Honduras. Furacão devastador deve estimular migração

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10 Dezembro 2020

A insegurança alimentar explodiu no país. As chuvas incessantes dos furacões Eta e Iota encharcaram e enfraqueceram os tijolos da casa onde José Reyes mora com sua esposa, cinco dos seus oito filhos e um neto, em uma vila remota no Sul de Honduras. “Minha casa é feita de barro e as paredes racharam”, falou o agricultor ao EarthBeat. “A casa foi danificada pela água – mas muita água, muita água. Eu não tinha como protegê-la”.

A reportagem é de Lizz Mejía Raudales, publicada por EarthBeat, caderno do Natonal Catholic Reporter, 08-12-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Ele espera consertar a casa, mas não sabe quando isso será possível. Choveu em meio a dois furacões em um período menor que três semanas, e uma série de frentes frias e chuvosas são esperadas até o final de fevereiro, o solo está encharcado para fazer tijolos e ele precisa reconstruir as paredes destruídas pela tempestade.

As safras de milho, feijão e café de Reyes também foram danificadas pelas duas tempestades tropicais, que varreram Honduras entre 31 de outubro e 18 de novembro. As enchentes de um riacho perto da casa de Reyes varreram árvores adequadas para madeira e parte de seu campo de café, que ficava na encosta de uma colina. Sua safra de milho foi arruinada antes que ele pudesse colher.

“Não há como consertar isso. A ajuda não chegou; parece que está apenas no papel”, disse ele, acrescentando que sua vila, El Trapiche, precisa de ajuda para tornar as estradas transitáveis novamente.

De acordo com os movimentos sociais e empresariais, pelo menos 100 pessoas morreram, os danos chegam a 10 bilhões de dólares e cerca de 1 milhão de hondurenhos perderam seus empregos ou sua fonte de renda na economia informal. Especialistas dizem que os danos, que ocorrem em meio à crise econômica e de saúde causada pela pandemia do coronavírus, podem atrasar o país em mais de 20 anos.

As áreas mais atingidas pelas tempestades são Valle de Sula, que é o motor econômico de Honduras, e o departamento de Gracias a Dios, a área mais remota do país, onde plantações e casas foram destruídas e pessoas e animais morreram. Honduras não havia sido tão devastada por tempestades desde o furacão Mitch em 1998.

As autoridades governamentais não concluíram uma avaliação dos danos, mas até agora, os grandes, médios e pequenos agricultores nas regiões norte e oeste do país perderam quase 80 mil acres de banana, café, feijão, arroz e milho. As inundações também ameaçam mais de 400 mil acres de plantações de cana-de-açúcar e dendezeiros.

 

Secas e tempestades desastrosas para os agricultores

Honduras sempre foi um dos países mais vulneráveis e mais expostos aos efeitos da catástrofe climática, por causa de sua localização geográfica e estrutura produtiva”, disse Conor Walsh, representante nacional da Catholic Relief Services em Honduras, ao EarthBeat. “Não é preciso muito mais estudo para traçar uma linha direta entre o que as pessoas estão vivenciando e os efeitos da catástrofe climática”.

Antes de Eta e Iota, os meteorologistas esperavam que a estação chuvosa deste ano traria precipitação suficiente para produzir uma colheita melhor do que nos últimos anos, mas as chuvas anormais têm sido desastrosas para a agricultura na América Central, resultando em uma perspectiva sombria para toda a região, afirmou.

Em uma área de altas temperaturas e pouca chuva, conhecida como corredor seco, que se estende pela Guatemala, Honduras e El Salvador, uma seca de vários anos reduziu a renda e o suprimento de alimentos de pelo menos 3,5 milhões de pessoas, segundo a FAO. O corredor seco de Honduras inclui 132 dos 298 municípios do país, principalmente nas regiões sul, oeste e centro do país.

Nessa área, que tem menos acesso à água de irrigação para as lavouras, os agricultores perderam entre 50% e 90% dos campos onde produziam abacaxi, milho, feijão, café e outras safras de exportação. O problema do feijão, um alimento básico, era o mofo causado pela umidade extrema, que destruía a colheita de agricultores como Reyes.

A tempestade mais recente deixou muitas pessoas sem casa, renda, terras agrícolas capazes de produzir safras ou um lugar seguro para onde voltar, disse Walsh. Muitas pessoas já se refugiaram nas cidades, e os furacões provavelmente resultarão em um grande fluxo de migrantes em busca de melhores condições de vida em outros países, incluindo os Estados Unidos.

Por se tratar do primeiro desastre desse tipo no país desde 1998, o governo hondurenho solicitou proteção temporária para quem busca migrar para os Estados Unidos, em um esforço para começar do zero e melhorar sua vida e a de seus familiares.

É compreensível que a migração seja a opção mais atraente para aqueles que foram mais atingidos pelas tempestades, disse Walsh, porque até agora o governo não anunciou nenhum plano para reconstruir o que as chuvas varreram.

As tempestades agravaram o já precário estado da segurança alimentar no país, acrescentou. “Parece horrível, mas este foi o último prego no caixão”.

Em outubro, estimava-se que entre 550 mil e 990 mil pessoas em Honduras não teriam acesso a alimentos em 2021, de acordo com a Famine Early Warning Systems Network. Esse número deve aumentar, disse Walsh, porque três anos de seca e duas devastadoras tempestades tropicais afetaram a economia da América Central, que depende fortemente da exportação de alimentos básicos, açúcar e frutas.

 

Efeitos visíveis da catástrofe climática

Tanto a seca prolongada quanto os atípicos furacões estão entre os efeitos da catástrofe climática, afirmou Walsh.

