As mulheres são único coletivo com o qual Jesus jamais teve algum problema. Artigo de José María Castillo

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28 Fevereiro 2020

"Como é possível que as mulheres sigam nesta Igreja que as marginaliza, as exclui, as anula em tantas coisas? Por que seguem em uma Igreja que, ancorada em séculos muito passados, se nega e resiste a que façam missas ou que possam ser esposas de sacerdotes? Se Jesus não proibiu nada disso, por que nós as proibimos e ainda por cima ficamos com a consciência de dever cumprido? O que é mais importante: agradar a uns quantos cardeais ou servir ao mundo inteiro?", questiona José María Castillo, teólogo espanhol, em artigo publicado por Religión Digital, 25-02-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

Uma das coisas que mais me chamaram a atenção, na leitura e estudo dos Evangelhos, é que neles se relatam os numerosos conflitos e enfrentamentos que Jesus teve com distintos grupos humanos e pessoas. Desde as mais altas autoridades religiosas até os próprios discípulos que o acompanhavam. Porém, também nos Evangelhos, há um dado que chama poderosamente a atenção: as mulheres são o único coletivo humano com que Jesus jamais teve um atrito, discussão ou qualquer problema. Inclusive no caso da mulher cananeia, que lhe suplicava a cura de sua filha enferma (Mc 7, 26), parece que Jesus deu-lhe uma má resposta (Mc 7, 28). Porém o carinho daquela mãe foi tão grande, que até fez Jesus dizer: “Mulher que grande é a tua fé” (Mt 15, 28). E a filha ficou curada.

Insisto: Jesus sempre esteve do lado das mulheres. Um bom grupo delas o acompanhava em suas viagens (Lc 8, 1-3). E sempre se pôs ao lado delas, ainda que se tratasse de adúlteras (Jo 8, 1-11) ou prostitutas (Lc 7, 36-50). Suas grandes amizades foram mulheres (Lc 10, 38-42; Jo 11, 1-46). Por uma mulher, Jesus deixou-se perfumar com um perfume valioso (Jo 12, 1-8). E as mulheres foram aqueles que se mantiveram fiéis a Jesus em sua paixão e morte: no caminho do Calvário (Lc 23, 27-31) e depois da morte (Mc 15, 40-41), diante da cruz.

E mais, Jesus chegou a anular a lei de Moisés (Dt 24, 1), precisamente quando concedia ao marido o direito de repudiar a sua mulher (Mt 19, 3-9). E, ademais, os relatos da ressurreição destacam as mulheres como se elas fossem as primeiras testemunhas do Ressuscitado.

Vejamos, Jesus disse a Pedro que era um “Satanás” (Mt 16, 23). E disse pouco depois de assegurar que o próprio Pedro seria a “rocha” sobre a qual Cristo pensava edificar a sua Igreja (Mt 16, 18). Mas Pedro não tinha o suficiente para enfrentar Jesus assim. E, ainda, na Paixão, Pedro renegou três vezes que conhecia ou era um dos discípulos de Jesus. E, ao final, Judas o traiu e os demais fugiram, deixando Jesus só.

Na cena de despedida, Jesus impôs a seus discípulos três mandamentos: ) Tinham que ir por toda a vida fazendo o que ele fez aquela noite: lavar os pés dos demais. Ou seja, tinham que se fazer escravos de todos, já que isso era o que faziam os escravos: lavar os pés. ) Tinham que partir e compartilhar o pão e o vinho com os demais, já que, nesse pão e nesse vinho (da “eucaristia”) está realmente presente o próprio Jesus. ) No Evangelho de João, não se recorda o mando eucarístico e, no seu lugar, nos é dito que Jesus impôs um “mandamento novo”: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 13, 34-35).

Por que esse terceiro mandamento é “novo”? Porque aqui já não se recorda o amor a Deus sobre todas as coisas. Porque no “outro”, seja quem seja, aí és onde “está Deus”. De forma que somente o que ama o outro, é quem conhece a Deus (1 Jo 4, 7-21).

Agora bem, se tudo isso é verdade (e é o que nos diz a nossa Fé), como é possível que a Igreja tenha organizado as coisas de maneira que desobedece ao que Jesus nos disse e nos mandou, e ademais, não somente fica tranquila com a Igreja que temos, mas também desobedece a Jesus com o convencimento de que faz com razão o que tem que fazer?

Como é possível que isso esteja ocorrendo? Com tantos bispos vivendo em palácios, usando vestimentas que ninguém mais usa, tendo privilégios que ninguém mais tem, crendo que têm poderes porque Deus os fez bispos, e ninguém mais além deles, não é lógico e inevitável que esteja passando na Igreja isso o que todos nós percebemos que ocorre? Há bispos que ocultam delitos, desmatriculam propriedades de valor incalculável para suas dioceses, premiam o que mais lhes convém, castigam o que lhes parece que deve ser castigado, cobram dinheiro para entrar na “casa de Deus”. E fazem essas coisas pensando que tudo isso é a vontade de Deus.

Se digo essas coisas, é por muito que gosto da Igreja. Porém, a Igreja que amo – e a qual todos deveríamos amar – é a Igreja que vive o mais parecido possível como viveu Jesus, o Senhor, o Filho de Deus, a Palavra de Deus. Se não levamos a sério o Evangelho, de que nos serve ser muito “canônicos”, muito “piedosos” e muito “clericais”? Não é tudo isso um enorme engano, em vez de ser o caminho que nos traçou Jesus, o Senhor?

E termino fazendo uma pergunta: como é possível que as mulheres sigam nesta Igreja que as marginaliza, as exclui, as anula em tantas coisas? Por que seguem em uma Igreja que, ancorada em séculos muito passados, se nega e resiste a que façam missas ou que possam ser esposas de sacerdotes? Se Jesus não proibiu nada disso, por que nós as proibimos e ainda por cima ficamos com a consciência de dever cumprido? O que é mais importante: agradar a uns quantos cardeais ou servir ao mundo inteiro?

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