Tarso Genro: o PT ficou obsoleto

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12 Fevereiro 2020

"E sempre vou insistindo num trabalho de longo prazo e de alianças das forças progressistas. Na linha de Gramsci, uma complexa guerra de posições preparando uma guerra de movimento bem mais adiante. A falta de uma visão na grande história tem feito o PT apostar no imediato e no isolamento", escreve Luiz Alberto Gomez de Souza, sociólogo. 

Eis o artigo. 

O texto de Tarso Genro sobre o PT, publicado pelo UOL, é irretocável. O partido não tem sabido ser um elemento de aglutinação das forças progressistas. Está mais voltado para o "Lula livre" e suas ambições de poder do que diante dos gravíssimos problemas do país. Com isso não contribui para a formação de uma frente ampla nacional, popular e democrática. Foi trágico ver, na última eleição nacional, manter uma candidatura de Lula já de antemão inviável até o último prazo legal e com isso contribuir, em parte, para o desastre que foi a eleição de um despreparado Bolsonaro.

Tarso, quando esteve como presidente do PT num breve espaço de tempo, propôs uma refundação do partido. Foi derrotado e afastado da presidência. Suas críticas, as de Olívio Dutra, de Gilberto Carvalho e de Aloizio Mercadante, não foram ouvidas pelo setor majoritário do partido. Agora, na festa dos 40 anos, Lula e Gleisi seguem se recusando a uma autocrítica.

Uma lembrança histórica. Betinho e eu estivemos na fundação da Ação Popular em 1963. Eu saí quando entrei na fase althusseriana (1967), Betinho mais adiante, nos anos setenta, nos tempos maoístas. Ao voltar ao Brasil, eu em 1977 e Betinho em 1979, tomamos a decisão de não ter mais militância partidária. Por caminhos diferentes, resolvemos dedicar-nos aos movimentos populares, Betinho criou o IBASE, eu entrei no IBRADES, por convite de meu mestre Pe. Henrique de Lima Vaz. Acompanhei com simpatia o nascimento do PT e sempre votei nele (meu candidato, Molon, agora passou para o PSB).

Na eleição de 1994 Betinho, por instigação minha, escreveu um texto definitivo: "Opção pela sociedade" (Jornal do Brasil, 18 de agosto de 1994). Ali dizia: "sem mudar a sociedade, não adianta mudar o governo... Apesar de não acreditar que eu vá viver muito [morreria três anos depois] o fato é que atuo como se a vida não terminasse numa eleição". Com seu humor mineiro dizia: prefiro a planície ao planalto.

Foi uma alegria a vitória de Lula em 2003. Mas lembro de ter escrito sobre o risco de apostar ingenuamente num desejável abstrato, sem levar el conta as amarras de um possível concreto. E as ciladas que estariam à espreita. Esqueceram que chegaram ao governo, mas não ao poder, nas mãos dos setores dominantes. Começaram a fazer concessões e, logo adiante, muitos repetiram o estilo e os malfeitos da política tradicional. Em 1994, quando li a carta do Betinho escrevi no mesmo dia: "há que desmistificar essa modernidade que reduz tudo ao estado e ao mercado. A sociedade vai muito mais além e a política tem mais amplas ambições e responsabilidades... Que bom, meu irmão, uma vez mais comungar contigo dos mesmos ideais. Teu velho companheiro de geração e de sonhos".

E sempre vou insistindo num trabalho de longo prazo e de alianças das forças progressistas. Na linha de Gramsci, uma complexa guerra de posições preparando uma guerra de movimento bem mais adiante. A falta de uma visão na grande história tem feito o PT apostar no imediato e no isolamento.

Nesse sentido, a entrevista de Tarso Genro é um chamado a uma presença pluralista de longo prazo e de amplas ambições. Vai abaixo o texto.

 

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