Tunísia: instabilidade contagiosa. Artigo de Francesco Sisci

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30 Julho 2021

 

"Também não podemos nos iludir de que o desafio à democracia e à estabilidade tunisiana termine aí. A instabilidade da Tunísia está destinada, como uma doença infecciosa, como o Covid, a contagiar os países vizinhos. O primeiro da lista é sem dúvida a Itália, porque, ao contrário da enfraquecida Argélia, vive uma profunda crise de identidade", escreve o sinólogo italiano Francesco Sisci, professor da Universidade Renmin, em Pequim, na China, em artigo publicado por Settimana News, 29-07-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

O problema atual da Tunísia vem de longe e da velha disputa europeia e em particular entre a França e a Itália pelo Norte da África. Mas aquela história não existe mais, enquanto outra completamente diferente começou, que precisa de soluções e de ideias inclusive diferentes.

A França ocupou a Tunísia em contraste com as ambições italianas no final do século XIX. Roma na época se sentiu traída pela França porque a presença em Túnis da Itália e em particular da Sicília era muito maior e mais antiga do que a dos franceses. Mas naquela conjuntura, a Grã-Bretanha, que ocupava Malta arrancada do reino das duas Sicílias durante as guerras napoleônicas, apoiou os objetivos de Paris. Londres temia que Roma, ao controlar a Tunísia e a Sicília, colocasse em dificuldade sua posse de Malta, por séculos parte do domínio siciliano e há menos de um século em mãos britânicas.

Por outro lado, em 1911 foi permitido à Itália ocupar a Líbia e o Dodecaneso, arrebatando-o do império turco. A disputa pelo Norte da África não terminou aí porque as ambições italianas na Líbia se expandiram durante o regime fascista, colocando sob pressão tanto a presença francesa no oeste quanto a presença inglesa no Egito no leste.

O fim da Segunda Guerra Mundial também marcou o fim dos sonhos coloniais italianos. Enquanto a presença italiana na Líbia se diluía ao longo dos anos, a presença francesa na Tunísia e na Argélia permanecia forte. Naqueles anos, no norte da África e em todo o Oriente Médio, o grande jogo do petróleo também estava começando, no qual a Itália estava em atraso e desempenhava um papel secundário com a Agip.

A luta da Argélia pela independência da França nas décadas de 1950 e 1960 foi importante. A França venceu militarmente a guerra na Argélia, mas perdeu-a politicamente ao ser forçada a conceder a independência. Naquela conjuntura, a Itália agiu de forma ambígua, apoiando oficialmente a França, mas também apoiando os separatistas argelinos. Em retrospectiva, provavelmente a retirada da Argélia foi talvez uma sorte para Paris. Com a Argélia ainda parte da França, os votos argelinos de hoje seriam dominantes na democracia francesa e, de fato, a França seria governada por Argel.

 

 

Tudo isso, porém, é história antiga, quando as disputas entre poucos Estados europeus determinavam o futuro de todo o mundo. Hoje, o Mediterrâneo não é mais um lago para jogos da Europa Ocidental. A Rússia assomou sobre o Norte da África após mais de vinte anos de ausência após o fim da Guerra Fria. Quase um século depois, a Turquia voltou a olhar para o ocidente do Mediterrâneo, não apenas para o leste e o norte em direção à URSS, como fizera durante toda a Guerra Fria.

Ancara restabeleceu sua presença na Síria, que havia perdido na Primeira Guerra Mundial e também retornou à Líbia, de onde tinha saído em 1912.

A China por suas Rotas da Seda está pela primeira vez interessada no Mediterrâneo. A África Subsaariana, modestamente enriquecida pelos novos investimentos chineses no continente e mais populosa graças a políticas sanitárias eficazes, tenta cruzar o deserto e o mar para chegar à Europa.

Nesta situação, o caos líbio que perdura é uma fonte de instabilidade profunda e muito grave para todos os países da região. Não podemos nos enganar: a crise tunisina de hoje deriva do caos líbio que persiste há anos. A infiltração de milícias líbias no sul da Tunísia, os tráficos de todo tipo que passam pela fronteira porosa entre os dois países poluem há anos a estabilidade da frágil democracia tunisiana. Não podemos ficar surpresos com as desordens na Tunísia hoje. Devemos nos admirar e congratular pela capacidade da Tunísia de resistir até hoje.

Também não podemos nos iludir de que o desafio à democracia e à estabilidade tunisiana termine aí. A instabilidade da Tunísia está destinada, como uma doença infecciosa, como o Covid, a contagiar os países vizinhos. O primeiro da lista é sem dúvida a Itália, porque, ao contrário da enfraquecida Argélia, vive uma profunda crise de identidade.

A Argélia luta há décadas contra as formas islâmicas de insurreição e parece ter encontrado uma forma de estabilidade, embora em contínua tensão interna. A Itália, por outro lado, é atravessada por tensões muito profundas e contágios tunisianos de vária natureza colocariam em risco seu frágil quadro institucional e democrático.

Portanto, é necessário pensar em um plano para salvar a Tunísia junto com a França e os EUA, porque com isso se salva também a Itália. Mas isso não se limita nem pode se limitar apenas à Tunísia. A geografia política do Norte da África precisa ser repensada.

 

Mapa dos países do norte da África. (Foto: Toda Matéria)

 

Parte desse raciocínio é também repensar o futuro daquele território que na Itália continua a se chamar Líbia, mas que hoje está fragmentado em dezenas de espaços móveis como as milícias peregrinas que o controlam.

Essa redefinição não pode ser realizada apenas pela Itália ou pela França. Precisa-se de uma ideia abrangente da Europa sobre o futuro do Norte da África que dê aos países fundamentais da região, como Egito, Tunísia ou Argélia, a oportunidade de planejar um futuro, um futuro estável.

 

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