22º Domingo do tempo Comum - Ano A - Tome sua cruz e siga-me

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Por: MpvM | 28 Agosto 2020

"Importa ir descobrindo no seguimento de Jesus que há uma luz que a cruz oculta, ir verificando que a vivência de atitudes e opções em favor da vida conduzirá ao confronto conflitivo com todo poder que se instaura na história contrário ao Evangelho. Seja porque o ‘eu’ idolátrico ocupa o lugar de comando, ou porque existe alguma resistência ao estado permanente de aprendizado como discípulo de Jesus.

"Carregar a cruz é viver as consequências de uma vida coerente com o projeto do Pai, manifestado em seu Filho. Segui-lo não é tanto fazer o que Jesus fazia no seu tempo, mas o que Ele faria se estivesse em nosso tempo."

A reflexão é de Bárbara Pataro Bucker, religiosa da Congregação das Irmãs Mercedárias da Caridade – MC. Ela é doutora em Teologia Sistemática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1992) e mestra no Institutum Theologiae Vitae Religiosae Claretianum pela Pontificia Universitas Lateranensis (1980). É professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Leituras do dia
Primeira Leitura: Jr 20,7-9
Salmo: Sl 62,2-6.8-9
Segunda Leitura: Rm 12,1-2
Evangelho: Mt 16,21-27

 

 

A Liturgia deste 22º domingo do tempo comum encerrando por assim dizer o mês de agosto de 2020, revela o que há de mais íntimo no coração do Mestre de Nazaré para seus amigos, que corresponde a incorporação livre do significado de sua missão identificada com o Servo de Javé, descrita pelo profeta Isaías nos Cantos do Servo Sofredor (Is 42; 49; 50; 52 até 53,13).

O texto deste domingo é uma continuação do Evangelho do domingo anterior em que Pedro foi brilhante para usar os termos corretos na descrição de quem era Jesus, neste que foi o primeiro exame de Cristologia da história da humanidade, e que se saiu muito bem: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16).

Agora, ele afronta com perplexidade uma revelação de Jesus, diante da qual busca dissuadi-lo de seu caminho, ganhando uma repreensão dura: “Fique longe de mim, Satanás! Não pensa as coisas de Deus, mas as dos homens” (Mc 8,33). Jesus deixa claro de que modo exercerá seu ministério messiânico. Ser o Cristo não significava triunfo segundo o modelo deste mundo, mas ao contrário: “O filho humano deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto, e ressuscitar ao terceiro dia”.

O contraste desta revelação é que na consciência coletiva do povo se esperava a intervenção gloriosa e triunfante daquele que enviado do Céu, viria para libertar o povo oprimido e submetido às forças de domínio reinantes na época, derrotando e assim vingando o direito de vida e de dignidade do povo escolhido por Deus.

Aqui, é importante observar por um lado, o quanto muitas vezes pode se sair muito bem nas respostas dadas às perguntas que a realidade da fé supõe, somado aos processos de conhecimento aprofundado do significado das afirmações aprendidas e tantas vezes repetidas como convicções de fé, e ao mesmo tempo não chegar a compreender o que concretamente implica seus conteúdos, que requer um longo processo de atenção, reflexão e adesão.

Por outro lado, importa também considerar que não é simples a confrontação real com o modo de se viver, que estejam em contextos de situações dolorosas de extrema dureza para abraçar a fé na sua versão de cruz no seguimento de Jesus. Surgem interrogações sobre o modo como na condição de vivos, ‘abraçar’ as pandemias, o abuso de crianças, o desvio de verbas conseguidas em nome de valores religiosos por seus representantes, quando deveriam ser direcionadas para os fins propostos, e assim minimizar o sofrimento dos irmãos neste mundo, etc.

Para muitas de nós parece sobrar tanta dor que também queremos dizer para Jesus: “Filho de Deus não permita tal coisa! Que isso nunca aconteça!” Sobram-nos hoje razões para gritar o insuportável das cruzes de nosso tempo! Esta é a sociedade e cultura da que como discípulas missionárias somos chamadas a servir no ministério teológico e existencial de prosseguir o caminho de Jesus.

