O surgimento de supermicróbios e por que a culpa é da agricultura industrial

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12 Junho 2019

Nos últimos meses, fomos invadidos com novas e alarmantes evidências sobre como nossa sociedade industrial está causando estragos em outras espécies e no restante do ambiente natural. Não passa uma semana sem que se conheçam novas notícias que ressaltam que a crise climática, induzida por humanos, se aprofunda muito mais rápido do que os cientistas predisseram há apenas um ou dois anos.

A reportagem é publicada por GRAIN e reproduzida por Rebelión, 11-06-2019. A tradução é do Cepat.

Em abril deste ano, uma equipe de cientistas publicou um estudo destacando que 40% das espécies de insetos estão diminuindo sua população e podem se extinguir nas próximas décadas, com consequências catastróficas para os ecossistemas naturais aos quais pertencem e para os cultivos alimentares que polinizam.

Ligado a isso, a população de aves na França diminuiu em um terço na última década e meia. Recentemente, um estudo em nível mundial, com apoio da ONU, realizado por 145 especialistas de 50 países, concluiu que estamos beirando à extinção de um milhão de espécies vegetais e animais – o que significa uma em cada oito espécies existentes hoje – e que este processo também se acelera.

Em meio a toda esta destruição, pouco se sabe sobre o que ocorre com os micro-organismos e o papel que possuem na manutenção e balanço ecossistêmico. Diz-se que talvez estejam se defendendo de um modo que pode ter desastrosas consequências para a humanidade.

Em abril, foi apresentado um relatório ao Secretário Geral da ONU chamando a atenção sobre a crescente crise que envolve novos “supermicróbios”, que estão desenvolvendo resistência a medicamentos de uso comum.

O risco de morte derivada de doenças comuns, que atualmente são consideradas de fácil tratamento, se torna uma ameaça real na medida em que remédios como os antibióticos simplesmente deixam de ser efetivos em razão dos micróbios se tornarem resistentes a eles.

Hoje, cerca de 700.000 pessoas morrem por ano em razão da resistência aos antimicrobianos, e o relatório adverte que até 2050 podem chegar a morrer anualmente mais de 10 milhões de pessoas por esta causa, número que é maior que a mortalidade atual por câncer.

Já faz muitos anos que o desenvolvimento de resistência aos antimicrobianos comumente usados na medicina preocupa a cientistas e planejadores de políticas públicas. A demanda por fármacos antimicrobianos está em ascensão e ao mesmo tempo aumentam os supermicróbios resistentes a estes.

Em 2017, o mercado mundial de antibióticos chegou a 42 bilhões de dólares e se supõe que alcançará os 50 bilhões de dólares até 2025. Os Estados Unidos são um consumidor chave, que representa mais de um quinto do mercado mundial. Contudo, segundo um estudo de 2017, nesse país uma em cada três prescrições de antibióticos a pessoas são desnecessárias.

Uma análise realizada pela OCDE mostra que o uso inapropriado de antimicrobianos em saúde humana chega a mais de 50% de seu consumo total. Para piorar a situação, quase não há processos de desenvolvimento de novos tipos de antibióticos já que as empresas farmacêuticas alegam que o investimento não rende. Alguns descrevem esta situação como um “tsunami silencioso” à espera de mais e mais pessoas expostas a doenças que não podem ser curadas.

Pecuária industrial

O principal agente por trás do aumento no uso de antibióticos não são os humanos, mas, sim, os animais criados para a alimentação em granjas industriais. Atualmente, na União Europeia, mais de 75% de todos os antibióticos são utilizados na agricultura, ao passo que a projeção para os países do grupo BRICS é que experimentarão um aumento de 99% no consumo de antimicrobianos até 2030, por causa sobretudo da expansão da criação industrial de gado. Projeta-se um aumento do consumo total de antibióticos na produção de alimentos de origem animal de quase 70%, entre 2010 e 2030.

Esta escalada é causada pela criação industrial de animais que utiliza grandes quantidades de antibióticos para promover o crescimento e prevenir doenças em animais sadios. O uso de antibióticos no gado industrial para promover crescimento começou a ser proibido na Europa, a partir dos anos 1990, e nos Estados Unidos apenas em 2017.

Não obstante, em muitos outros países esta é uma prática comum e em ascensão. Além disso, seu uso não terapêutico em animais sadios, desde seu nascimento até o seu sacrifício, sobretudo em aves de criação e suínos, aumenta em todas as partes. Esta prática acaba sendo necessária devido às extremas condições de confinamento destes animais na criação industrial, que não permitem diagnosticar e atender os animais individualmente. As condições de confinamento também são o perfeito caldo de cultivo para que as bactérias desenvolvam resistência. Na aquicultura industrial, onde os antibióticos são utilizados desde o estado de ovo ao adulto, a situação é similar ou pior.

Os antibióticos não são digeridos e processados em sua totalidade no intestino dos animais, o que acarreta uma situação onde mais de 90% dos antibióticos ingeridos são excretados pela urina e fezes que, muitas vezes, são usadas como fertilizantes de cultivos, contaminando assim solos e águas subterrâneas. As bactérias resistentes às drogas também podem infectar os humanos através do contato direto com animais e através do consumo de carne e produtos lácteos que contenham estas bactérias resistentes.

