Sudão Meridional se prepara para independência

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06 Julho 2011

Um novo país nascerá no próximo fim de semana na África. O Sudão Meridional, rico em reservas de petróleo, está declarando a sua independência. Mas o conflito ora em andamento com o norte do país e o fato de vários comandantes guerrilheiros estarem seguindo as suas próprias agendas fazem com que haja pouco otimismo na região.

A reportagem é de Horand Knaup, publicada pela revista Der Spiegel e reproduzida pelo Portal Uol, 07-07-2011.

A primeira impressão que os visitantes têm ao saírem do avião neste lugar é que eles aterrissaram em um canteiro de obras. O novo terminal é apenas um esqueleto de concreto, e vários trabalhadores chineses cobrem vastas áreas com cimento.

Bem-vindo a Juba, a capital do Sudão Meridional! A cidade ainda tem muito trabalho a fazer antes que o secretário geral da Organização das Nações Unidas (ONU) e até 40 chefes de Estado e governo aterrissem no Aeroporto de Juba no próximo fim de semana. O aeroporto tem o mesmo tamanho daquele da cidade alemã de Paderborn.

No sábado, 9 de julho, o Sudão Meridional proclamará a sua independência. Isso fará com que o Sudão, o maior país da África, perca um quarto da sua área – e o mundo terá um novo país, o mais novo na África.

O ministro alemão das Relações Exteriores, Guido Westerwelle, já esteve aqui, na segunda metade do mês de junho, para uma visita de dois dias. Ele queria estar preparado para quando o Sudão Meridional se inscrevesse para tornar-se o 193º membro das Nações Unidas, onde a Alemanha assumiu recentemente a presidência rotativa do Conselho de Segurança. Westerwelle desejava entender o novo governo e conhecer as suas linhas políticas.

E agora ele conhece. A sua reunião com Salva Kiir, que foi eleito presidente do país no ano passado com 93% dos votos, deu ao ministro alemão uma ideia do que está por vir.

Kiir deixou Westerwelle esperando por mais de uma hora. Quando finalmente chegou para encontrar-se com o seu convidado, o ex-guerrilheiro de 60 anos de idade estava usando um chapéu de caubói preto da marca Stetson e sapatos cromados.

“A democracia está no nosso sangue”

O que houve a seguir foi uma conversa de uma hora cheia de mal-entendidos. Westerwelle pediu flexibilidade nas questões polêmicas relativas a disputas com o norte. Em resposta, Kiir afirmou: “Nós somos muito flexíveis; foi o norte que interrompeu os transportes para o sul”.

Westerwelle mencionou a questão do respeito aos direitos humanos. Kiir disse: “Nós respeitamos os direitos humanos há muito tempo”. Westerwelle pediu a criação de instituições democráticas. “Estamos trabalhando na nossa constituição”, replicou Kiir. “E, por falar nisso, a democracia está no nosso sangue”.

Porém, a democracia encontrada atualmente no Sudão Meridional deixa muito a desejar. Jornalistas são acusados de serem espiões, policiais em barreiras nas estradas agem como se fossem os autores das leis, e a vida política é dominada pelo partido de Kiir, o Movimento de Libertação do Povo do Sudão. Um incidente ocorrido um ano atrás dá uma ideia da forma que poderá ser assumida pelos direitos humanos e a democracia no país. Depois que recrutas em uma academia de polícia em Rajaf reclamaram dos métodos de treinamento, o chefe de polícia enviou uma unidade de forças especiais ao quartel em que eles residiam. As tropas espancaram até a morte pelo menos seis recrutas e dezenas de outros foram parar no hospital.

Embora as Nações Unidas tenham a atribuição de ajudar na criação do país, os soldados e os veículos da ONU são frequentemente impedidos de entrar nas regiões contestadas. Em maio, quando tropas do norte entraram em Abyei – a região rica em recursos naturais que fica ao longo do Rio Kiir, e que é disputada pelo norte e pelo sul – e libertaram uma grande quantidade de refugiados, soldados do Sudão Meridional atacaram um comboio da ONU.

O chefe da missão de paz da ONU no Sudão Meridional é David Gressly, um norte-americano de 54 anos de idade que exibe bastante coragem ao permanecer em Juba desde 2004. Gressly ainda trabalha em um escritório móvel estacionado no aeroporto. Em um grande mapa, ele mostra os pontos de maior conflito no país. Gressly aponta para Abyei, a região fértil, no meio da fronteira disputada na qual tropas da ONU, compostas de soldados da Etiópia, fazem uma barreira de contenção entre os adversários do norte e do sul. A seguir ele move o dedo para leste, até o Kordofan do Sul, que as forças do norte têm bombardeado como parte de uma tentativa de obrigar os moradores a fugir.