Tudo quanto desejamos testemunhar pode se tornar transparente ao entendimento e afeto como algo maior (magis) na humilde disposição de passar cada dor pela Cruz de Jesus e vê-la transformar-se em amor. Não acabamos de entender o mistério da cruz e seu significado na história. Escândalo e loucura para quem queira decodificar seu sentido nas variadas culturas. O certo é que para Jesus, este caminho está selado em sua vida de entrega como força transformadora, tornando transparente o amor de Deus Abbá como “Projeto” de seu Reino.

Jesus deixa claro que ser o Cristo não significa um triunfo segundo os critérios de avaliação deste mundo, mas ao contrário: “O filho humano deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, os chefes dos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto, mas que ressuscitará ao terceiro dia”.
Não era comum, esta visão que Jesus teve de sua missão messiânica, difícil de ser assimilada. O povo esperava um messias triunfante e glorioso. Pedro procura dissuadir Jesus de se expor, o que mereceu ganhar esta correção, sem os rodeios da diplomacia relacional: “Fique longe de mim, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas sim as dos homens”. Este modo de pensar não de acordo com os de Deus reafirma em nós, que nossas palavras podem estar longe da exigência daquilo que significa o que professamos.

A Bíblia conta que Deus criou homens e mulheres à sua imagem e semelhança, mas não raro criamos um ‘Deus’ à nossa imagem e semelhança, para que não incomode nem desinstale ninguém de suas zonas de conforto, e assim poder fazer valer as velhas ideias como certezas absolutas a serem defendidas, convencendo os demais com a aparência de zelo e cuidado pelo religioso.

O encontro com as modalidades de existência narradas no texto: os anciãos, os sumos sacerdotes e os mestres da Lei, que deveriam servir garantindo a sabedoria, o direito a vida na justiça, interpretada sempre em favor daqueles que vivem em situação de vulnerabilidade sendo “luz para as nações”, não se realizou.

Daí que a proposta de Jesus para seu seguimento, em um discipulado progressivo, se tem que aprender a dar os passos nas pegadas do Mestre: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me” (Lc 9,23). A oferta é para a liberdade: “se alguém me seguir”. Caminhar com Ele liberta da autossuficiência estéril e do autocentramento que encapsula o fluxo da vida bloqueando-a.

Importa ir descobrindo no seguimento de Jesus que há uma luz que a cruz oculta, ir verificando que a vivência de atitudes e opções em favor da vida conduzirá ao confronto conflitivo com todo poder que se instaura na história contrário ao Evangelho. Seja porque o ‘eu’ idolátrico ocupa o lugar de comando, ou porque existe alguma resistência ao estado permanente de aprendizado como discípulo de Jesus.

Carregar a cruz é viver as consequências de uma vida coerente com o projeto do Pai, manifestado em seu Filho. Segui-lo não é tanto fazer o que Jesus fazia no seu tempo, mas o que Ele faria se estivesse em nosso tempo.

Na primeira leitura Jeremias luta, tendo que reconhecer a sedução do amor em seu coração como força e poder que o faz transpor suas resistências para o serviço profético em meio às hostilidades que a missão lhe impôs. “Seduziste-me, Senhor, e deixei-me seduzir”. Enfrenta as zombarias daqueles que se fazem surdos, sabendo que o mal se manifesta e continuará a se manifestar na história, mas sem ceder às tentações de calar, porque não pode negar o fogo que lhe arde dentro e lhe deixa quase sem forças para suportar.

Nossa vida, como na oração do Salmo 62, buscará como terra rachada e ressequida, sedenta de água viva do Senhor Ressuscitado ser saciada, já que desde agora nenhum mal poderá eliminar completamente o bem como experiência final de toda história.

A exortação de Paulo na Carta aos Romanos é para oferecer a vida em sacrifício vivo, santo que seja agradável a Deus como culto espiritual, e que leva ao não conformismo com um mundo distante da compreensão que pertence Deus, mas de transformar-se, renovando a maneira de pensar e de julgar para discernir o que é bom e agrada a Deus.

 

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