Poderiam Francisco e Biden encontrar um ao outro como João Paulo II e Reagan?

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09 Novembro 2020

“Pelos próximos anos, é possível que Biden e Francisco dediquem suas energias conjuntas para defenderem sua alternativa ao populismo nacionalista – e, se tiverem sucesso, o mundo poderá parecer muito diferente quando terminarem seus mandatos”, escreve John L. Allen Jr., em artigo publicado por Crux, 08-11-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis o artigo. 

Quando a poeira da tumultuada eleição presidencial de 2020 começar a baixar, é possível que, fora da equipe de campanha de Joe Biden, nenhum grupo surja como maior fã da eleição por correio do que o papa Francisco e seus aliados no Vaticano.

Não somente porque Biden será o segundo presidente católico dos EUA, mas basicamente porque é um católico ao estilo do Papa – centro-esquerda, amplamente humanista e globalista, não é parte daquilo que os mais próximos conselheiros papais chamam de “ecumenismo do ódio”, entre católicos conservadores e evangélicos nos EUA.

Embora as bocas de urna ainda não sejam definitivas, é possível que Biden tenha sido impulsionado para a Casa Branca com a mudança crucial do voto dos católicos no campo de batalha do Cinturão da Ferrugem: Pensilvânia, Michigan e Wisconsin. Se sim, o presidente eleito deverá carregar um senso de gratidão na relação do seu governo com a Igreja.

Se Donald Trump tivesse sido reeleito, como provavelmente parecia na terça-feira, quando a contagem dos votos começou, o palco estaria armado para mais quatro anos de conflito profundo entre os maiores hard e soft power do mundo. Em vez disso, Francisco agora tem alguém na Casa Branca que compartilha do temor que o Papa chamou de “nacionalismo míope, extremista, ressentido e agressivo” em sua recente encíclica Fratelli Tutti.

À medida que a nova administração Biden olha para o outro lado do Atlântico, eles têm todos os motivos para ver Francisco como um amigo. Embora o pontífice certamente não tenha emitido um endosso direto, ele encontrou outras maneiras de deixar suas preferências claras; em uma entrevista recente, por exemplo, ele fez de tudo para elogiar um livro de 2019 de um jornalista comunista italiano comparando Trump à ascensão de Hitler ao poder em 1933.

Aumentando as chances de bonomia, a natureza incrivelmente limitada da vitória de Biden significa que ele precisará de amigos onde quer que os encontre, e no triunvirato de cardeais de centro-esquerda que Francisco criou nos EUA – Blase Cupich em Chicago, Joseph Tobin em Newark e Wilton Gregory em Washington – Biden pode descobrir que todos os homens do Papa tendem a ser amigáveis.

Certamente, nem tudo pode ser doce e leve à medida que o novo governo Biden toma forma. Haverá pressão da base democrata, por exemplo, para fortalecer os direitos ao aborto após a nomeação bem-sucedida de Amy Coney Barrett por Trump à Suprema Corte, de última hora, potencialmente desencadeando tensões sobre “temas de vida”.

Dado que Biden em campanha parecia quase tanto um falcão na China quanto Trump, o controverso acordo de Francisco com Pequim sobre a nomeação de bispos pode continuar a causar divisão. Também é importante notar que a maioria das guerras dos EUA foram travadas sob presidentes democratas, o que significa que Francisco, como um “Papa da paz”, também pode tentar pressionar Biden a recuar em alguma situação de conflito futuro hipotético.

E ainda.

Quarenta anos atrás, um Papa e um presidente tornaram-se almas gêmeas e a história mudou como resultado. João Paulo II e o presidente Ronald Reagan compartilhavam a convicção de que o comunismo soviético era uma abominação política e moral e, juntos, ajudaram a colocar em movimento a cadeia de eventos que levou ao colapso do Muro de Berlim.

Foi uma ilustração deslumbrante das possibilidades quando os hard e soft power estão juntos em uma posição completa, vertical e travada.

João Paulo II e Reagan, falando de maneira geral, eram ambos “conservadores”. Agora, outro Papa e outro presidente, ambos amplamente considerados “progressistas”, compartilharão o palco global e é possível que eles também possam estabelecer uma parceria. Afinal, Francisco tem 83 e Biden 77, então os dois devem estar cientes de que estão entrando no ato final de seus dramas pessoais.

Além disso, segundo todos os relatos, Biden é pessoalmente um católico sincero e provavelmente adoraria a chance de ser visto ombro a ombro com um Papa. Ele também não é estranho ao Vaticano, tendo visitado o papa Bento XVI em 2011, tendo liderado a delegação dos Estados Unidos para a posse do papa Francisco em 2013 e sido palestrante de uma conferência do Vaticano em 2016, na qual fez um apelo emocionado pela cura do câncer, um ano após a morte de seu filho Beau.

Qual seria o “Império do Mal” que esta nova forma de aliança João Paulo II-Reagan combateria?

A primeira coisa, o mundo mais uma vez enfrenta uma ameaça existencial com a pandemia do coronavírus e seu impacto destrutivo não é apenas na economia e na saúde pública, mas tem um alcance muito mais amplo de assuntos que incluem as relações Igreja e Estado. O Papa e o presidente forjariam uma parceria na administração da crise.

Mais profundamente, há uma batalha pela geopolítica hoje, onde Francisco e Biden representam uma visão de mundo e Donald Trump outra.

De um lado está um globalista, multilateral, humanista progressista, como esboça Fratelli Tutti, com a premissa da opção preferencial pelos pobres e relativizando as fronteiras nacionais em favor de uma solidariedade global. Isso favorece o diálogo sobre o confronto, e valoriza a ciência, a técnica e a expertise institucional para enfrentar desafios.

Do outro lado está um populista nacionalista, vendo o mundo menos como uma família e mais como uma arena na qual os poderes políticos e econômicos batalham para colocar seus interesses como os principais interesses do país. Com a premissa de proteger a nação contra as ameaças tanto de dentro quanto de fora. Também se premissa sobre a prosperidade nacional acima da solidariedade global, e no mais profundo ceticismo e ressentimento das elites e do establishment.

Pelos próximos anos, é possível que Biden e Francisco dediquem suas energias conjuntas para defenderem sua alternativa – e, se tiverem sucesso, o mundo poderá parecer muito diferente quando terminarem seus mandatos.

Não importa o que aconteça, a mera possibilidade de tal realinhamento investe os próximos quatro anos com um grau usual de interesse católico.

 

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