Conflitos no Sudão impulsionam nova onda de garotos perdidos

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10 Julho 2012

Milhares de crianças desacompanhadas estão saindo de uma região rebelde e isolada do Sudão, fugindo de um ataque aéreo incansável e da perspectiva da fome.

Enviadas por seus pais em jornadas angustiantes por campos de batalha e brejos infestados de malária, as crianças estão repetindo um dos capítulos mais sórdidos da história do Sudão: a perigosa fuga dos chamados Garotos Perdidos durante a guerra civil dos anos 90, que vagaram por centenas de quilômetros esquivando-se de milícias, bombardeios e leões.

A reportagem é de Jeffrey Gettleman, publicada pelo jornal The New York Times e reproduzida pelo Portal Uol, 09-07-2012.

Agora, uma nova geração de Garotos Perdidos, e algumas Garotas Perdidas também, está emergindo de uma guerra que, apesar de um acordo de paz, nunca terminou completamente.

Haidar Musa, 14, se arrastou recentemente pelo campo de refugiados lamacento que se desenvolveu rapidamente aqui em Yida, e que está crescendo em 1.000 pessoas por dia, transformando uma floresta verdejante num mar de tendas esquálidas da ONU. Com ele estavam outros oito meninos com roupas rasgadas e a barriga cheia de capim, a única coisa que os sustentou por vários dias.

Eles estavam descalços na lama, observando ansiosamente uma enorme panela de feijão que começava a ferver, prontos para uma refeição de verdade num novo lar: uma caixa de papelão aberta para dormir, num casebre infestado de ratos.

"Não falamos mais sobre nossos pais", disse Haidar, mexendo nos botões quebrados de uma camisa doada. "Mesmo que voltemos, não vamos encontrar ninguém."

John Prendergast, cofundador do Enough Project, que luta para terminar com o genocídio e os crimes contra a humanidade, trabalhou de perto com os Garotos Perdidos há 20 anos. "Aqueles sobreviventes pareciam ter uma história única, que nunca seria repetida", diz ele. "Mas aqui estamos novamente."

O Sudão, talvez mais do que qualquer outro país nesta região, parece ter uma capacidade destrutiva para se afundar novamente nos piores dias de seu passado.

Tantas outras nações africanas mergulharam na guerra civil, mas eventualmente saíram dela. Até a Somália repleta de balas está finalmente se livrando do caos. Mas os sudaneses basicamente estão em guerra entre si há 56 anos, com poucos intervalos. Hoje, esta guerra continua em muitos dos mesmos lugares, das mesmas velhas maneiras.

Um marco da estratégia de contra-insurgência do governo sudanês foi um ataque que não poupou nem civis, lançado no sul nos anos 80, nas Montanhas Nuba nos anos 90, e em Darfur no início dos anos 2000. Agora, são novamente as Montanhas Nuba, onde os bombardeios pela força aérea sudanesa obrigaram vilarejos inteiros a se retirar para cavernas no topo das montanhas, deixando as plantações sem cuidados, os mercados vazios e as pessoas prestes a morrer de fome.

O derramamento de sangue em Nuba é dirigido por alguns dos mesmos oficiais responsáveis por massacres anteriores, como o presidente Omar al-Bashir, no poder desde 1989, e Ahmed Haroun, governador do Estado que compreende as Montanhas Nuba. Ambos são procurados pelo Tribunal Criminal Internacional sob acusações de crimes contra a humanidade por causa do massacre em Darfur, e al-Bashir também foi acusado de genocídio.

A atual ofensiva parece estar colocando as crianças de Nuba na mira, e com frequência não há para onde correr.

Uma cuidadora no campo de Yida disse que 14 meninos que tentavam chegar lá foram mortos a tiros num checkpoint do exército sudanês. Estilhaços de bomba cortaram muitos outros. A doença está varrendo o interior, e muitas crianças que chegam até Yida nas costas de suas mães estão tão magras e doentes que são tratadas imediatamente num hospital de campo com tubos de alimentação pelo nariz.

Desde antes da independência em 1956, o Sudão é palco de tensões entre o centro e a periferia que costumam ser expressas com explosão de bombas. Da mesma forma que o governo central tem uma tradição de brutalidade, grupos minoritários têm uma tradição de insurreição com armas pesadas.

