Beirute. “Esta catástrofe é o reflexo de um país que implode”

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06 Agosto 2020

Em 4 de agosto, a capital libanesa foi devastada por uma dupla explosão que ocorreu em um estoque de nitrato de amônio armazenado no porto. Cerca de 100 mortes e quase 4.000 feridos foram registrados até o momento. Vincent Gelot, diretor da L'Oeuvre d'Orient [associação francesa fundada em 1856 e que está a serviço dos cristãos no Oriente] no Líbano, falou sobre essa catástrofe que impacta um país que já estava atravessando uma profunda crise.

A entrevista é de Sixtine Chartier, publicada por La Vie, 05-08-2020. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Qual é a situação em Beirute após a dupla explosão?

É de consternação. Todo mundo está em choque. As pessoas contam os mortos, os desaparecidos, os feridos e os danos. É um pesadelo. Eu moro nas alturas de Beirute, a 8 km do centro da explosão: as janelas se estilhaçaram e meu escritório ficou destroçado... Felizmente eu não estava lá. Eu acolho em minha casa um casal de amigos que perdeu sua casa com a explosão. Todo mundo conhece pessoas que ficaram feridas. Quanto à Oeuvre d’Orient, faremos um balanço com nossos vários interlocutores e com os diretores dos hospitais administrados pelas congregações. Eu já sei que uma filha da caridade iraniana, a irmã Sophie, morreu na explosão. O bispo maronita de Beirute está ferido. A diretora do Hospital Sacré Coeur, irmã Anne Sauvé, disse-me que os necrotérios e as salas de emergência estavam cheios.

Mapa do Líbano, com a capital Beirute em destaque, e países vizinhos. (Foto: ResearchGate)

Você sentiu o impacto da explosão?

Eu estava na Embaixada da França quando isso aconteceu, a 4 km do porto, finalizando o projeto de fundo para ajudar as escolas cristãs de língua francesa anunciado por Emmanuel Macron no início deste ano. Existem 400 escolas cristãs no Líbano. Era a culminância de várias semanas de trabalho. Houve uma primeira explosão e depois uma segunda. Fomos todos jogados no chão, os tetos falsos caíram sobre nós. Todos nós acreditávamos que fosse um atentado ou um ataque. Um alarme gritou em nossos ouvidos: “Alerta de agressão!” Com o grupo de pessoas, nos arrastamos para o banheiro no centro do prédio. Depois saímos e nos deparamos com a explosão. Havia todas as versões: ataque israelense, acidente... Ficamos em choque, as pessoas estavam aos prantos.

A explosão aconteceu no porto, o coração econômico da capital, em um contexto de profunda crise política e social desde o outono, que se soma à crise da Covid-19. Quais serão as consequências?

Será catastrófico. Esta é uma crise dentro de uma crise. A taxa de pobreza é superior a 50% e o desemprego é de 35%. A moeda está se depreciando de maneira vertiginosa. O país não tem mais dinheiro, o estado está falido. Os países ocidentais condicionam sua ajuda às reformas, mas nada foi feito, como lembrou o ministro das Relações Exteriores francês Jean-Yves Le Drian em visita ao Líbano no final de julho. O fundo para as escolas cristãs de língua francesa fazia parte uma dessas pequenas coisas para lidar com a crise. Hoje, existe uma verdadeira manifestação de solidariedade, mas a ajuda fornecida terá que ser bem direcionada para que não gere corrupção. O Líbano realmente não precisava disso. É a descida ao inferno.

Este cataclismo parece um golpe de misericórdia...

Sim, mas existem responsabilidades. Esta situação não se deve a uma maldição do Líbano. É normal que um estoque de mais de mil toneladas de nitrato de amônio seja armazenado em uma área em frente ao centro da cidade? Esta catástrofe é o reflexo de um país que implode.

O modelo político confessional é apontado como um sistema pervertido. Para você, que lugar têm as comunidades religiosas?

No contexto da sublevação popular que começou em 17 de outubro, as pessoas pedem o fim do sistema confessional, mas não é a maioria. O movimento é um protesto contra a classe política que governa o país. É uma raiva dirigida contra os chefes do país e a corrupção antes de ser um questionamento do sistema. Os cristãos saíram às ruas para exigir a renúncia do presidente Michel Naim Aoun, ele próprio cristão. Estamos em um país onde não tem eletricidade, nem proteção social. É um pouco o oeste selvagem (Far West). Os mais pobres sofrem com isso. Hoje, o Líbano está pagando a conta dos últimos anos.

Qual pode ser o papel dos cristãos e da Oeuvre d’Orient nesse contexto?

Os cristãos já estão desempenhando um papel através de suas escolas, que praticam uma mistura religiosa e social. São estabelecimentos onde se fala de cidadania e de laicidade. Teremos que garantir que essas escolas não fechem porque estão falidas. Durante cinco anos, o estado não paga mais pela educação nas chamadas escolas semigratuitas, administradas por congregações religiosas. Em Beirute, depois desse desastre, será preciso reconstruí-las. Também estamos lançando um apelo urgente para angariar doações para os hospitais, para que possam salvar vidas, feridos, além de doentes da Covid-19.

Como o Líbano poderá se recuperar?

Só Deus sabe. O Líbano, ao longo de sua história, sempre se ergueu. As pessoas são muito resilientes. Mas estou com raiva e preocupado. Vemos o país sucumbir e ninguém sabe como isso vai acabar.

 

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