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03 Junho 2020

Ninguém pensou em desconvidá-lo? O presidente dos Estados Unidos foi a Santuário Nacional São João Paulo II na terça-feira para um evento da liberdade religiosa internacional. Ele foi um dia depois da polícia dispersar com bombas de gás lacrimogêneo manifestantes pacíficos que estavam na região da Igreja Episcopal de São João, para que o presidente pudesse realizar uma foto em frente à reitoria fechada, parte da qual havia pegado fogo durante protestos na noite anterior. A polícia também forçadamente retirou a pastora Gini Gerbasi dos pátios da Igreja, antes que o presidente sorrisse para as câmeras segurando uma Bíblia.

Donald Trump, erguendo uma Bíblia, em frente à Igreja Episcopal de St. Johns (Foto: Ninian Reid | Flickr CC)

A reportagem é de Michael Sean Winters, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 02-06-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Certamente, a solidariedade com o colega ministro cristão garantiria o evento com o presidente no Santuário João Paulo II. Certamente, a hipocrisia de manter um evento sobre liberdade religiosas quando essa foi ofendida, há um quarteirão da Casa Branca, justificaria o cancelamento do evento do presidente no Santuário João Paulo II.

Donald Trump e Melania Trump no Santuário São João Paulo II. Foto: CNS

Certamente, Wilton Gregory, arcebispo de Washington, fez suas objeções a visitas, assinando uma declaração como nunca tínhamos visto, nem imaginado ler:

“Eu acho desconcertante e repreensível que qualquer instalação católica se permita ser tão flagrantemente usada e manipulada de uma maneira violadora de nossos princípios religiosos, que nos chamam a defender os direitos de todas as pessoas, mesmo aquelas com quem podemos discordar. O papa João Paulo II foi um fervoroso defensor dos direitos e dignidade dos seres humanos. Seu legado é testemunha vívida dessa verdade. Ele certamente não toleraria o uso de gás lacrimogêneo e outras ferramentas para silenciar, dispersar ou intimidar manifestantes por uma oportunidade fotográfica diante de um local de culto e paz”.

O posicionamento de Gregory resultou na falta de uma foto oportunista: alguém pode lembrar de alguma visita de um presidente a uma Igreja Católica e não ter nenhum bispo para lhe dar as boas-vindas?

Apenas, os Cavaleiros de Colombo, administradores do Santuário João Paulo II, e seu cavaleiro-supremo Carl Anderson não cancelaram a participação. Anderson estreou na política trabalhando para o senador Jesse Helms, o último grande segregacionista no Senado dos EUA. Como cavaleiro-supremo, Anderson transformou a organização fraterna em um batalhão de guerra cultural e marchou ombro-a-ombro com o Partido Republicano.

Alguém desejaria que o presidente ficasse para a missa no santuário então ele poderia escutar o Evangelho do dia: “Jesus percebeu a hipocrisia deles, e respondeu: ‘Por que me tentais?’” (Mc 12, 15). Os líderes religiosos presentes a essa farsa falharam no teste, assim como os herodianos e os fariseus.

Eu simpatizo com os líderes religiosos. Como vimos durante a pandemia, eles estão inclinados a trabalhar com líderes da sociedade civil para abordar preocupações comuns. Agora, eles estão sendo chamados a dar voz aos apelos à calma dos conflitos civis, pelo fim da violência que eclodiu nesta semana, na sequência do assassinato de George Floyd, gravado em vídeo. Mas algumas das verborragias tradicionalmente usadas nessas situações ficam presas na garganta. Por exemplo, o que estamos assistindo em nossas ruas não é chamado apropriadamente de “violência sem sentido”, como costuma ser chamado. Saquear uma loja pode ser uma maneira terrível de honrar a memória de Floyd, e os líderes religiosos devem se juntar à família de Floyd pedindo que a pilhagem pare, mas é um meio compreensível de expressar raiva. Ninguém deve desculpar saques, com certeza, mas entender a raiva é algo diferente.

Os líderes católicos precisam capturar algo dessa compreensão da violência reativa que um dos maiores teólogos estadunidenses, Abraham Lincoln, mostrou em seu segundo discurso de posse:

“Carinhosamente esperamos – oramos fervorosamente – que esse poderoso flagelo da guerra passe rapidamente. No entanto, se Deus quiser que continue, até que toda a riqueza acumulada pelos duzentos e cinquenta anos de trabalho não correspondido seja abatida, e até que toda gota de sangue colhida com o chicote seja paga por outra colhida com a espada, como foi dito três mil anos atrás, mas ainda assim deve ser dito ‘os julgamentos do Senhor, são verdadeiros e justos por completo’”.

Essas palavras são apropriadas para o momento de nosso país hoje. As imagens de protestos e saques são perturbadoras, mas não são difíceis de entender, e não é errado sentir empatia para os cidadãos cuja raiva está sendo levada às ruas, brava e implacavelmente. A violência, por vezes, é a resposta a uma situação que se torna intolerável.

Os líderes religiosos também estão faltando em seus esforços para obter a mensagem certa e o tom certo neste momento de crise nacional pelo fato de o presidente dos Estados Unidos, que normalmente funcionaria como um ponto de unidade nacional, estar jogando mais gasolina às chamas. Antes de sua sessão de fotos na Igreja de São João, o presidente disse aos governadores para não parecerem fracos, ele ameaçou enviar as forças armadas dos EUA às ruas do país para reprimir a violência e, mais repugnantemente, ele desrespeitou não apenas a Primeira Emenda da Constituição, mas também a Segunda. O presidente Trump destruiu tantas normas democráticas, introduziu tanta vulgaridade e ódio em nossa política que esses mesmos líderes religiosos precisam perguntar quanto de sua própria autoridade moral estão desperdiçando ao permanecerem calados.

No domingo, o cardeal Blase Cupich, de Chicago, pediu a reconciliação nacional:

“Outras sociedades sofreram ofensas incomensuráveis contra a humanidade e encontraram maneiras de entender a história, admitir os crimes, responsabilizar aqueles que os cometeram e avançar em direção a algo semelhante à reconciliação: o assassinato de 6 milhões de judeus pelo regime nazista, o genocídio de Ruanda, os crimes do apartheid sul-africano. Nós, americanos, também podemos fazer isso. Estamos muito atrasados para essa reconciliação nacional e a necessidade de explicar a história da violência contra pessoas de cor neste país”.

A analogia com a Alemanha depois da Shoá é impressionante, e é adequada. O verdadeiro acerto de contas na Alemanha se resumiu a uma pergunta que as crianças faziam: “Papai (ou vovô), o que você fez durante a guerra?”. Também nossos líderes católicos, tanto religiosos quanto leigos, ao pensar em lidar com o trumpismo, devem ter essa pergunta em primeiro plano. Trump pode pensar que pode enviar as forças armadas e prender todos os manifestantes, mas os bispos da Igreja Católica precisam proclamar para que todos possam ouvir as palavras da Segunda Carta de São Paulo a Timóteo, capítulo 2, versículo 9: “Mas a palavra de Deus não está algemada!”.

 

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