Hoje, dezenas e milhares de soldados de Nuba, equipados com artilharia, foguetes e tanques, recusam-se a se desarmar até que o governo caia em Cartum, capital do Sudão, dizendo que eles vêm sendo marginalizados e oprimidos, em parte porque muitos habitantes de Nuba são não-árabes e cristãos, enquanto o governo de Cartum é dominado por árabes muçulmanos.

O Sudão do Sul, que conquistou recentemente a sua independência e se separou do Sudão no ano passado, é suspeito de enviar armas para os rebeldes de Nuba, que operam a norte da fronteira e lutaram ao lado dos sul-sudaneses por anos. O Sudão e o Sudão do Sul quase entraram em guerra nos últimos meses, depois de chegar a um impasse sobre como dividir os lucros do petróleo e demarcar sua fronteira.

As economias de ambos os países estão desorientadas, com tumultos acontecendo por todo o Sudão nas últimas semanas, testando o poder de al-Bashir e encorajando os rebeldes de Nuba a lutar. Ninguém vê esta guerra terminar tão cedo.

Em Yida, cerca de 32 quilômetros ao sul da fronteira com o Sudão, o nascer do dia é anunciado pelo barulho dos machados rachando madeira. Árvores estão sendo cortadas. Estradas estão sendo abertas. O campo está se tornando permanente.

Oficiais da ONU estão desesperados para impedir isso, dizendo que o campo é muito próximo a uma zona militar, a fronteira disputada. Yida também já foi bombardeado. Oficiais do campo estão se recusando a construir escolas ou entregar sementes aqui, dizendo para os cerca de 60 mil irem para o sul. Mas os refugiados não estão se mexendo, dizendo que o solo é ruim mais para o sul.

"Nossa posição não é ambígua", diz Teresa Ongaro do Alto Comissariado da ONU para Refugiados. "Nós temos preocupações sérias de segurança quanto aos refugiados ficarem em Yida."

O campo parece estar dobrando para servir como base rebelde. Recentemente, não longe de onde Haidar e os outros garotos moram, rebeldes de Nuba carregando metralhadoras carregaram um caminhão com barris de combustível e depois cobriram sua carga com uma lona branca da ONU.

Os nativos de Nuba são um paradoxo. Eles são celebrados por seus modos antigos, como o sacrifício e a luta heroica, mas ao mesmo tempo anseiam por uma educação moderna. Muitas crianças dizem que seus pais as enviaram para longe porque a maioria das escolas haviam fechado nas Montanhas Nuba quando o bombardeio começou. A esperança é que eles possam aprender em Yida.

Outras crianças dizem que foram separadas de suas famílias durante os inúmeros ataques de solo e bombardeios do ano passado. Normalmente os grupos de crianças, algumas de até sete anos, são guiados por um professor ou guerrilheiro rebelde pelos montes de Nuba até Yida, uma jornada terrível que costuma levar cerca de dez dias de caminhada.

A tenda de Haidar, a nº 60 no acampamento das crianças, é compartilhada com outros três meninos. Nenhum deles tem um mosquiteiro, embora a malária seja muito comum e normalmente fatal.

Um de seus colegas, Jazooli, não tinha ideia de onde estavam seus pais. Outro, Mohamed, disse que sua mãe e seu pai o abandonaram.

Haidar era um escravo e havia sido sequestrado por cavaleiros árabes quando tinha seis anos, junto com seu irmão. A escravidão foi um problema grave durante a primeira guerra civil entre o norte e o sul e parece estar em ascensão novamente. Os sequestradores recentemente mataram o irmão de Haidar, disse ele. Haidar fugiu, encontrando os outros meninos ao longo do caminho e essencialmente desistindo de seus pais.

"Eu não me lembro das feições dos meus pais", sussurrou.

Os líderes dos voluntários do campo estão exasperados. Eles estão tentando manter o campo limpo, ordenando as crianças a varrerem o chão com galhos de árvores e limpar os potes com areia.

"Mas a menos que esta guerra termine, será muito difícil", disse Ahmed Mamoun, um dos cuidadores. "Não vejo como estas crianças encontrarão seus pais."

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