4º Domingo de Páscoa – Ano B - O Bom Pastor ensina: conhecer é amar

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Por: MpvM | 23 Abril 2021

 

“Verdadeiramente, assim como o Pai é misericordioso, também o Filho é cheio de misericórdia. O Bom Pastor se compadece e entrega a sua vida pelas ovelhas movido por essa misericórdia. Misericórdia que, no hebraico, rachamim, vem da palavra útero materno, rechem. Portanto podemos dizer que esse amor passional, essa misericórdia, essa disposição e capacidade de entrega de vida do Bom Pastor vem desde suas entranhas, como as entranhas maternas, onde Deus, assim como uma mãe, nos gera, nos nutre, nos protege, nos cuida.”

A reflexão é de Suzana Regina Moreira possui mestrado em Teologia Sistemático-Pastoral e bacharelado em Teologia pela PUC-Rio. Trabalha como tradutora e intérprete de português, inglês e espanhol. É Animadora Laudato Si’ do Movimento Católico Global pelo Clima e faz parte da TeoMulher, rede de teólogas e cientistas da religião feministas. 

 

Leituras do Dia
1ª Leitura - At 4,8-12
Salmo - Sl 117,1.8-9.21-23.26.28cd.29 (R. 22)
2ª Leitura - 1Jo 3,1-2
Evangelho - Jo 10,11-18

 

Hoje celebramos mais um Domingo de Páscoa em plena pandemia. Estamos há mais de um ano lutando para seguir celebrando a fé na vitória da Vida em meio a tantas mortes e indiferença pelas vidas. Hoje é também o dia em que celebramos o Bom Pastor, Deus que sempre cuida de suas ovelhas e entrega sua vida pelo rebanho. Em meio à monotonia da rotina pandêmica que fez com que todos os dias da semana parecessem os mesmos, se torna ainda mais desafiador refletir sobre a pertinência da celebração do Bom Pastor mais uma vez nesse contexto de um Tempo Pascal em pandemia. Como a Palavra de Deus hoje nos convoca à esperança da Ressurreição?

Em João 10, 11-18, Jesus se identifica como o Bom Pastor. Assim como diversas outras parábolas e discursos de Jesus, ele faz uso das referências simbólicas da sua época e do seu contexto de vida para alcançar os corações daqueles e daquelas que se dispunham a ouvir as suas palavras.

Nossa compreensão sobre pastoreio hoje costuma ser muito caricata, pois é uma realidade distante daquela que muitos de nós vivemos. Costumamos romantizar a figura do Bom Pastor, sem pensar na realidade concreta de uma pessoa que vive desse trabalho, assim como era no tempo de Jesus, quando era uma função de alta relevância, pois toda a sociedade era pastoral-agrícola. Mas se pensamos em pastores e agricultores hoje, são pessoas que costumam ser esquecidas ou até rejeitadas e vistas como inferiores em nossa sociedade. Fica difícil, portanto, nos identificarmos com a liturgia de hoje, nos ver como ovelhas e entender o pastoreio de Jesus Cristo com a mesma intensidade com que era compreendido em sua época.

Vamos refletir, então, sobre um dos verbos utilizados para caracterizar o Bom Pastor: conhecer.

Para demonstrar de que forma o Bom Pastor se diferencia como Bom, não só pela sua bondade, mas por aquilo que o torna exemplo a ser seguido, Jesus afirma que conhece as suas ovelhas e elas o conhecem (cf. Jo 10, 14). Conhecer, no sentido bíblico, tem uma profundidade extremamente íntima. Tanto que sabemos que há passagens na Bíblia em que esse mesmo verbo é usado para descrever quando um casal se relaciona intimamente (p.ex. Gn 4,1 e 16,4). E é nesse nível de intimidade que devemos entender quando Jesus diz que conhece suas ovelhas e as ovelhas o conhecem. É uma comunhão de vida, uma relação recíproca de vivência e entrega.

Somente com um amor passional, de forte força vital, é possível realmente entrar nessa dinâmica de intimidade e comunhão. Comunhão tão íntima que reflete também a comunhão trinitária, pois Jesus diz que a forma como ele conhece as ovelhas e elas o conhecem, é como Pai o conhece e ele conhece o Pai (cf. Jo 10, 15). É esta comunhão íntima e dinâmica a partir da força do amor passional que Jesus é capaz de se dar e entregar a sua vida. Assim como um casal se dá um ao outro e entregam suas vidas na relação íntima, Jesus se dá e entrega a sua vida por nós para que possamos participar da intimidade de Deus.

Isso também gera um prazer imensurável, como na relação íntima do casal. Pois não há como comparar a alegria de saber que somos realmente amados e queridos por Deus, a alegria e o prazer de viver uma relação íntima de amor. Por isso podemos exclamar junto ao salmista: Dai graças ao Senhor porque ele é bom, eterna é a sua misericórdia! (Sl 117, 1. 29).

Verdadeiramente, assim como o Pai é misericordioso, também o Filho é cheio de misericórdia. O Bom Pastor se compadece e entrega a sua vida pelas ovelhas movido por essa misericórdia.

