Precisamos abolir os seminários! (Parte 2)

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11 Agosto 2021

 

"O modelo de formação dos futuros padres é uma consequência direta do modelo de Igreja que temos em mente".

A opinião é de Gilberto Borghi, teólogo, filósofo e psicopedagogo clínico italiano, formador na cooperativa educativa Kaleidos. O artigo foi publicado em Vino Nuovo, 06-08-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A primeira parte desta reflexão pode ser lida aqui.

 

Eis o texto.

 

As reações ao artigo “Precisamos abolir os seminários!” me levaram a mais algumas reflexões, que tento expressar aqui.

Embora uma parte dos comentadores, tanto neste site quanto na página do Facebook, tenham se mostrado muito contrários ao meu texto, isso não me surpreende. Uma possível mudança do método formativo dos sacerdotes, para muitas dessas pessoas, toca o coração do próprio status do padre. Indicando com clareza como a defesa radical de uma “fixidez” pastoral é considerada necessária para a própria defesa da fé.

Com todo o respeito a elas, devo dizer que bastaria conhecer um pouco de história da Igreja para se dar conta de que nenhuma fixidez pastoral jamais pretendeu “encarnar” a única possível tradução da fé. Até mesmo a celebração eucarística mudou pelo menos seis vezes ao longo de 2.000 anos de história.

Em vez disso, fiquei mais surpreso com as reações negativas de alguns agentes de pastoral, que desempenham o seu ministério precisamente nos seminários, que, em alguns casos, me pareceram verdadeiramente inconciliáveis com os dados e as vivências relativas aos próprios seminaristas.

Trata-se de constatações que, de várias formas, estiveram presentes na Igreja pelo menos desde meados dos anos 1980 (estou pensando nas investigações sobre a condição dos seminaristas feitas à época pelo Pe. Rulla) e confirmadas pelos números de abandono do estado clerical [disponível em italiano aqui] na Europa e nos Estados Unidos, em comparação com o total de seminaristas que se tornaram padres. Reiterados, não por último, pela pesquisa realizada na França sobre a condição existencial dos padres, bem documentada pela revista Il Regno Attualità [disponível em italiano aqui].

Diante dessas informações, a menos que se negue a realidade, é muito difícil negar que os seminários estão em crise, na sua capacidade de formar padres capazes de viver com suficiente plenitude e de serem testemunhas atraentes de Cristo na sociedade europeia e estadunidense.

Mas, do meu ponto de vista, ainda mais interessantes foram as reações daqueles que tentaram ir além do meu texto e oferecer pistas novas para uma eventual mudança dos seminários. Cada um enfatizou um aspecto ou mais daquilo que seria necessário fazer, mas sem uma suficiente consideração do vínculo existente, em âmbito pedagógico e de formação, entre método e objetivos.

Se, por exemplo, se levanta a hipótese de que os futuros seminaristas deveriam viver em pequenos grupos em apartamentos dedicados a eles, ao invés de em um único edifício centralizado, tende-se a privilegiar um padre que saiba se relacionar melhor com os seus próprios coirmãos, de modo que a sua relação “sustente” melhor a sua solidão e que a pastoral seja menos afetada pelas incompreensões e contradições que hoje aparecem entre eles. Mas, mesmo assim, continuamos mantendo o apoio à fratura entre clero e povo, educando-os, portanto, involuntariamente, à ideia de que o sacerdote é uma “coisa à parte” da comunidade.

Se, por exemplo, se levanta a hipótese de que deve ser potencializada a formação teológica, mantendo-a separada da prevista aos leigos, tende-se a privilegiar uma maior competência na conceitualização da fé, o que é efetivamente necessário, mas ainda se persegue a ideia de que a fé deve ser, primeiro, entendida e, depois, vivida e de que o padre é o detentor da verdade da fé, e, de fato, entrega-se a ele uma autoridade superior à dos leigos formados teologicamente. Certamente, assim, não favorecemos o fim do clericalismo.

Dou esses exemplos (e eu poderia continuar) apenas para dizer que o modelo de formação dos futuros padres é uma consequência direta do modelo de Igreja que temos em mente. Por esse motivo, não é possível simplesmente somar as melhores propostas de mudança dos seminários e amalgamá-las um pouco entre si para resolver o problema da formação dos padres.

Antes de resolver isso, é necessário um esclarecimento, senão uma partilha, do modelo de Igreja que gostaríamos para o futuro desta parte do mundo. Quer queiramos ou não, os padres não são algo “à parte” do povo de Deus, mesmo que, muitas vezes, nós os consideremos assim, e muitos deles se percebem assim. Por isso, é evidente que o modo como pensamos a forma da comunidade será a linha inevitável com que imaginaremos a futura formação dos padres.

Na Itália, está sendo aberta a temporada do sínodo. Tenho fortes dúvidas de que se terá a coragem de realmente tentar dar forma à ideia da Igreja italiana do futuro, mas isso seria necessário. E, dentro disso, então, se poderia tentar colocar as mãos também nos seminários. Mas também para o sínodo vale a mesma correlação, já vista para os seminários, entre método e objetivos. O modo como se conduz o sínodo já será um sinal de qual modelo de Igreja se tenderá a privilegiar: é a partir da aurora que se entende o dia.

 

Nota do Instituto Humanitas Unisinos – IHU

 

De 04 de junho a 10 de dezembro de 2021, o IHU realiza o XX Simpósio Internacional IHU. A (I)Relevância pública do cristianismo num mundo em transição, que tem como objetivo debater transdisciplinarmente desafios e possibilidades para o cristianismo em meio às grandes transformações que caracterizam a sociedade e a cultura atual, no contexto da confluência de diversas crises de um mundo em transição.

 

XX Simpósio Internacional IHU. A (I)Relevância pública do cristianismo num mundo em transição

 

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