Pandemia abriu novos espaços para a liderança leiga na Igreja

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02 Agosto 2021

 

Dois teólogos católicos explicam como o confinamento do coronavírus se tornou um catalisador inesperado para uma Igreja mais sinodal e liderada por leigos em uma diocese suíça.

A reportagem é de Mélinée Le Priol, publicada em La Croix International, 30-07-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A Diocese de Lausanne, Genebra e Friburgo, na Suíça, emergiu recentemente como uma espécie de “laboratório” para uma forma nova e reinventada de liderança leiga na Igreja Católica.

Dom Charles Morerod, teólogo dominicano que desde 2011 é pastor de seus 700.000 membros, decidiu recentemente substituir os padres que atuavam como vigários episcopais por leigos que serão “representantes do bispo”.

A mudança ocorrerá em breve em dois dos quatro cantões da diocese.

Um deles é o cantão de Vaud, onde o teólogo Philippe Becquart dirige o programa de formação de adultos.

Ele e Gregory Solari – um teólogo-filósofo e diretor da editora religiosa Ad Solem, que é um dos formadores do programa – falaram sobre esses novos desdobramentos.

Eis a entrevista.

Como os católicos do cantão de Vaud (Lausanne) reagiram ao anúncio dos últimos meses de uma reorganização da sua diocese, que notavelmente abre caminho para os leigos em seu governo?

Philippe Becquart – O processo diocesano iniciado pelo nosso bispo, na realidade, está vinculado especificamente aos cantões. Aqui no cantão de Vaud, tudo começou com um pedido muito concreto em 2018 do vigário episcopal, o Pe. Christophe Godel. Havia problemas de governo em certas unidades pastorais (agrupamentos de paróquias) e tensões entre ministros ordenados e agentes de pastoral leigos. Por isso, ele convocou alguns teólogos que têm responsabilidades pastorais – incluindo nós dois – para ajudá-lo a encontrar soluções. Aos poucos, aquilo que começou como uma reflexão sobre governança se tornou um grupo de trabalho mais global.

Gregory Solari – É preciso dizer que, naquela época, o Papa Francisco falava cada vez mais de sinodalidade. A releitura do seu discurso de outubro de 2015 por ocasião do 50º aniversário de instituição do Sínodo dos Bispos foi decisiva. Vimos nele uma resposta do Espírito Santo àquilo que percebíamos localmente como uma emergência: tomar consciência de que o que está no centro da Igreja é o povo de Deus. Durante uma reunião do conselho consultivo em Genebra, em maio de 2019, apresentamos nossas conclusões ao bispo Morerod.

Philippe Becquart – Sem querer dizer que nós “inspiramos” o bispo, eu acho que contribuímos para uma tomada de consciência da urgência da transformação pastoral. Pois, além das considerações práticas que poderiam justificar essa reorganização (como a preocupação em ter mais padres “jovens” nas paróquias e, portanto, mais leigos no comando), trabalhamos muito na compreensão teológica e pastoral da sinodalidade como uma forma de renovação para a Igreja local.

Por que vocês acham que essa reorganização está ocorrendo agora?

Gregory Solari – O gatilho definitivamente foi a pandemia da Covid-19. Ela trouxe este momento de pausa durante o qual Dom Morerod disse a si mesmo: “Este é o momento, devemos seguir em frente!”. Acima de tudo, a crise de saúde revelou a fragilidade do trabalho pastoral in loco, que estava muito centrado nos sacramentos: quando estes já não podiam ser ministrados, os católicos se viram desorientados.

Philippe Becquart – A pandemia permitiu que muitos batizados valorizassem as suas responsabilidades. Privados dos sacramentos, tivemos que nos conscientizar do papel que cada um de nós deve desempenhar no anúncio da Palavra de Deus e na prática da caridade. Precisamos reinvestir, portanto, na nossa missão de batizados. O outro elemento contextual que acelerou a reorganização da nossa diocese foi a crise dos abusos sexuais. Isso foi um verdadeiro choque para o nosso bispo, que estava na linha da frente nas respostas institucionais.

Os cantões de Vaud e Friburgo terão, cada um, um leigo como “representante do bispo” a partir de setembro. Eles substituem os padres que atuavam como vigários episcopais. Por que essa mudança é importante?

Philippe Becquart – Não é tanto um ponto de chegada, mas sim um ponto de partida. A nomeação de Michel Racloz, teólogo leigo e homem de família, como representante do bispo é um pré-requisito para outras mudanças que estão sendo levadas em consideração. Mas não era algo evidente! Em vez disso, o Vaticano, assim como o conselho consultivo dos bispos diocesanos, preferia que um leigo assumisse o papel de um “coordenador administrativo diocesano”. Dar aos leigos responsabilidades administrativas e financeiras é geralmente algo aceito, mas lhes dar responsabilidades pastorais é outra coisa... Mas foi isso que aconteceu em maio, com o anúncio desses novos “representantes do bispo”.

Gregory Solari – Essa abordagem preocupa tanto os padres quanto os fiéis. Isso é normal: a sinodalidade representa uma mudança de paradigma em relação àquilo que sempre conhecemos; isso perturba as nossas percepções. Para mim, um dos grandes projetos dos próximos anos é repensar uma teologia do presbiterado. Embora o Vaticano II tenha reavaliado o papel dos bispos e dos fiéis, a “camada intermediária”, a dos padres, ficou um tanto esquecida.

A Suíça francófona pode ser um “laboratório” para a Igreja do futuro?

Gregory Solari – Sim, acho que sim. Em primeiro lugar, porque a democracia direta está muito bem estabelecida na Suíça. Em segundo lugar, porque o componente reformado é majoritário, e essas Igrejas há muito tempo desejam ser mais sinodais do que nós. O contexto eclesial e cultural da Suíça francófona, portanto, pode torná-la um laboratório fecundo.

Philippe Becquart – Obviamente, nós não reivindicamos estar inventando nada. Ainda nos anos 1990, o arcebispo Albert Rouet criou as “comunidades locais” em Poitiers, que foram uma espécie de campo de prova para a sinodalidade! Em todo o caso, esse tipo de experimentação é um ato de fé: abandonamos um modelo anterior sem saber exatamente o que vamos encontrar. O que caracteriza o caminho rumo a uma maior sinodalidade que percorremos nos últimos três anos é a surpresa que marca cada passo rumo a uma responsabilidade maior para todos os batizados. Este é um momento de virada para a Igreja.

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