Crise para quem e para quê? A dura realidade do trabalho brasileiro

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27 Março 2020

"Sem pretender ser fatalista, o que se pode esperar dessas novas medidas econômicas? Certamente para aqueles que desfrutam do “banquete do consumo”, não faltarão oportunidades; ao contrário, as crises econômicas servem para alguns setores lucrarem ainda mais, porém, para uma parcela significativa da sociedade, o que se vislumbra é o aumento da pobreza e da desigualdade social", escreve Raphael Colvara Pinto, doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

Eis o artigo.

A noção de trabalho e sua desvinculação social tornou-se o foco recente da medida provisória que flexibiliza as leis trabalhistas em nosso país. Tal perspectiva não se restringe apenas às interações do mercado e das relações econômicas, mas também, à organização social. Tal tensão consiste precisamente porque as antigas estruturas sociais já não respondem mais.

Cabe reiterar que, nas sucessivas crises do capitalismo, os modelos baseados na produção em série ou no paradigma fordista, tornaram-se obsoletos. Essa nova conjuntura reduziu o senso de durabilidade para sugerir novos níveis e, ao mesmo tempo, dissolver os laços que davam uma suposta sensação de segurança. Isso aconteceu pela substituição gradativa das estruturas sólidas por outras mais flexíveis ou líquidas, para utilizar o conceito do sociólogo polonês Zygmunt Bauman.

Por exemplo, a “ética do trabalho”, que serviu para o desenvolvimento da Revolução Industrial, foi um instrumento importante para estabelecer os mecanismos de regulamentação da ordem social no mundo moderno. Nela, os trabalhadores detinham um certo poder de barganha, pois sua recusa era um instrumento de negociação e até mesmo de falência da própria fábrica. Hoje, no contexto neoliberal, pelo fato dos trabalhadores não possuírem mais o mesmo instrumento de pressão social, tornaram-se invisíveis e até descartáveis.

Zygmunt Bauman, em suas diversas obras, aponta o desmantelamento do Estado-nação como um dos fenômenos da globalização neoliberal; isso deu-se pela perda de credibilidade do mesmo, que ficou refém dos interesses econômicos, trazendo questões e problemas sociais relevantes. Tal fenômeno desembocou no que chamou-se de “sociedade de consumo”, onde “comprar é poder”. Nela, os novos pobres emergem como um efeito colateral das sucessivas instabilidades econômicas.

Bauman, em seu livro Tempos líquidos, fala de uma segregação espacial e polaridade entre dois mundos ou duas categorias de habitantes, denominadas superiores e inferiores, gerando um novo tipo de pobreza que, além de econômica é também psicológica.

O sociólogo afirma que o mundo de outrora foi caracterizado pela tentativa de tornar a realidade ordenada por meio da imposição de categorias sólidas. Em uma sociedade líquida, a precariedade tornou-se a marca e a condição preliminar desse tempo, isto é, a sobrevivência é aquilo que é reivindicado: trabalho e emprego, onde o indivíduo toma suas próprias decisões e vive para si e não para os outros.

Bauman entende que a individualização exacerbada, imposta pelo neoliberalismo, é a grande responsável por essa situação calamitosa; isso dá-se pelo fato de ter substituído as esferas comunitárias pelo individualismo. Segundo o refiro autor, os novos pobres são um produto necessário dessa “sociedade do consumo”. Nela, os desprovidos são classificados como “consumidores falhos”, pois almejam o sucesso, mas como não conseguem, contentam-se com o sonho de que um dia também tornar-se-ão ricos.

Sem pretender ser fatalista, o que se pode esperar dessas novas medidas econômicas? Certamente para aqueles que desfrutam do “banquete do consumo”, não faltarão oportunidades; ao contrário, as crises econômicas servem para alguns setores lucrarem ainda mais, porém, para uma parcela significativa da sociedade, o que se vislumbra é o aumento da pobreza e da desigualdade social.

 

Referências:

BAUMAN, Z. Globalização: as consequências humanas. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 1999.

_________. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2001.

_________. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro. Editora Zahar, 2003.

_________. Identidade. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2004.

_________. Confiança e medo na Cidade. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2005.

_________. O mal estar da Pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

_________. Retrotopia. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2017.

_________. Tempos Líquidos. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2007.

_________. Vida para Consumo: a Transformação das pessoas em mercadoria. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2007.

 

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