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13 Abril 2021

 

"Estamos falando de mais de 8 milhões de crianças cujos hábitos, cujo tempo, cujas relações e atividades diárias - normalmente na escola com os colegas - foram desarticuladas, interrompendo o efeito da socialização. Estamos enfrentando uma experiência coletiva sem precedentes e certamente traumática de privação e isolamento", escreve Luigi Benevelli, médico italiano, em artigo publicado por Settimana News, 12-04-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

A pandemia Covid-19, desde o seu início, não teve um impacto igual nas populações do planeta, de país a país, nem mesmo no mesmo país: em Itália - país que tem o mérito de propiciar aos seus habitantes uma expectativa de vida elevada (o segundo do mundo depois do Japão) -, os idosos foram atingidos muito mais duramente: um verdadeiro massacre.

Mas também meninos e meninas, ou seja, as gerações mais novas, estão fortemente marcadas pelos efeitos negativos na saúde psicofísica geral, devido, em particular, ao fechamento prolongado de jardins de infância e escolas, com o encerramento forçado nas casas das famílias.

Estamos falando de mais de 8 milhões de crianças cujos hábitos, cujo tempo, cujas relações e atividades diárias - normalmente na escola com os colegas - foram desarticuladas, interrompendo o efeito da socialização. Estamos enfrentando uma experiência coletiva sem precedentes e certamente traumática de privação e isolamento. Basta pensar que as escolas não permaneceram fechadas na Itália mesmo durante a Segunda Guerra Mundial. Além disso, nenhum país do mundo estava preparado e, portanto, equipado para enfrentar um desafio desse tipo, não só no plano sanitário, mas sobretudo relacional e social.

Assim, inevitavelmente e de repente, o ensino e a aprendizagem - artes que sempre se desenvolveram "presencialmente" - passaram a ocorrer "à distância", cada professor e aluno, apenas em frente ao seu PC, desde que equipados, pelo menos, com os dispositivos e conexões apropriados. Na verdade, deveríamos saber que 11% das famílias italianas não têm conexões de Internet eficazes.

A esse dado deve-se somar a constatação de que nem todas as casas em que vivem os nossos pequenos gozam de condições suficientemente adequadas para o desenvolvimento do "ensino a distância", porque as casas são obviamente muito diferentes em tamanho e número de moradores, nem sempre com espaços personalizáveis de acordo com as exigências específicas, principalmente das crianças. Em muitas situações, as próprias casas foram transformadas em ambientes de trabalho e escritórios, além de "salas de aula" escolares. Tudo isso teve e tem a ver com a renda.

A combinação desses fatores, suas interações, seu impacto no cotidiano das pessoas pequenas e grandes, próximas umas das outras, gerou fontes de estresse intenso, contínuo e prolongado por semanas e meses, alterando radicalmente os equilíbrios pré-existentes. Agora estamos em condições de coletar observações e os primeiros estudos a esse respeito.

Efeitos em crianças e adolescentes

Aumentos significativos nos casos de irritabilidade em crianças menores de 6 anos são relatados por serviços especializados, juntamente com distúrbios do sono (medo do escuro, despertar noturno, dificuldade em adormecer) e distúrbios de ansiedade. Dos 6 aos 18 anos, são relatados alteração do ritmo vigília-sono, aumento da instabilidade emocional, irritabilidade, transtornos alimentares (anorexia, bulimia) [1].

Relatada e obviamente muito temida pelos especialistas é também a importância do aumento do consumo de substâncias psicotrópicas capazes de causar dependência. Uma análise aprofundada mereceria a condição atravessada pelos pequenos alunos com necessidades educacionais especiais.

Dados preliminares coletados de um estudo do Instituto Gaslini-Universidade de Gênova intitulado Impacto psicológico e comportamental em crianças das famílias na Itália, realizado com 6.800 indivíduos maiores de idade - dos quais 3.245 pais com filhos menores - mostram como o confinamento "determinou uma condição muito generalizada de estresse, com repercussões significativas não só na saúde física, mas também na saúde emocional e psíquica dos pais e das crianças”.

Um estudo semelhante conduzido na China diretamente com 1.241 crianças e adolescentes antes e depois do fechamento das escolas devido à pandemia, encontrou nos menores de idade um aumento consistente de sintomas depressivos, das lesões auto infligidas, dos pensamentos suicidas, mas também de tentativas de suicídio propriamente ditas.

Os primeiros dados, até agora coletados, confirmam, portanto, o que estamos facilmente percebendo: uma situação geralmente difícil em si mesma para toda a população, torna-se particularmente dramática quando atinge meninos, meninas e adolescentes, ou seja, as gerações que vão ao encontro do futuro da nossa humanidade.

A vacina e o espírito

Estamos agora confiantes nos efeitos benéficos da vacinação. Mas vamos ter cuidado: não existe vacina para curar o equilíbrio alterado da saúde mental. É, portanto, necessário e urgente desenvolver estratégias, programas, ações para a saúde global de todos, a partir justamente dos menores e mais frágeis, com a consciência de que os serviços de saúde mental da faixa etária pediátrica e da adolescência, por si só não são capazes de segurar o impacto de um sofrimento tão generalizado, mesmo que apenas em uma minoria significativa de casos isso chegue à evidência clínica.

É natural - sobretudo à luz dos dados que claramente emergem - perguntar se, quando se decidiu pelo fechamento das escolas, foi feita uma avaliação séria e previdente da saúde, em sentido global, das crianças, dos jovens e da população, ou seja, se os riscos de isolamento social prolongado foram considerados preventivamente.

Evidentemente não foi assim que aconteceu. Em uma economia da especialização e em uma cultura em que são parceladas as competências e os conhecimentos, provavelmente só poderia ter acontecido dessa forma. Mas justamente por isso deveríamos ter entendido e aprendido algo.

O debate sobre este assunto é animado. Segundo Sara Gandini, epidemiologista e bioestatística da Universidade Estatal de Milão, as pesquisas mostrariam que o famoso índice RT não foi modificado pelo fechamento das escolas [2].

Enquanto outros epidemiologistas ainda se opõem totalmente à reabertura das escolas. Em minha opinião, a síntese deve envolver uma gama mais ampla de competências. A especialização mostrou todos os seus limites. A última palavra, cada vez mais, precisa ser de uma política sensata, genuinamente interessada no bem comum, na saúde geral dos cidadãos e no seu futuro, especialmente se forem pequenos e frágeis.

 

Referências

 

[1] Emanuele Garoppo, Psiche, scuola e relazioni sociali: l’impatto del Covid-19 su bambini e adolescenti, «Sanità 24», 10 de dezembro de 2020.

[2] Sarah Numico, Chiudere o non chiudere la scuola? «SIR news», 17 de março de 2021

 

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