Fomentando novos conflitos

Meia dúzia de comandantes de grupos guerrilheiros, veteranos da guerra da libertação, procura agora fomentar novos conflitos. Eles não deram muito as caras até o referendo feito no início de janeiro porque não queriam prejudicar as chances de o país se tornar independente. Mas esses indivíduos jamais se integraram totalmente ao sistema político. Desde fevereiro, eles voltaram a atacar aldeias e quartéis, roubar animais de criação e instalar minas. “Existe uma quantidade substancial de armamentos neste país”, afirma Gressly. Quando lhe perguntamos de onde essas armas estão vindo, ele responde: “Certamente não é do sul”.

O governo em Cartum não está fazendo nada que possa contribuir para estabilizar o sul. E por que ele deveria fazer qualquer coisa? O norte tem uma dívida de cerca de US$ 38 bilhões (26 bilhões de euros) e o conflito pelas reservas de petróleo do país ainda não foi resolvidos. Sob o ponto de vista do norte, um governo estável em Juba não ajuda em nada.

A maior parte do petróleo é extraída no sul, mas todos os oleodutos correm para o norte, a caminho das refinarias situadas em Porto Sudão, no Mar Vermelho. A renda obtida com o petróleo é há muito tempo repartida, mas agora o sul está exigindo uma parcela maior do dinheiro.

Há meses os dois lados estão negociando em Addis Adaba, a capital da vizinha Etiópia. Omar al-Bashir, o presidente do norte – que tem contra si um mandado de prisão emitido pelo Tribunal Criminal Internacional por suspeita de crimes de guerra na região de Darfur – está ameaçando bloquear completamente o uso dos oleodutos. Tal medida poderia representar uma catástrofe para o sul, já que o petróleo é o responsável por 98% da renda da região. Os dois lados estão procurando chegar a um acordo até o final do verão do hemisfério norte sobre a questão da dívida e as disputas relativas à renda oriunda do petróleo.

Autoridades em Juba, a futura capital do sul, não parecem estar desestimuladas por tais desentendimentos. No Ministério da Cooperação Regional, o secretário de Estado, Majok Guandong, gaba-se das cerca de 40 embaixadas que deverão ser inauguradas por todo o mundo até 2013. Um relógio instalado no principal cruzamento de avenidas da cidade conta os dias e as horas que faltam para o 9 de julho. E, no monumento de John Garang, um herói da independência, trabalhadores estão montando rapidamente as arquibancadas nas quais os convidados de honra irão se sentar no sábado.

Recolhendo lixo

Equipes de limpeza estão varrendo o lixo das ruas com uma precisão incomum e um grande zelo. Normalmente, o lixo é simplesmente empilhado à margem das ruas e queimado. Mas agora, a cidade está até adornada com algumas dezenas de latas de lixo, e a coleta está sendo feita também no campus da universidade da cidade.

É claro que tudo isso não passa de fachada. Os problemas do país – incluindo a corrupção generalizada e a baixa produtividade – continuam não resolvidos. Antes da aprovação da construção de uma estrada pavimentada de dez quilômetros, o ministro responsável espera receber de presente pelo menos um automóvel SUV novo.

Os ministérios são liderados predominantemente por homens que possuem muito mais experiência em limpar armas do que em fazer administrações eficientes. Existe uma carência de tudo aquilo do qual um Estado funcional necessita: professores e escolas, médicos e hospitais, pontes e estradas.

Setenta por cento dos funcionários da Universidade de Juba simplesmente foram embora para Cartum. Agora, há apenas 150 professores, assistentes e técnicos para atender a 11 mil estudantes. “Não é possível trabalhar sob tais condições”, reclama Leben Moro, um cientista político que é um dos poucos professores que restaram. Moro retornou a Juba dois anos atrás, após ter concluído os seus estudos no Cairo. No Egito, a sua filha de dez anos de idade estudava inglês, francês e árabe. Mas agora Moro não consegue encontrar em Juba escolas para matriculá-la.

Moro, um homem alto e magro, tem um escritório no campus universitário. Atualmente, o seu também está fechado, assim como todos os demais escritórios e lojas na cidade. A polícia e as forças armadas praticamente paralisaram todo o tráfego de veículos e atividades públicas com uma operação de procura frenética por armas.

“Nós estamos extremamente entusiasmados por nos tornarmos independentes”, afirma Moro. “Aquilo com o qual nós sempre sonhamos agora acontecerá”. Mesmo assim, ele admite estar nervoso, e diz que está preocupado com as “expectativas excessivas” dos seus compatriotas do Sudão Meridional. Moro está convencido de que o governo não será capaz de cumprir todas as promessas.

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