Gaël Giraud, o economista “Laudato si'”

Foto: Matthew Smith | Flickr CC

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03 Março 2021

O grito da terra e o grito dos pobres unem-se e desafiam-nos. É o que destaca a encíclica Laudato si’ do Papa Francisco, publicada em 2015. Uma denúncia que Gaël Giraud já tinha percebido com força no Chad há 20 anos. Jesuíta e economista, Giraud há anos reflete sobre as ligações entre economia, finanças e ecologia para construir um modelo econômico que respeite a pessoa e preserve o meio ambiente das consequências do aquecimento climático.

A reportagem é de Xavier Sartre, publicada por Vatican News, 02-03- 2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Sarh é a terceira maior cidade do Chade, no sul do país, às margens do rio Chari. É a esta localidade, que hoje tem cem mil habitantes, que Gaël Giraud chegou há 25 anos para realizar os dois anos de serviço civil. Ele lecionou matemática e física no colégio jesuíta de Saint Charles Lwanga. Para esse jovem com uma brilhante carreira universitária, que se tornaria pesquisador no CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique), o templo da pesquisa científica francesa, a experiência foi um choque e uma revelação.

“Lá vi materialmente, já na época, tanto a falta de água em uma área que ainda era savana quanto o avanço muito rápido da desertificação”, explica o economista jesuíta. “Isso fez com que eu - um parisiense vindo da elite universitária francesa - percebesse, em primeira mão, que a questão da desertificação, do aquecimento climático, da escassez de água, da erosão do solo, da biodiversidade era algo extremamente tangível”.

Os meninos de rua ou o grito dos pobres

A estada de dois anos em uma cidade onde não havia nem eletricidade colocou Giraud diante de outra realidade, desta vez humana: os meninos de rua. Ele passou o primeiro ano como voluntário no colégio jesuíta de Sarh, mas depois decidiu passar o segundo entre o pessoal do lugar, nas condições materiais dos pobres.

Todas as manhãs ele ia ao poço buscar água, preparava o chá no kanoune, o braseiro. Dia após dia ficava ao lado dos meninos que vivem na rua, daqueles que já não têm mais família ou que são obrigados a deixá-la para não pesar - muitas vezes – nas costas da mãe.

Gaël Giraud depois se estabeleceu nas ruínas do cinema Rex, para ficar perto deles. Assim nasceu o centro de Balimba, que hoje fica a poucos quilômetros da cidade. Não mais que 40 crianças são acolhidas nele, que têm ali um teto, comida e instrução. Os mais violentos entre eles não frequentam a escola, mas recebem uma educação no local, graças aos professores que trabalham especificamente no local.

A tomada de consciência de que tudo está conectado

Essa experiência “me permitiu ver com meus próprios olhos o que significa para os despossuídos serem vítimas do aquecimento climático”, explica. “Basicamente, quando na encíclica Laudato si' o Papa diz que o grito da terra e o grito dos pobres são um só e único grito, encontro nisso a experiência que os meninos de rua do Chad me fizeram viver vinte anos atrás”, relata o sacerdote.

De volta à França, Gaël Giraud estudou para se tornar jesuíta e seguiu a formação teológica, mesmo continuando o trabalho como economista. “Aos poucos, a experiência que tive no Chad e o que aprendi na área econômica me fizeram perceber como meu trabalho fosse entender, como economista, o extraordinário impacto das mudanças climáticas nas populações”.

A fé questionada e confirmada

A reflexão pessoal e as obras do Padre Gaël Giraud foram influenciadas pela fé. “A experiência da fé cristã alimenta em mim a 'esperança contra toda esperança', o que permite que não tenha - ou não tenha imediatamente - o reflexo de esconder-me na negação" da situação ambiental e da catástrofe em curso. Ao mesmo tempo, sua fé cresceu.

“Hoje percebo com muito mais força a fragilidade da criação, bem como o fato de a criação ser colocada nas nossas mãos e de termos a responsabilidade como guardiães - explica o jesuíta; e é isso que o Papa Francisco escreve na Laudato si'. Não somos donos da criação: o único dono da criação é Deus”.

Mas ele mesmo "não quer ser o dono do mundo, mas seu servo". E é esse o caminho que devemos seguir, afirma o economista.

Laudato si', um evento

Gaël Giraud, portanto, acolheu a encíclica Laudato si' com "extraordinária surpresa". O texto, segundo o economista, é “o evento eclesial mais importante depois do Vaticano II”. Muito cedo todos perceberam que “foi a primeira vez que uma instituição internacional, neste caso específico a Igreja Católica, se posicionou de forma tão clara, preparada e correta e a nível mundial sobre a questão fundamental da crise ecológica, que é aquela da nossa geração".

E Gaël Giraud está convencido disso: “Nós, cristãos, temos um papel, uma responsabilidade na resolução desta crise gravíssima”. Para o padre jesuíta, uma das causas antropológicas da situação atual é a concepção, surgida nos séculos XVI e XVII na Europa, do homem como dono e proprietário da natureza. A antropologia cristã difere dessa concepção. Devemos entender o significado de "dominar a Terra" conforme expresso no Livro do Gênesis com o significado de "servir ao crescimento da criação".

Cabe, portanto, aos cristãos, fortalecidos por esta tradição bíblica e espiritual encarnada em particular por São Francisco de Assis, "inventar juntos as soluções para a crise ecológica". É o que Gaël se compromete a fazer na nova missão que lhe foi confiada pela Companhia de Jesus: criar e desenvolver um centro para a justiça ambiental na Universidade de Georgetown em Washington, Estados Unidos.

 

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