Balanço da histórica e arriscada viagem do Papa ao Iraque: o triunfo da fraternidade dos filhos de Abraão

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09 Março 2021

 

“E Abraão, do céu, sentiu-se orgulhoso, mais uma vez, de seus filhos e do novo Abraão, o Papa Francisco, que encerrou sua viagem consolando o pai de Aylan, o menino que morreu em uma praia turca que despertou a consciência da Europa diante do drama dos refugiados. O toque final para uma viagem reconfortante”, escreve o jornalista espanhol José Manuel Vidal, diretor do portal Religión Digital, 08-03-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

Outra viagem completada. Mais uma. Este Papa de luz ilumina as noites e sombras mais escuras com sua mera presença. E voltou a demonstrar isso com sua visita ao Iraque. E isso que não tinha nada fácil na viagem, talvez, a mais difícil e arriscada de seu pontificado.

Uma visita que, por ser perigosa, quase todo mundo o desaconselhava a fazê-la: tanto os de dentro, quanto os de fora. Porém, Francisco já tem nos acostumado a se deixar guiar somente pelo seu coração e pelas moções do Espírito. E, ainda, não lhe falta valentia.

Ele sabia que não podia falhar. Que um país inteiro o esperava como um santo advento. O Iraque necessitava sair desse imaginário coletivo que o segue associando a Saddam, às guerras do Golfo e ao Daesh. Necessitava soltar o embaraço do passado e se reivindicar como um país novo, em reconstrução e que quer olhar para o futuro. Respeitando seu passado de convivência pacífica entre suas diversas religiões e distintas minorias.

E o Papa Francisco, com sua mera presença, seguido pelas câmeras de todo o mundo, contribuiu a colocar no foco da atualidade um país que, apesar de suas ruínas tão recentes, quer olhar confiante para o futuro, com esperança e alegria.


Papa Francisco participa de uma oração em memória às vítimas da guerra em Hosh al-Bieaa, Mosul, Iraque, 070-03-2021. Foto: Paul Haring | CNS

Neste contexto, o encontro do Papa com a máxima autoridade iraquiana do Islã xiita foi uma celebração do diálogo inter-religioso e a promessa de convivência pacífica por parte da vertente islâmica majoritária no país com a minoria cristã. Al-Sistani, que vivem uma casinha humildade de um bairro humilde de Najaf (os dois líderes são parecidos também pela busca de uma vida austera) e que, a seus 90 anos, recebe sentado suas visitas, levantou-se para saudar o Papa, sinal de reconhecimento de sua autoridade moral.

Francisco sabe que não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões, como diz o teólogo Hans Küng. Mais ainda, sabe que essa paz se exerce na coexistência pacífica das duas maiores religiões da terra: o Islã e o cristianismo. Daí, suas contínuas tentativas de aproximação ao Islã.

Primeiro, com a vertente dominante do islã mundial, o sunismo, quando – em fevereiro de 2019 – assinou o denominado “Documento pela Fraternidade Humana” com o imã Ahmed al-Tayyeb da mesquista de Al Azhar do Cairo, a autoridade máxima do islã sunita.

Com o chefe principal da vertente xiita do Islã, o aiatolá iraniano Ali Jamenei, o Papa Francisco ainda não pôde se encontrar, mas o fez com a principal figura do xiismo iraquiano, Ali al-Sistani, que, por prova de sua boa vontade, mandou receber o Papa de Roma com um enorme cartel no aeroporto de Najaf, que rezava assim: “Vocês são um pedaço de nós e nós somos uma parte de vocês”.

Por isso, para conseguir o entendimento e a convivência pacífica com as duas grandes ramas do Islã, Francisco promove a fraternidade, como pedra angular e argamassa que une as três grandes religiões surgidas do tronco de Ur, através de Abraão, o pai de todos os crentes.

Fraternidade para condenar o fundamentalismo de todas as religiões, o terrorismo e instrumentalização da violência. O Deus de Abraão não permite matar os irmãos. O ódio, a violência e a morte de irmãos é um crime de lesa religião, de todas as religiões abraâmicas.

E o Papa quis deixar bem claro, com três frases sonoras, gravar na pedra, em cada torre sineira e em cada minarete do mundo:

“Se Deus é o Deus da vida – e ele é – não nos é lícito matar os nossos irmãos em seu nome (...). Se Deus é o Deus da paz – e ele é – não nos é lícito fazer a guerra em seu nome. Se Deus é o Deus de amor – e ele é – não nos é lícito odiarmos nossos irmãos”.

Uma vez aprovados os objetivos geoestratégicos e inter-religiosos, o Papa quis também consolar e acariciar com sua presença e com sua palavra o pequeno rebanho cristão iraquiano, que tem suas raízes evangélicas na primeira pregação do apóstolo Tomé.

E, no meio de um mar muçulmano, os cristãos, que mal representam 10% da população do país, se sentiram acompanhados, consolados, curados, ouvidos e lançados ao futuro pelo Papa dos ‘nazarenos’ (como os cristãos eram chamados pelo Daesh).

Francisco chorou com eles, ouviu os seus dramas, abençoou os seus mortos, viu as suas ruínas, mas lançou três desafios para o futuro. O primeiro, não para de sonhar, segue em frente, segue com a reconstrução e volta ao país onde nasceram.

O segundo desafio é não esquecer suas raízes, a herança de fé recebida de seus pais e de suas famílias por tantas gerações. E o terceiro, contribuir para a construção da paz e da reconciliação por meio do perdão. Ainda que custe, ainda que doa e ainda que as feridas sigam tão vivas e tão recentes.

Porque os crentes não têm inimigos, apenas irmãos. E Abraão, do céu, sentiu-se orgulhoso, mais uma vez, de seus filhos e do novo Abraão, o Papa Francisco, que encerrou sua viagem consolando o pai de Aylan, o menino que morreu em uma praia turca que despertou a consciência da Europa diante do drama dos refugiados. O toque final para uma viagem reconfortante.

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