Misericórdia que, no hebraico, rahamim, vem da palavra útero materno, rehem. Portanto podemos dizer que esse amor passional, essa misericórdia, essa disposição e capacidade de entrega de vida do Bom Pastor vem desde suas entranhas, como as entranhas maternas, onde Deus, assim como uma mãe, nos gera, nos nutre, nos protege, nos cuida.

Voltando agora a refletir sobre a distância que temos hoje da realidade dos pastores e agricultores, diferente da realidade que era dominante na época de Jesus, podemos fazer uma última reflexão. Durante esta pandemia, tem ficado mais evidente como as pessoas que vivem da terra e em relação de harmonia e não de exploração da terra, são fundamentais para reverter a lógica consumista da nossa sociedade que tanto despreza a saúde do planeta, dos animais, e de toda a criação. Nesta semana de abril que passou, houve duas datas que gostaria de destacar: 19 de abril, dia dos povos indígenas, e 22 de abril, dia da Terra e dia da primeira chegada dos portugueses neste nosso território. Pode ser paradoxo celebrar a memória da chegada dos colonizadores no Brasil na mesma semana em que se celebra a memória dos povos indígenas que foram por eles oprimidos.

Assim como a primeira leitura (At 4,8-12) e o Salmo (Sl 117) de hoje nos lembram que Jesus é a pedra rejeitada que se tornou a pedra angular, podemos perceber como os povos da terra, os povos originários e indígenas, sempre tão rejeitados e desprezados, são agora a nossa pedra angular para uma recuperação justa da pandemia do coronavírus.

De fato, como nos lembra o Papa Francisco na Laudato Si’, “para eles, a terra não é um bem económico, mas dom gratuito de Deus e dos antepassados que nela descansam, um espaço sagrado com o qual precisam de interagir para manter a sua identidade e os seus valores. Eles, quando permanecem nos seus territórios, são quem melhor os cuida. Em várias partes do mundo, porém, são objeto de pressões para que abandonem suas terras e as deixem livres para projetos extractivos e agro-pecuários que não prestam atenção à degradação da natureza e da cultura.” (LS 146)

Os povos indígenas são aqueles capazes de nos ensinar a viver em harmonia com toda a criação de Deus. Eles também gozam do grande presente de amor que o Pai nos deu, como nos diz Pedro na segunda leitura: o presente de sermos chamados filhos de Deus! E os povos indígenas realmente o são! Se o mundo não os conhece, é porque não conheceu o Pai (cf. 1Jo 3,1).

O Evangelho (Jo 10,11-18) de hoje e a celebração do Bom Pastor, nos convocam a escutar e conhecer aqueles e aquelas que nos ajudam a viver na dinâmica de amor íntimo, de entrega de vida para que haja vida para todos. Somos convocados a escutar e conhecer aqueles e aquelas que historicamente foram tão oprimidos e injustiçados, assim como foi Jesus. Temos a capacidade e a possibilidade, como seguidores e seguidoras de Jesus Cristo, de criar redes de relação de amor misericordioso. É nessa dinâmica de relação de amor onde jaz nossa esperança, ainda em meio a tanta escuridão nesta pandemia.

Gostaria de encerrar então com um poema de Márcia Wayna Kambeba, indígena pertencente ao povo Omágua/Kambeba. O título é EDUCAÇÃO INDÍGENA:

Ainda pequeno na aldeia
Na vivência com os irmãos,
Plantar macaxeira, tirar lenha,
Comer peixe com pirão,
É ensino, é educação.

Ir pra beira tomar banho,
Pegar cará e mandí,
Ver o sol se esconder
E esperar a lua se vestir,

Se vem cheia é alegria
Coisa boa vem por aí,
E com sua luz toda aldeia,
Vai cantar, dançar, se divertir.

Aprender a colher o tento na mata,
Fazer cocar de miriti,
A juntar as penas que vem das aves,
Seguindo as orientações de Waimí.

É da floresta que vem
A palha que a Uka vai cobrir,
Tecer nelas nossas memórias
Na folha de urucarí.

Na aldeia é assim a educação
Que desde séculos aprendi,
Conviver com a natureza
Sem agredir, nem exaurir,

Se hoje no século XXI
Tens a mata e a biodiversidade,
Nesse verde eu cresci
E conheci sua bondade,
Partilhar água e sombra,
Sem ver nisso tanta maldade.

Mas logo veio o “outro”,
E mostrou-me com sua maldade,
A importância da escrita
E vi nela uma necessidade,
Fui estudar na escola do branco
Para entender sua realidade.

Compreendi que a cultura é um rio
Corre manso para os braços do mar,
Assim não existem fronteiras
Para aprender, lutar e caminhar.

Hoje estamos nas Universidades,
Levamos junto nosso lugar,
A construção do conhecimento é uma teia,
Que liga a tua cidade com minha aldeia.

Sendo que minha identidade se constrói
Nas peculiaridades que em mim permeia,
Minha casa na cidade é também a minha aldeia,
Não perdemos nossa essência,
Somos o fino grão de areia!

Fonte: EduCapes - https://bit.ly/3vcUey5

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