O tempo quente e seco durante o ano aumentou o número e a extensão de florestas incendidas entre março e maio, fazendo da temporada de fogo “uma das piores da última década. Sem dúvidas, isso contribuiu para a vulnerabilidade do solo, deixando-o árido e sem cobertura vegetal que permitiria a água da chuva se infiltrar”, disse.

“A mudança do clima significa que a chuva, quando vem, é mais intensa e vem na forma de tempestades”, acrescentou. “Isso é o que especialistas e cientistas previam, e agora nós estamos vivendo”.

O desmatamento também piorou o desastre contribuindo para os deslizamentos de terra em várias partes do país.

Até certo ponto, chuvas e inundações podem ser benéficas para o ecossistema em Honduras, porque carregam sedimentos e nutrientes das montanhas para os vales agrícolas, afirmou o biólogo Walther Monge ao EarthBeat. Chuvas e inundações pesadas, por outro lado, lavam o solo e os nutrientes, tirando o necessário para as bananas, milhos, café e feijões que são as colheitas básicas no país.

As autoridades registraram 77 mortes do Furacão Eta e 22 do Iota, embora especialistas digam que os números podem aumentar, porque foi impossível chegar à maioria das áreas remotas do país. A inundações permanecem altas, e há registro diário de corpos sendo encontrados em rios e correntezas.

A tempestade danificou a infraestrutura de pelo menos 1 milhão de pessoas em 16 dos 18 departamentos do país, cortando o transporte de aproximadamente 250 mil pessoas em vilas e cidades no norte e oeste de Honduras. Em 30 de novembro, a Comissão Permanente de Contingências, a agência governamental de desastres, contabilizou 27 pontes destruídas e 25 danificadas, assim como 748 trechos de estradas afetadas e um aeroporto fechado por causa da chuva.

Uma construção sofreu danos graves na parte central do país, foi a capela do Cemitério Geral em Tegucigalpa. A capela, construída em 1954, foi deteriorando com o tempo, mas as chuvas fortes e os dois furacões encharcaram as paredes do prédio e o telhado, causando o colapso de uma das paredes. Trabalhadores estão tentando manter a capela em pé.


Pintura interna da capela do Cemitério Geral em Tegucigalpa foi destruída. (Foto: Fernanda Aguilar | NCR)

 

Desastre pior que a crise de saúde

Autoridades do governo e outros especialistas temem que as tempestades agravem a crise de saúde causada pela pandemia do coronavírus.

O sistema de saúde de Honduras, que já era fraco, entrou em colapso sob a pressão da covid-19. Não há leitos hospitalares, unidades de terapia intensiva ou ventiladores suficientes; o equipamento de proteção para profissionais de saúde é escasso; e o país carece de fundos para testes adequados. Médicos e enfermeiras em hospitais públicos e clínicas privadas adoeceram com a covid-19 e alguns morreram.

Até 6 de dezembro, a Secretaria de Saúde do Governo havia registrado mais de 111 mil casos de covid-19 e 2.946 mortes.

Médicos e cientistas em Honduras temem que as enchentes e a lama, bem como as condições em abrigos superlotados e condições insalubres de comida e água, possam levar a um aumento nos casos de infecção pelo coronavírus, bem como a doenças transmitidas por mosquitos e mais doenças respiratórias e gastrointestinais.

Esses casos podem ser ainda mais complicados por doenças preexistentes, como hipertensão e diabetes. Os especialistas também se preocupam com problemas de saúde mental, como depressão e ansiedade. Com os centros de saúde sobrecarregados desde março, há pouca capacidade para atender mais pacientes, dizem eles.

Hugo Fiallos, especialista em terapia intensiva do Instituto de Previdência Social de Honduras, disse que os tomadores de decisão ignoraram o conselho de especialistas em gestão de risco, saúde e economia.

“Quando avisamos que algo assim poderia acontecer, eles não prestaram atenção em nós e agora estamos pagando o preço”, disse ele, referindo-se aos protestos de 2018 para exigir melhorias na rede de saúde de Honduras.

Estima-se que 19 mil famílias – mais de 95.700 pessoas – se refugiaram em mais de mil abrigos no país. A mídia tem divulgado poucos relatos sobre as condições de saúde nos abrigos, mas as pessoas em vários abrigos no distrito central do país disseram não ter feito o teste da covid-19 ou recebido medicamentos básicos, como analgésicos.


A jovem Jessy Nohemí Rosa Durón, de 24 anos, com seus filhos em um abrigo para deslocados pelos furacões, em Comayagüela. Sua filha mais nova precisa usar uma bota ortopédica, que custa 300 dólares, mas a mãe tem apenas 100. (Foto: Fernanda Aguilar | NCR)

Após relatos de esforços para despejar famílias de abrigos nas cidades de San Pedro Sula e Tegucigalpa, a capital, o cardeal Óscar Andrés Rodríguez Maradiaga pediu aos hondurenhos, especialmente funcionários do governo, para atender às necessidades dos deslocados pelas tempestades.

“Ontem nós ouvimos como algumas pessoas que estão em abrigos foram avisadas para irem embora”, disse ele em sua homilia em 15 de novembro. “Por quê? Eles não têm uma casa ou para onde ir. Eles vão conseguir uma nova casa por magia?”.

O cardeal exortou seus ouvintes a aprender uma lição com o desastre.

“Não vamos desperdiçar o dom da nossa vida”, disse ele, “e não vamos viver uma vida superficial, inconsciente, em busca de prazer, poder e dinheiro”.

Os pobres e os que sofrem não podem esperar, disse ele, exortando os fiéis a não serem infectados pelo “vírus da indiferença”.

 

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