Os humanos e os animais de granja compartilham muitos micróbios em seus sistemas e também estão expostos a antibióticos semelhantes. A OCDE nos recorda que dos 27 tipos de antibióticos disponíveis atualmente, apenas sete deles são de uso exclusivo na agricultura, o restante é usado também em saúde humana.

Sem novos desenvolvimentos de antibióticos nos últimos quarenta anos, a criação industrial e seu uso massivo de antibióticos é uma grande ameaça para os antibióticos utilizados pelos humanos, na medida em que contribuem para desenvolver resistência aos antibióticos em todas as partes.

Os fungicidas também...

O problema vai além do uso indiscriminado de antibióticos na pecuária industrial. Em abril deste ano, o New York Times publicou um perturbador artigo acerca de um homem da cidade que morreu por causa de um germe tão agressivo como misterioso, recentemente descoberto. O germe, um fungo chamado Candida auris, está se expandindo silenciosamente por todo o planeta, atacando pessoas com o sistema imunológico debilitado.

O homem morreu após 90 dias hospitalizado, mas o fungo Candida auris permaneceu vivo. Os exames mostraram que estava presente em todas as partes de sua sala de hospitalização, “tão invasivo que o hospital requisitou uma equipe de limpeza especial e precisou arrancar parte do teto e azulejos do solo para erradicá-lo. O fungo, que foi descoberto primeiro no Japão, em 2009, é resistente a todos os principais tratamentos antifúngicos disponíveis e se estendeu por todo o mundo. Quase a metade das pessoas que o contraem morrem dentro de três meses.

O artigo do New York Times estabeleceu uma provável relação entre o surgimento deste fungo mortal e o uso de um tipo de fungicida agrícola: triazol, o mesmo produto químico usado para tratar doenças fúngicas em humanos. Em nível mundial, os triazóis se tornaram o fungicida mais usado na agricultura, sendo aspergido sobre qualquer planta, desde begônias, feijão e até bananas. No entanto, seu amplo uso na agricultura provavelmente esteja relacionado à resistência a medicamentos, conforme demonstrados pelos fungos patogênicos humanos.

Embora a relação com a resistência do fungo Candida auris ainda seja especulativa, há outro caso muito bem documentado e se trata de um fungo que afeta tanto humanos, como cultivos: Aspergillus fumigatus. Este fundo que em humanos pode causar infecções fatais em pacientes com baixas defesas, desenvolveu resistência aos triazóis. Uma equipe de pesquisadores holandeses descobriu que esta resistência se desenvolveu dentro da indústria agrícola holandesa, que asperge triazóis em seus campos, de modo rotineiro e intensivo. Evidenciou-se que 30% do Aspergillus presente em mostras de solo era resistente ao fungicida, a mesma resistência que a encontrada na medicina humana.

... E o combate às ervas daninhas

Outra ameaça que mina nossa capacidade de combater doenças mortais em humanos vem de um culpado inesperado: os herbicidas. Herbicidas como Roundup e Camba são usados em todo o mundo para matar ervas daninhas. Os volumes utilizados aumentaram substantivamente durantes as últimas décadas, ao passo que as empresas agroquímicas modificaram geneticamente cultivos para torná-los mais tolerantes a eles, permitindo que os agricultores apliquem a quantidade de herbicida que desejarem, sem “prejudicar” os cultivos.

Na atualidade, uma equipe de pesquisadores neozelandeses descobriu que estes herbicidas também afetam as bactérias. Seu estudo, publicado em outubro de 2018, mostra que as bactérias expostas simultaneamente a herbicidas e antibióticos, podem originar mutantes com maiores níveis de resistência. Os pesquisadores destacam que, “em alguns casos, a resistência se desenvolveu 10.000 vezes mais rápido”. Ainda não está claro como e nem por qual razão ocorre este fenômeno. O que está claro é que, em ambientes agrícolas industriais, os resíduos de antibióticos e herbicidas estão destinados a se misturar com muita frequência.

Jack Heinemann, um dos autores do estudo, recomenda que os “países que produzam cultivos geneticamente modificados em grande escala, incluam em suas avaliações estes efeitos não antecipados”. Falando sobre combinações herbicida-antibiótico, acrescenta: “tais combinações podem ser como tratar de apagar o incêndio da resistência aos antibióticos com gasolina”.

O uso indiscriminado de antibióticos em animais sadios na criação industrial e o uso intensivo de fungicidas e herbicidas na agricultura industrial contribuem para a fragilização dos remédios que salvam vidas humanas. As agências governamentais e intergovernamentais criaram grupos de trabalho e manuais para lidar com o crescimento desta resistência aos antimicrobianos.

No entanto, ninguém parece querer enfrentar uma das raízes do problema. Por acaso não há suficiente evidência de que este é o momento de abandonar a produção animal industrial e a agricultura de plantação e nos focar na agroecologia e na soberania alimentar? Isto poderia ajudar, também, a eliminar uma das causas chaves por trás do colapso das populações de espécies por todo o mundo, como também um dos maiores culpados por trás da crise climática.

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