Uma homilia em torno do perdão

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15 Setembro 2020

"Já ouvi mais homilias sobre a misericórdia do que posso me lembrar, especialmente porque cobri o Jubileu da Misericórdia do Papa Francisco aqui em Roma. No entanto, não sei se já ouvi um padre desafiar o meu entendimento daquilo que o cristianismo pede de mim sob uma forma tão eficiente quanto fez Gallucci", escreve John L. Allen Jr., jornalista, em artigo publicado por Crux, 14-09-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo. 

Observemos os católicos na maior parte das paróquias no momento da homilia da missa dominical e perceberemos uma linguagem corporal e expressões faciais semelhantes àquelas das salas de espera de consultórios médicos. Há um senso de antecipação, certamente, mas não do tipo bom.

Na verdade, os católicos adoram reclamar de homilias enfadonhas, tanto que um livro, lançado em 2019 e intitulado The Crisis of Bad Preaching (A crise da má pregação, em tradução livre), considerou aquela “pregação vazia, oca” como talvez a queixa “mais comum dos católicos ao redor do mundo”.

Então, é justo que quando ouvimos uma boa homilia – uma que de fato “rompe a Palavra” – nós como tal a reconheçamos. Nesse sentido, temos um exemplo com o Pe. Nicola Gallucci, pastor da Igreja de Santa Maria Regina Apostolorum, aqui de Roma.

Gallucci é membro da Sociedade do Apostolado Católico, cujos padres e irmãos são conhecidos como “palotinos” em homenagem a São Vicente Pallotti, quem fundou a ordem em meados do século XIX num esforço de responder à miséria que via em Roma durante o período final do regime dos Estados papais.

Os palotinos são conhecidos pela proximidade que mantêm com aqueles a quem servem, e Gallucci certamente demonstrou isso no domingo.

A leitura do Evangelho do Dia girava em torno da misericórdia e contém a famosa expressão de Jesus de que os seus seguidores devem perdoar não sete vezes, mas “setenta vezes sete”, o que, na prática, significa “sempre”.

Como observou Gallucci, a maioria das pessoas já ouviu essa frase repetidas vezes, a ponto de ela simplesmente entrar num ouvido e sair pelo outro. O que se perdeu, disse o padre, é a atenção aos evangelhos, aquela sensação do quão exigente e radical é o conceito cristão de perdão.

Percebendo que somente refletir não bastaria, o padre anunciou que nos brindaria com uns casos concretos.

“Talvez vocês não gostem do que tenho a dizer”, falou ele em meio a sorrisos, “mas não tem problema. Vocês podem pensar sobre o que vou falar e, depois, vão e conversem com Deus”.

Ele começou com uma tragédia recente relacionada a Willy Monteiro Duarte, (1) jovem negro de 21 anos, filho de imigrantes vindos de Cabo Verde, espancado até a morte por quatro homens no município de Colleferro, sul de Roma, em 6 de setembro.

Gallucci descreveu o quão horrorizado ficaram os romanos com o incidente, o quão terrível classificaram o comportamento destes homens, fisiculturistas e entusiastas das artes marciais conhecidos na vizinhança por serem violentos e que, pelo que consta, atacaram Duarte como uma espécie de atividade recreativa doentia – possivelmente porque acharam que poderiam se safar visto que o jovem era um migrante, normalmente pessoas invisibilizadas na sociedade italiana.

Em seguida, Gallucci esclareceu o que queria dizer.

“Todos lamentamos a morte de Willy e estamos rezando por ele”, disse. “Achamos nojento o que esses quatro homens fizeram, e muitos de nós provavelmente estaríamos preparados para dizer que eles merecem a pena de morte”.

“Mas quantos de nós os perdoariam?”, perguntou. “Se houvesse uma transformação no coração desses quatro homens e se eles se arrependessem, estaríamos prontos a perdoá-los?”

Eis, disse Gallucci, o mandamento do Evangelho: perdoar não só os que merecerem, mas aqueles que absolutamente não o merecem, no espírito de um Deus que “nunca, jamais fecha as portas ao pecador”.

Quinta-feira passada marcou o aniversário da ocupação alemã em Roma, no ano de 1943, o que levou Gallucci ao seu segundo caso: Erich Priebke, ex-oficial da SS e agente da Gestapo que participou no massacre, em 1944, das Fossas Ardeatinas, a pior atrocidade civil da Segunda Guerra Mundial.

Entre as 335 vítimas havia 75 judeus, além de outros romanos de todas as camadas sociais, incluindo um sacerdote, o Pe. Pietro Pappagallo, destacado antifascista. O assassinato delas veio em represália a um ataque dos partigiani italianos contra tropas da SS que matou 33, em sintonia com a diretriz de Hitler nos territórios ocupados segundo a qual dez pessoas locais deviam ser mortas para cada alemão morto pelas forças de resistência.

Depois da guerra, Priebke fugiu para a Argentina usando a infame “linha de rato” do bispo austríaco Alois Hudal, vivendo no país por mais cinco décadas. Em meados de 1990, foi finalmente identificado e extraditado para a Itália. Depois de um longo processo na justiça, foi condenado a prisão perpétua. Em menos de dez anos ele teve a permissão para cumprir a sentença em regime domiciliar, vindo a morrer em 2013.

Hoje, há um punhado apenas de romanos ainda vivos e que viveram aqueles dias de ocupação, porém as memórias da brutalidade e dureza e, principalmente, tudo o que aconteceu nas Fossas Ardeatinas são transmitidas, nas famílias romanas, de geração a geração.

Sabendo disso, Gallucci perguntou em tom de provocação: “Quem aqui não quer a pena de morte para Priebke?” Por instantes, o padre pausou à espera de alguém mostrar discordância, tendo a convicção de que alguns na Igreja podem muito bem ter perdido familiares no massacre.

Em seguida, perguntou se poderíamos perdoar Priebke.

Voltando à mensagem do dia, quando o momento de rezar o Pai Nosso se aproximava, Gallucci instruiu-nos a não pronunciarmos a frase “perdoa as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”. Em seu lugar, pediu que inseríssemos o nome daquele a quem temos dificuldade de perdoar – “normalmente é alguém óbvio”, disse.

Ao recitarmos essa parte da oração, um murmúrio silencioso de nomes diferentes se lançou no ar.

Ao final da missa, Gallucci disse para que fôssemos para casa e rezássemos pelo dom da misericórdia e do perdão – “não como o mundo o vê”, disse ele, “mas aquele conceito cristão radical de perdão”.

Já ouvi mais homilias sobre a misericórdia do que posso me lembrar, especialmente porque cobri o Jubileu da Misericórdia do Papa Francisco aqui em Roma. No entanto, não sei se já ouvi um padre desafiar o meu entendimento daquilo que o cristianismo pede de mim sob uma forma tão eficiente quanto fez Gallucci.

É uma lembrança de que “má/ruim” não é a única marca da pregação católica, e que talvez devamos... bem, talvez devamos perdoar um pouco mais prontamente os insucessos que ouvimos.

 

Nota do Instituto Humanitas Unisinos - IHU:

O jovem Willy, 21, cujos pais são migrantes de Cabo Verde, radicados na Itália, foi barbaramente assassinado na periferia de Roma quando defendia seu amigo do ataque de dois irmãos gêmeos, praticantes de artes marciais. Sobre o tema leia mais:

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