“A pandemia revelou nossa vulnerabilidade”. Entrevista com Gaël Giraud

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25 Mai 2020

Jesuíta, ex-economista-chefe da Agência Francesa de Desenvolvimento, diretor de pesquisa do CNRS e presidente de honra do Instituto Rousseau, Gaël Giraud é uma voz singular no mundo econômico. Autor de Ilusão Financeira (Loyola, 2015) e colaborador de documentos que serviram de base para a encíclica Laudato Si’, aguça ano após ano sua crítica do sistema.

A entrevista é de Olivier Nouaillas, publicada por La Vie, 21-05-2020. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Um novo conceito proposto por várias organizações internacionais e ONGs visa promover a “One Health”, ou seja, a ligação entre saúde humana, saúde animal e saúde dos ecossistemas. Você vê nisso um eco da encíclica Laudato Si’?

Com certeza. Temos que entender que a humanidade, desde sempre, está inserida na Criação, em uma espécie de vasto diálogo que fala línguas bizarras. Foi o que aconteceu com a pandemia: a destruição dos ecossistemas naturais que nós, seres humanos, provocamos, especialmente através do desmatamento, colocou em contato, seja diretamente seres humanos, seja animais que nos são próximos, com animais da floresta profunda – em especial, no caso dos coronavírus, dos morcegos.

Pensávamos que estávamos em um mundo surdo, em uma antropologia do século XVI, baseada na onipotência de um ser humano isolado em uma grande solidão metafísica. Esta não é a visão da Laudato Si’, que, pelo contrário, desenvolve uma antropologia relacional dos homens entre si e destes com a Criação. E é tudo isso que salta à vista hoje.

Qual é a principal lição que tira dessa pandemia?

Uma vulnerabilidade em dois níveis. Primeiro, do ponto de vista da saúde, e depois com a interrupção das cadeias de suprimento internacional, que correm o risco de provocar fome, principalmente na África e na Índia. É a consequência de uma globalização mercantil que organizamos há 40 anos em torno de cadeias de valor de fluxo just-in-time e com vistas a maximizar retornos de curto prazo. E que é completamente não resiliente diante de choques como este que estamos enfrentando.

Muitas vozes querem que a saúde se torne um bem comum. Você acredita que possa haver um verdadeiro ponto de inflexão nos valores que guiaram nossas sociedades até agora?

Nós não vamos superar essa pandemia sem uma autêntica cooperação. Por exemplo, só nos livramos da varíola na década de 1970 com uma campanha de vacinação global e eficaz. Esta urgência está explodindo na nossa cara justamente quando o multilateralismo da ONU está entrando em colapso.

A saúde é de fato um comum global e, para isso, é necessário inventar novas estruturas globais. Algo similar ao modelo do Drugs for Neglected Disease (Medicamentos para Doenças Negligenciadas), um consórcio sem fins lucrativos criado em Genebra em 2003, que reúne Estados, mas também o setor farmacêutico privado, a sociedade civil e ONGs.

Para avançar nessa direção, não deveríamos começar por substituir o famoso PIB, que mede apenas o crescimento?

Sim: ao mesmo tempo em que devemos abandonar o livre comércio destrutivo voltando ao protecionismo inteligente, precisamos, no mínimo, de um indicador que leve em consideração todos os aspectos do desenvolvimento humano. Com cinco pilares: a renda per capita (legado do PIB), a educação, a expectativa de vida saudável, mas também a redução das desigualdades e a pressão antrópica sobre os ecossistemas através do cálculo de nossa pegada ecológica.

É por isso que não sou adepto nem de um “colapsismo” nem de um “derrocadismo”, porque estou impressionado com a inventividade de todos aqueles que refletem sobre um “mundo pós” que, acima de tudo, não deve ressuscitar o mundo de ontem.

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