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17 Julho 2020

Publicamos aqui o comentário de Enzo Bianchi, monge italiano fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho deste 16º Domingo do Tempo Comum, 19 de julho de 2020 (Mateus 13,24-43). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Continuando a escutar as palavras de Jesus no capítulo 13 do Evangelho segundo Mateus, meditamos sobre a parábola do joio, à qual Jesus dedica uma ampla explicação, e sobre as duas semelhanças entre o grãozinho de mostarda e o fermento.

Essas narrativas são introduzidas pela expressão: “O Reino dos Céus pode ser comparado com...”, a ser entendida como: “Ocorre no Reino dos Céus aquilo que ocorre com...”. Ou seja, Jesus cria imagens de vida, porque sabe que o Reino é uma realidade viva, um evento dinâmico que se desenvolve graças ao agir de Deus.

Um homem semeia uma boa semente no seu campo. Mas, enquanto todos dormem, o seu inimigo chega para semear o joio no meio do trigo: portanto, quando a colheita dá frutos, eis que o bom trigo e o joio parecem inextricavelmente misturados. Então, alguns empregados zelosos se oferecem para arrancar o joio, mas o dono se opõe: “Não! pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita!”. Só então ele dará a ordem para separar o trigo do joio, recolhendo o primeiro no celeiro e queimando o outro: só então e só ele, o Senhor, fará essa ação de separação; não antes e nem nós, seus servos!

Deus semeia a sua Palavra e, com as suas energias de vida, trabalha incansavelmente para instaurar o seu Reino. Porém, somos forçados a constatar, ao lado do bem, a escandalosa presença do mal, obra do Inimigo, de Satanás: o mal atravessa a humanidade, a Igreja e – se quisermos reconhecê-lo – também o coração de cada um de nós.

E, muitas vezes, adverte Jesus, contribuímos com a sua difusão com a nossa pouca vigilância, com o nosso sono... Mas, diante da dolorosa descoberta dessa coexistência do trigo e do joio, a reação equivocada é a de ceder à tentação da impaciência, pretendendo nós mesmos realizar o juízo que compete a Deus e ao Filho do homem quando ele vier na sua glória (cf. Mt 25,31-46).

Sempre há na Igreja aqueles que se presumem justos e, cegados pelas suas certezas, gostariam de uma comunidade de puros: mas Deus só conhece os verdadeiros justos e, no dia do juízo, da colheita (cf. Gl 4,13; Ap 14,15-16), ele os revelará e os acolherá no seu Reino! Atualmente, a sua paciência, o seu grande sentimento é uma oportunidade para nós nos convertermos para acolher a salvação (cf. 2Pd 3,15)...

O Reino – diz ainda Jesus – é semelhante a um grãozinho de mostarda semeado em um campo: é uma semente muito pequena, mas, “quando cresce, fica maior do que as outras plantas. E torna-se uma árvore, de modo que os pássaros vêm e fazem ninhos em seus ramos” (cf. Ez 17, 22-24).

Aqui, a atenção recai sobre o desenvolvimento extraordinário da semente, sobre a lacuna entre a sua pequenez inicial e a sua grandeza final. O mesmo acontece com o Reino: no nosso hoje, aparece uma realidade pequena, mas, no fim dos tempos, será manifestada a sua grandeza. O discípulo de Jesus Cristo deve olhar para o contraste entre o hoje e o futuro, mas também deve entender que o futuro depende precisamente da pequenez do hoje.

De fato, o seu Mestre lhe revelou que os critérios da grandeza e da aparência não devem ser aplicados ao reino dos céus: a força do Reino não deve ser confundida com o fascínio da grandeza, que se apresenta de tempos em tempos como número, prestígio, poder...

Para reiterar essa realidade, Jesus se serve de outra semelhança: uma mulher coloca pouco fermento em uma grande quantidade (cerca de 40 kg!) de farinha. Ou, melhor, o texto diz que a mulher “esconde” o fermento, para enfatizar que a presença do Reino é velada, não se impõe. No entanto, essa inesperada força do fermento faz toda a massa fermentar.

A atenção se concentra aqui no poder do fermento: pouca coisa, mas capaz de causar uma grande transformação. É precisamente assim: a vida de Jesus era pouca coisa, quase desconhecida pelos historiadores da época; mas nele, o homem sobre quem Deus reinou totalmente, ocultava-se o poder do Reino, oferecido a todos os homens e mulheres...

Somos, portanto, chamados à paciência, à pequenez, ao escondimento: é no fato de viver com liberdade e inteligência essas realidades que está a nossa possibilidade de acolher o Reino anunciado por Jesus, ou seja, de prestar obediência a ele, grão de trigo caído na terra e morto para dar muito fruto (cf. Jo 12,24).

Essa dinâmica de morte e ressurreição já são primícias do Reino, se soubermos assumi-la na nossa vida e testemunhá-la na companhia dos homens e mulheres.

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