Quem vai desligar o Papa? Artigo de Thomas Reese

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30 Julho 2021

 

“Quem tomará essas decisões por um papa incapacitado ou, por falar nisso, por um papa emérito? Francisco e Bento XVI precisam agir agora para que não haja confusão quando eles estiverem incapacitados. Cada um precisa designar um agente para tomar decisões sobre seus cuidados médicos e eles precisam dar instruções claras sobre o tipo de atendimento que desejam. A Igreja precisa de clareza e certeza durante uma crise médica papal. Qualquer outra coisa pode dividir severamente a Igreja”, escreve Thomas Reese, jesuíta estadunidense, ex-editor-chefe da revista America em artigo publicado por Religion News Service, 27-07-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

Em uma coluna recente, eu fiz um justo e óbvio apontamento que o Papa Francisco, um homem de 84 anos, não estaria conosco para sempre. A resposta deixou óbvio que muitos católicos e outros não tinham pensado muito sobre este fato evidente, e levou a outro ponto, menos óbvio – mas mais urgente: a lei da Igreja não acompanhou a forma como nós, humanos, morremos nos dias de hoje.

Uma das conversas mais difíceis que as crianças precisam ter com seus pais idosos é sobre as decisões médicas que precisarão ser feitas quando um dos pais está gravemente doente e é incapaz de tomar decisões por conta própria.

Essa conversa não deve ser adiada até que o pai ou avô fique doente. Deve ser realizada com bastante antecedência, quando pode acontecer em um contexto calmo e pacífico – e antes que um acidente vascular cerebral repentino e inesperado force o problema.

Se o pai deixar instruções claras sobre o que eles querem ou quem decide, a família tem maior probabilidade de aceitar as decisões pacificamente. Mas, se não houver instruções, uma família pode ser dilacerada por discussões no hospital sobre como cuidar de um pai doente ou moribundo.

O mesmo é verdade para o Santo Padre na família que chamamos de Igreja Católica.

Visto que o papa não tem esposa ou filhos, ele precisa designar alguém que possa tomar essas decisões por ele, e o resto da Igreja precisa saber quem é. Caso contrário, discussões sobre seu tratamento podem dividir a Igreja por décadas, mesmo após sua morte.

Na era da mídia social, as teorias da conspiração se espalharão rapidamente, a menos que haja verdadeira transparência sobre a doença e o tratamento do papa. Ainda temos teorias de conspiração sobre a morte de João Paulo I, que durou apenas um mês como papa.

Nos Estados Unidos, a designação de um agente de saúde seria registrada em uma procuração para cuidados de saúde e um testamento vital. Eu tenho uma procuração durável que nomeia uma pessoa “para tomar decisões por mim em relação aos meus cuidados médicos, caso eu me torne incapaz de tomar essas decisões sozinho”.

A autoridade é ampla: “Dou ao meu agente total poder e autoridade para tomar decisões sobre cuidados de saúde por mim, incluindo o direito de consentir, recusar o consentimento ou retirar o consentimento para qualquer cuidado, tratamento, serviço ou procedimento para manter, diagnosticar ou tratar uma condição física ou mental”.

Na maioria dos países, se você não assinar esse documento, os médicos pedirão instruções ao seu parente mais próximo se você estiver inconsciente. Para Francisco, essa seria sua única irmã viva, María Elena Bergoglio, que mora na Argentina e tem 73 anos.

Ela seria responsável por tomar decisões ou seria o secretário de Estado, o mais alto funcionário do Vaticano? Não há legislação do Vaticano cobrindo essa contingência.

Para o bem da Igreja, o papa precisa esclarecer a incerteza assinando uma procuração durável que especifica quem toma as decisões médicas por ele se ele não puder tomá-las sozinho. Ele pode já ter feito isso secretamente, mas para evitar teorias da conspiração (“É uma falsificação!”), ele precisa tornar essa decisão pública enquanto ainda está funcional e lúcido.

Quem o papa deve nomear? Se não for sua irmã, de preferência um sobrinho, sobrinha ou amigo de longa data que não trabalhe no Vaticano.

As autoridades do Vaticano têm um conflito de interesses inerente ao lidar com um papa incapaz. Teóricos da conspiração afirmam que querem mantê-lo artificialmente vivo enquanto dirigem a Igreja ou desejam que ele morra rapidamente para que um deles possa ser eleito papa.

Quem quer que seja nomeado seu agente não deve ter outra agenda senão o bem de Jorge Mario Bergoglio, que por acaso é papa.

Além da procuração durável, também é possível orientar o seu agente sobre o tipo de atendimento que deseja. Essas instruções às vezes são chamadas de testamento vital.

Por exemplo, o que assinei indica “Eu não quero minha vida prolongada se (1) eu tiver uma condição incurável e irreversível que resultará em minha morte em um tempo relativamente curto, (2) eu fico inconsciente e, a um razoável grau de certeza médica, não recuperarei a consciência ou (3) os prováveis riscos e encargos do tratamento superariam os benefícios esperados”.

A caixa alternativa, que não marquei, diz: “Quero minha vida prolongada o máximo possível dentro dos limites dos padrões de saúde geralmente aceitos”.

Tampouco marquei as caixas que indicam os tratamentos específicos de suporte à vida a serem usados se “estou persistentemente inconsciente ou não há expectativa razoável de minha recuperação de uma doença ou condição gravemente incapacitante ou terminal”. Isso incluía nutrição e hidratação artificiais, cirurgia, ressuscitação cardiopulmonar, antibióticos, diálise, respirador, quimioterapia ou radiação.

Esse tipo de especificidade é necessário para orientar os médicos e evitar que as crianças briguem no hospital sobre qual tratamento médico dar a seus pais.

Da mesma forma, muitos na Igreja discutiriam sobre qual tratamento é apropriado para uma pessoa, quanto mais para o papa, nessas condições. Alguns acreditam, por exemplo, que nutrição e hidratação artificiais (alimentação por sonda de comida e água) são moralmente necessárias, mesmo quando a pessoa está persistentemente inconsciente, sem esperança de recuperação. Outros acreditam que, nessas circunstâncias, esses são meios extraordinários que simplesmente prolongam a morte.

Quem tomará essas decisões por um papa incapacitado ou, por falar nisso, por um papa emérito?

Francisco e Bento XVI precisam agir agora para que não haja confusão quando eles estiverem incapacitados. Cada um precisa designar um agente para tomar decisões sobre seus cuidados médicos e eles precisam dar instruções claras sobre o tipo de atendimento que desejam.

A Igreja precisa de clareza e certeza durante uma crise médica papal. Qualquer outra coisa pode dividir severamente a Igreja.

 

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