Como a pandemia desafia as igrejas. Entrevista com Luca Savarino

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11 Março 2021

"Ser uma igreja unida na pandemia - reflexões de uma perspectiva protestante" é o título do documento elaborado pelo Comitê Consultivo sobre questões éticas da Comunhão das Igrejas Protestantes na Europa (CCPE), da qual a Igreja Valdense também faz parte. Um texto de orientação para igrejas desafiadas em seu serviço pela emergência Covid-19, que destacou seus pontos fortes e fracos. O documento está dividido em seções que se referem a setores de atividade constitutivos do ser igreja, remontando à sua terminologia grega: leiturgia (liturgia), martyria (testemunho), diaconia (justiça e ação social), koinonia (comunhão). Conversamos sobre este documento com o filósofo Luca Savarino, membro do comitê consultivo para questões éticas da CCPE e também coordenador da comissão de bioética das igrejas Batistas, Metodistas e Valdenses.

A entrevista com Luca Savarino é publicada por Notizie Evangeliche (NEV), 10-03-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis a entrevista.

 

A articulação do documento é interessante. A pandemia é uma oportunidade para redescobrir a complexidade de sermos igreja? É uma questão de elaborar novas estratégias ou de encontrar uma alma que estávamos esquecendo?

Não me parece que o documento contenha inovações ou redescobertas a respeito do que imaginamos ser o papel das igrejas protestantes europeias. O que emerge do texto é a imagem de uma igreja totalmente imersa na modernidade, cujos desafios aceita. Uma igreja que não acusa nem se coloca sobre o muro, mas que tenta resolver os problemas que enfrenta de forma construtiva, aceitando aqueles mecanismos democráticos que podem ser melhorados, mas que devem ser compreendidos e aceitos.

Do ponto de vista ético, o documento enfatiza questões importantes: a necessidade de limitar a liberdade pessoal para o respeito do outro e para a proteção da saúde pública; a solicitação de uma vacinação global em clara contraposição com um nacionalismo vacinal que, infelizmente, no mundo destes últimos meses tem sido preponderante; por fim, reconhece que em um contexto pandêmico de recursos escassos, tenha se feito recurso à triagem, ou seja, a seleção dos pacientes para acesso ao tratamento. Admitir que foi preciso recorrer a isso é essencial para garantir que nunca mais aconteça, mas isso só pode ser alcançado com o fortalecimento dos serviços sanitários nacionais e com hospitais. Também é importante que o documento afirme que a triagem só é aceitável se guiada por um critério clínico. Eles me parecem pontos que denotam uma forte assunção de responsabilidade por parte das igrejas.

Como as igrejas podem traduzir concretamente os princípios aos quais o documento se refere?

Acredito que as igrejas devem entender os problemas que enfrentam tentando habitar melhor as instituições democráticas do mundo moderno. O documento, quando fala das medidas restritivas à liberdade de culto, convida as igrejas a compreenderem a legitimidade dessas providências, mas sem abrir mão de seu espírito crítico, instando-as a identificar medidas alternativas. Um exemplo é o de organizar o culto por meio de outros instrumentos que não os tradicionais. E continuar a orientar o testemunho para o exterior com serviço diaconal aos mais vulneráveis.

O documento contém uma citação do teólogo protestante Dietrich Bonhoeffer que nos lembra "a oração e a prática da justiça". O que o documento tem a dizer a um público fora das igrejas?

Acredito que o documento tem muito a dizer para um público externo. Os temas e reflexões que as igrejas protestantes elaboraram ao longo dos últimos anos devem ser divulgados mais amplamente na sociedade. Refiro-me, em particular, ao tema da solidariedade social e da ecologia. Quando se fala de ecologia, de superação do antropocentrismo, todos temas que a pandemia trouxe de volta à pauta, muitos pensam na encíclica do Papa "Laudato si'", esquecendo que os protestantes já haviam abordado a questão em 2004, com a Confissão de Fé de Acra que destacava a emergência econômica e ecológica.

O texto reivindica a importância de fazer comunidade apesar do distanciamento social imposto. Um desafio para as igrejas ...

Eu não falaria em distanciamento social, mas físico, porque podemos ficar em contato social mesmo que não haja proximidade física, por exemplo pela via digital. Obviamente, as igrejas devem fazer de tudo para alcançar seus membros. Mas também é importante que reconheçam o quanto o distanciamento físico não é igual para todos. A distribuição desigual do trabalho doméstico, a própria violência doméstica e o acesso não garantido a um meio de ensino alternativo para todos são exemplos de uma questão social que deve ser considerada. Em suma, as igrejas não devem esquecer as categorias em risco, sejam elas quais forem, lembrar-se que existem os últimos e os perdedores. Não se esquivar da responsabilidade espiritual para com aqueles que sofrem é essencial porque o Covid gerou muita desorientação.

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