernhard, inventada pelos nazistas para pôr de joelhos a economia britânica, inserindo no mercado inglês uma grande quantidade de libras esterlinas falsas, 133 milhões, ao que parece. O plano não chegou ao seu objetivo. Vogelmann conseguiu entrar na famosa lista e se salvou, talvez também pelo seu conhecimento das línguas. Voltou, tornou-se editor, morreu em 1974.

Ansaldo também encontrou os cartões de Primo Levi, algumas dezenas conservadas em uma das altas prateleiras do arquivo, "magras, quase assépticas, preenchidas muito secamente apenas com os dados pessoais": da prisão em Champoluc em dezembro de 1943 a Auschwitz, número de matrícula 174517. ("À distância de 40 anos, a minha tatuagem se tornou parte do meu corpo", escreveu ele no seu “Os afogados e os sobreviventes”).

Para Primo Levi, o conhecimento da língua também foi essencial para a salvação, assim como a saúde e a ajuda de um pedreiro de Fossano, "um santo que achava óbvio ajudar quem sofria", além do trabalho no laboratório químico que lhe deu alguns privilégios.

O livro é de grande interesse, até mesmo romanceado, um romance noir. Ansaldo encontra nas cartas e também na vida uma cadeia de personagens incomuns, os poucos sobreviventes. Boris Pahor, o escritor esloveno, se surpreende quando o jornalista lhe mostra em Trieste o seu cartão. Os nazistas anotaram tudo sobre ele, como ele reagia aos interrogatórios, mas também notícias sobre os óculos que ele usava, sobre o ouvido, sobre a dentadura desenhada com precisão: uma ponte e uma coroa.

Imre Kerstész, depois prêmio Nobel de Literatura em 2002. Os nazistas, no seu caso, não foram diligentes como de costume. Deram-lhe como morto em Buchenwald no dia 18 de fevereiro de 1945. Kertész, deportado quando menino, está com raiva do "kitsch do Holocausto" que ouve à sua volta. "Não se tem coragem – diz a Ansaldo – de chamar o que aconteceu com o seu verdadeiro nome, a destruição dos judeus na Europa".

Edith Bruck, escritora deportada aos 13 a partir de um pobre vilarejo na Hungria, manteve, com amarga inteligência, a promessa de "falar por eles", os mortos.

Ansaldo nunca se cansou de procurar no interminável arquivo. Descobriu, dentre tantos, o magro dossiê de Irène Némirovsky, morta em Auschwitz. Jüdin, judia, a condenação de um documento. Escondida na França, a autora de Suite Francese, no momento da prisão, conseguiu escrever o seu último bilhete: "Quinta-feira de manhã. Meu amado, minhas pequenas adoradas. Acredito que partiremos hoje. Coragem e esperança. Vocês estão no meu coração, meus diletos. Deus nos ajude a todos". Ela tinha quarenta anos, era uma mulher pequena e gentil. Morreu de tifo um mês depois da prisão, no dia 19 de agosto de 1942, "às 15h20min". O marido morreu nas câmaras de gás no dia 6 de novembro.

Dietrich Bonhoeffer, o grande teólogo que conspirou contra Hitler, foi enforcado; Mafalda de Savoia, a filha do rei Vittorio Emanuele III, morreu no bordel de Buchenwald, ferida em um bombardeio, operada propositalmente com atraso entre atrozes sofrimentos; Wilhelm Canaris, o poderoso chefe dos serviços secretos de Hitler, envolvido no atentado do dia 20 de julho de 1944, foi estrangulado com uma corda de piano em Flossenbürg.

Anne Frank, por fim, entre os muitos outros dignos de memória. O documento é tão gélido quanto os carcereiros da menina: "Frank, Annelies Marie Sara. Nascida em 12 de junho, em Frankfurt. Residente em Amsterdã, na praça Mervede 37, II piso. Núbil...".

Dois sinais em forma de suástica gravados a caneta em cima e em baixo do papel, marcam, no dia 8 de agosto de 1944, o documento de internação de Anna, que, com o seu diário, fez o mundo chorar de comoção e de horror.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Buchenwald, o arquivo do inferno - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV