A coerência de Bolsonaro. Artigo de Eric Nepomuceno

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31 Outubro 2019

Bolsonaro, comprovadamente, faz milagres ao contrário: transforma o melhor vinho em barro. E faz isso com a naturalidade daqueles que não têm a mínima noção do efeito que seus atos e palavras podem ter”, escreve Eric Nepomuceno, jornalista e escritor, em artigo publicado por Página/12, 29-10-2019. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

É preciso reconhecer uma característica da personalidade do presidente de direita brasileiro: sua coerência.

Sempre que aparece uma oportunidade, por menor que seja, de disparar estupidezes e comprovar mais uma vez o muito elevado grau de seu desequilíbrio, Bolsonaro a aproveita com raro brilho. E quando não aparece, a cria com eficiência olímpica.

Agora mesmo, em sua insensata viagem pelos países do Oriente Médio, surpreendeu a todos. No domingo, em Abu Dhabi, fez declarações equilibradas sobre a situação na Bolívia e sobre as eleições argentinas. Disse que o Brasil pretende manter boas relações com a Bolívia, e que espera aumentar o comércio com a Argentina.

Como a sensatez e equilíbrio não costumam conviver com descerebrados, o que aconteceu não foi mais que um surto rápido e passageiro. Muito rapidamente, Bolsonaro voltou ao seu estado normal, se é que é possível aplicar a palavra “normal” para qualquer coisa relacionada a ele.

Tão logo se conheceu o resultado das eleições de domingo, Bolsonaro mostrou esplendidamente sua capacidade de ser grosseiro e que está em pleno apogeu. “Lamento”, disparou. “Não tenho bola de cristal, mas acho que a Argentina escolheu mal. O primeiro ato de Fernández foi dizer Lula Livre. Já disse a que veio”.

E continuou: “Não pretendo parabenizá-lo. Por enquanto, não vamos nos indispor. Vamos esperar para ver qual a posição real dele na política. Porque ele irá assumir, vai se inteirar do que acontece, e veremos qual linha adotará”.

O tom ameaçador, a propósito, é outra característica de seu desequilíbrio crônico: quem não pensa como ele é inimigo, e será tratado como tal, com a energia necessária.

Também aproveitou para lançar uma contundente advertência a Alberto Fernández: o Brasil tomará medidas, se a Argentina não aceitar uma mudança na chamada TEC (Tarifa Externa Comum), pela qual dos atuais 13,6% das importações extras do Mercosul passaria a 6,4, ou seja, pouco menos da metade.

Aceitar a nova TEC seria uma ameaça fatal para a indústria do bloco, e o próprio Macri se recusou a avançar na discussão. Os maiores beneficiários seriam os chineses, seguidos dos Estados Unidos.

Se a Argentina de Alberto Fernández não aderir ao que ele pretende, Bolsonaro adverte que estudaria medidas alternativas: suspender a Argentina do bloco, com o apoio dos outros dois parceiros, Paraguai e Uruguai, ou retirar o Brasil do Mercosul.

Depois, e no mesmo dia, esqueceu a segunda hipótese, para reiterar a primeira.

Trata-se, evidentemente, de uma bravata delirante, uma afirmação que mereceria o desprezo imediato, se não fosse proferida por alguém que não conhece limites para disparar torpezas e, portanto, acredita que seja viável.

E mais: a proposta é defendida por um homem irracional que não tem ideia das regras mais essenciais da diplomacia e menos ainda do que são as relações externas. Para completar, ignora solenemente acordos internacionais e o funcionamento de seu próprio país.

Para jogar mais gasolina no fogo, a aberração chamada Ernesto Araújo, que ocupa o cargo de ministro das Relações Exteriores do aberrante governo de meu país, decidiu meter a colher no assunto. Ontem, disse que “as forças do mal” comemoram a vitória de Alberto Fernández e Cristina Kirchner, ao passo que as “forças da democracia” estariam se lamentando.

Como se os problemas que Fernández herdará de Macri não fossem suficientes, a postura abominável de Bolsonaro e seu grotesco Ministro das Relações Exteriores deixa claro que também com o Brasil o horizonte está repleto de nuvens de tempestade.

Bolsonaro, comprovadamente, faz milagres ao contrário: transforma o melhor vinho em barro. E faz isso com a naturalidade daqueles que não têm a mínima noção do efeito que seus atos e palavras podem ter.

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