Dois novos desdobramentos reabrem o caso McCarrick

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31 Mai 2019

Às vezes, os destinos que governam o negócio das notícias têm um perverso senso de tempo. Depois de um longo período de relativa tranquilidade em relação a Theodore McCarrick, o ex-cardeal que foi expulso após acusações de má conduta sexual e abuso, trouxe nessa terça-feira não apenas um, mas dois grandes novos desdobramentos.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada em Crux, 30-05-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O Crux, junto com a CBS, publicou a correspondência de McCarrick confirmando que ele foi posto sob restrições do Vaticano em 2008, alegando que o cardeal Donald Wuerl (o arcebispo de Washington na época) estava ciente dessas restrições apesar de suas negativas, e também revelando que McCarrick desempenhou um papel importante na diplomacia secreta com a China no papado de Papa Francisco.

Aproximadamente uma hora depois da nossa história ir ao ar, circulou uma nova entrevista com Francisco, com a jornalista mexicana Valentina Alazraki, na qual o pontífice insistiu: “Eu não sabia nada, obviamente, nada, nada” sobre as acusações contra McCarrick.

Para ser claro, as duas histórias não se contradizem. Embora a correspondência no cerne da reportagem do Crux sugira claramente que altas autoridades vaticanas durante o papado do Papa Emérito Bento XVI sabiam das restrições informais e não impediram McCarrick de retornar gradualmente às suas atividades, isso não diz nada sobre o que Francisco ou sua equipe sabiam.

No entanto, o duplo azar dessas duas histórias que surgem ao mesmo tempo ilustra claramente duas das principais questões deixadas pelo caso McCarrick, que, por sua vez, encapsula a metanarrativa de toda a saga.

Uma dessas questões pendentes, obviamente, é o que Wuerl sabia e quando ele soube disso.

Uma parte da correspondência na edição de terça-feira do Crux é uma carta de McCarrick de 25 de agosto de 2008 ao falecido arcebispo italiano Pietro Sambi, na época embaixador vaticano nos EUA, referindo-se a uma carta anterior em que as restrições vaticanas eram esboçadas. McCarrick disse que queria discutir alguns pontos dessa carta, “tendo-a compartilhado com o meu arcebispo”, referindo-se a Wuerl.

Em comentários ao Crux, no entanto, um porta-voz de Wuerl negou que ele soubesse das restrições. A clara implicação é de que McCarrick estava mentindo em sua carta a Sambi, deturpando a extensão daquilo sobre o que Wuerl estava informado e ao qual apoiava.

Neste momento, trata-se basicamente de um impasse, deixando aos observadores que escolham entre duas figuras, cada uma das quais com motivos aparentes para ser menos do que totalmente sincera. A única maneira de realmente resolver isso seria vasculhar os arquivos do Vaticano, da embaixada papal em Washington e da Arquidiocese de Washington para ver que outras correspondências, memorandos etc. podem estar escondendo e se algum deles fala sobre o que Wuerl sabia.

A outra questão pendente, igualmente clara, é o que o Papa Francisco sabia.

Falando pela primeira vez com sua própria voz sobre essa questão, pelo menos em público, Francisco disse categoricamente a Alazraki que não sabia de nada. Isso contradiz a sensacional acusação feita em agosto passado pelo arcebispo italiano Carlo Maria Viganò, outro ex-embaixador papal nos Estados Unidos, que havia informado Francisco pessoalmente sobre McCarrick em junho de 2013.

Referindo-se especificamente àquela suposta conversa, Francisco disse a Alazraki: “Eu não me lembro se ele me falou disso”, embora tenha imediatamente minimizado se essa conversa com Viganò ocorreu ou não. “Se é verdade ou não, nem ideia!”

Viganò interrompeu seu exílio autoimposto para acusar o papa de estar mentindo.

“Ele finge não se lembrar do que eu disse sobre McCarrick e finge que não foi ele que me perguntou sobre McCarrick em primeiro lugar”, disse Viganò ao LifeSiteNews, que geralmente é considerado uma publicação com sentimentos hostis ao papa.

Aqui, novamente, temos um impasse básico – e, novamente, a única maneira de resolvê-lo seria o exame aprofundado e independente dos registros. O Vaticano prometeu tal revisão no início de outubro, mas até o momento não há nenhuma indicação de quando podemos esperar que seus resultados sejam tornados públicos.

O que ambas as questões pendentes capturam ordenadamente é a parte mais significativa dos assuntos inacabados dos escândalos de abuso: a responsabilização não pelo crime, mas pelo acobertamento.

Ainda em 2002, John Geoghan, de Boston, era a encarnação perfeita dos horrores associados ao crime de abuso sexual: um estuprador infantil em série, que acabou sendo acusado de abuso envolvendo mais de 130 meninos. A repulsa gerada pelas revelações de Geoghan desencadeou a primeira onda massiva da crise nos Estados Unidos.

Hoje, McCarrick é também a encarnação perfeita das percepções de um encobrimento. Estamos falando de um eclesiástico em torno do qual havia rumores de má conduta desde pelo menos os anos 1990, mas que continuou subindo na carreira eclesiástica e que levou uma vida boa na aposentadoria, mesmo depois que o Vaticano impôs restrições aparentemente secretas.

A questão inevitável é como isso foi possível – inclusive se certas autoridades deliberadamente ignoraram as indicações de que algo estava errado, porque, em certo sentido, elas acharam McCarrick útil, ou simplesmente porque não queriam desafiar alguém tão alto na cadeia alimentar (essa questão, a propósito, aplica-se igualmente bem ao próprio Viganò, já que, como embaixador papal, ele também foi testemunha do aparente desrespeito de McCarrick às restrições vaticanas).

Resta saber o que o Vaticano optará por tornar público dos seus arquivos sobre McCarrick – se é que optará – e se as investigações nas quatro dioceses estadunidenses em que ele atuou – Nova York; Metuchen; Newark; e Washington – acrescentarão qualquer coisa aos registros.

Falando à imprensa no dia 29 de maio, o secretário de Estado vaticano, Pietro Parolin, insistiu que a Santa Sé “disse muitas vezes que está fazendo uma investigação, que consiste em reunir toda a documentação referente a esse caso”.

Parolin não fez nenhum esclarecimento sobre a sua própria consciência das restrições ou do cronograma da investigação, dizendo apenas que, “assim que esse trabalho estiver pronto, haverá uma declaração”.

Enquanto as questões sobre a responsabilização não forem respondidas, é improvável que muitas pessoas considerem o caso de McCarrick como encerrado, independentemente de quantas altas autoridades protestem que não sabiam.

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