Raúl Zibechi e as políticas neoliberais em torno da habitação

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15 Maio 2019

Entrevistamos o cientista político uruguaio Raúl Zibechi sobre as políticas neoliberais de habitação. Aproveitando sua visita a Valência, em março passado, para participar de uma conversa-colóquio no CSOA L'Horta, levantamos questões sobre urbanismo, turismo e gentrificação que afetam nossos bairros atualmente.

A entrevista é da Rádio Malva, publicada por Rebelión, 14-05-2019. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Em sua exposição, você falou sobre as políticas neoliberais que estão ocorrendo em torno da habitação, tanto na América Latina como na Europa. Como funcionam essas políticas?

As políticas neoliberais querem mercantilizar tudo, inclusive a vida. Falamos de um modelo especulativo que não tolera a diversidade, que tenta homogeneizar tudo para poder comercializar melhor, converter tudo em produtos similares para vendê-los mais facilmente. No caso específico da habitação, especula-se com a terra urbana. Tentam redesenhar áreas centrais que há 30 ou 40 anos eram periferias e agora foram revalorizadas, por isso querem expulsar as pessoas para fazer negócios e construir grandes edifícios. Famílias são expulsas com o aumento do aluguel ou como me disseram que fizeram em Cabanyal, diretamente com escavadeiras.

Gentrificação e turistificação são as palavras que aparecem continuamente quando falamos sobre esses processos. Em nosso país, o desenvolvimentismo focado no turismo é uma política que vem de décadas atrás e que transforma bairros e cidades em vitrines para o visitante.

Esses processos causam o uso excessivo das áreas mais centrais, as áreas monumentais ou de praia, e efetivamente as convertem em grandes vitrines. O número de apartamentos turísticos aumenta, os serviços se tornam mais caros, as casas, os preços dos aluguéis, as áreas bem conservadas são promovidas, com bons transportes e ótimos restaurantes, e o restante da cidade é deixado em uma situação muito mais vulnerável. Finalmente, aqueles que se beneficiam do turismo são as companhias aéreas, os grandes hoteleiros, é o mesmo capital financeiro que está envolvido nos processos de gentrificação.

No entanto, o turismo é sempre vendido para nós como uma fonte irrenunciável de riqueza.

Todo o sistema neoliberal é baseado em propaganda enganosa, seja para construir uma represa em uma comunidade indígena ou um hotel na praia, é sempre prometido que isso gerará emprego. O turismo gera empregos temporários e precários, com baixos salários e más condições de trabalho. É muito difícil encontrar na hotelaria um emprego fixo, bem remunerado e com boas condições. Em geral, o modelo atual causa uma enorme precariedade de vida em todos os níveis, não apenas no nível do emprego.

Esse mesmo modelo também tem seu impacto ambiental negativo, já que com o turismo se sobreutilizam os recursos hídricos, como por exemplo está acontecendo em Maiorca, onde a qualidade da água é muito ruim. É a lógica do extrativismo dos recursos em favor do grande capital. Já se fala de extrativismo urbano. Se não conseguirmos parar esse modelo, estaremos encurralados nas periferias das cidades em péssimas condições.

Os movimentos sociais que lutam contra esses fenômenos de gentrificação e turistificação em seus bairros reivindicam o direito à moradia decente, algo que consideramos justiça. No entanto, neste mesmo sentido, na América Latina, temos lutas pelo direito ao território, uma filosofia com uma lógica mais comum que, em certa medida, contrasta com o sentido individualista que o direito à moradia implica.

Na minha opinião, o conceito de território é fundamental. Toda a habitação é construída em terra, uma terra, não podemos legislar sobre o direito à moradia sem lidar com a terra urbana que é o princípio de acesso a uma casa. Em muitos lugares da América Latina, se entende que as casas são assentadas em territórios, vivemos em comunidades e o território deve nos permitir permanecer uma comunidade.

A relação dos seres humanos com o território é importante para garantir a vida. Quem vive e faz parte de um território vai cuidar disso. Dizemos que o território não nos pertence, mas que pertencemos ao território. O território não é para usufruto, é para sustentá-lo. O território é água, comida, terra, vida, comunidade, é tudo o que gira em torno dessa coexistência. Nenhuma família pode enfrentar o modelo individualmente, temos que fazer isso em comunidade.

A vida em comunidade e o enraizamento em um território é o que nos permite falar da identidade de um bairro. Acontece que quando falamos em preservar essa identidade, somos rapidamente acusados de oposição ao progresso.

No debate sobre o desenvolvimento que os grandes empresários defendem, nos deparamos com muitos setores populares e trabalhadores que pensam que o consumismo, a modernidade e o progresso são coisas boas. Na última crise, muitas pessoas passaram a repensar as coisas, mas há muito trabalho a ser feito nesse sentido.

O sistema é muito forte e a cultura do consumo e a ideia de modernidade têm muito peso. Ainda serão necessárias muitas crises e fracassos do sistema para que aspiremos a uma vida simples, uma vida boa, uma boa qualidade de vida sem muito consumo, sem carros.

Ontem à noite, em Benimaclet, levamos vinte minutos para estacionar e mais dez para irmos de onde encontramos um lugar até o CSB Terra. Qual a vantagem de ir de carro, se finalmente demoramos mais para chegar aos locais?

Tem explicado como na América Latina muitos governos progressistas promoveram políticas de desenvolvimento, nas últimas décadas, que foram muito prejudiciais. Temos o caso do PEC no bairro de Cabanyal ou do PAI de Benimaclet, com um governo progressista e vários projetos similares no resto da cidade.

A questão comum entre a esquerda e a direita é que nenhuma das duas questiona o modelo de desenvolvimento. A esquerda segue o modelo neoliberal. Apresentam pautas para aliviá-lo, mas não para questionar o modelo. Se isso não for questionado, veremos uma crescente polarização social, como já acontece em várias partes do mundo.

O 1% está ficando cada vez mais rico e a desigualdade continua crescendo. Nesta polarização social, nota-se uma polarização política. Aí vemos como a extrema direita aparece. Além disso, o modelo neoliberal gera uma sociedade cada vez mais militarizada, onde o protesto é criminalizado, a polícia tem grande poder e, em um julgamento, sua palavra vale sempre mais do que a de um cidadão.

Se as instituições jogam a nosso favor, melhor, mas o jogador não é o partido, nem o político, nem o deputado. Eles podem nos favorecer ou prejudicar, mas o ator principal é o povo. O que fizermos é o decisivo, se tivermos apoio de cima, melhor. Os políticos são como o vento que pode soprar ou não a nosso favor, mas quem deve pilotar a nave é o povo.

Ocasionalmente, há uma tendência a se desmobilizar quando os governos de esquerda estão no poder.

Precisamos fazer mais coisas além de nos mobilizar, não apenas nos manifestar, mas sermos capazes de criar novos espaços, próprios. Não basta reivindicar o direito à moradia, devemos começar a criar soluções por nós mesmos, isso é decisivo, não podemos depender da classe política.

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