Como funciona a fábrica dos mártires. Artigo de Alberto Melloni

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29 Abril 2019

“Quem morre pela fé entra por direito próprio nas fileiras dos justos?”

A reflexão é do historiador italiano Alberto Melloni, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha, em artigo publicado por La Repubblica, 28-04-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

Depois do massacre de cristãos nos dias da Páscoa no Sri Lanka, retorna uma pergunta que atravessa a história (e a política) da Igreja desde as origens: quem morre pela fé entra por direito próprio na fileira dos justos?

A fila de coptas e evangélicos, siríacos e protestantes, ortodoxos e católicos mortos enquanto rezavam aumentou com os massacres da Páscoa no Sri Lanka: para todos era evidente e imediato falar de “mártires”. Palavra de origem grega que indica as testemunhas da fé marcadas pela mansidão de Cristo, independentemente de quem as mata, e que reagrupa uma “nuvem” de indivíduos: na tradição bíblica, os nomes de pessoas realmente têm expressividade, porque todos têm a ver com o nome impronunciável de Deus.

Um dos livros do profeta Isaías começa com a visão da redenção (Is 56, 5), em que, a todos os justos, será dado “um posto e um nome” (“Yad Vashem”, como diz a epígrafe do museu da Shoá de Jerusalém): porque quem não tem nome está realmente perdido. Jesus faz parte dessa tradição: os seus discípulos mais próximos rezam: “santificado seja o vosso Nome”, e a tradição evangélica conserva uma memória nítida dos seus nomes.

A comunidade cristã – mesmo depois do distanciamento do judaísmo – associa aos nomes daqueles “apóstolos” mortos pela fé ou na fé também os nomes dos outros mártires, dos quais escritos são conhecidos (por exemplo, Inácio ou Policarpo) ou dos quais se transmite o relato da morte. Uma narrativa que se torna gênero literário específico para documentar a repetição nos mártires da mansidão de Jesus (e que tem um paralelo judaico no Midrash Eleh Ezkerah sobre o martírio dos 10 rabinos nos tempos de Adriano).

Os nomes dos mártires cristãos entram na liturgia (o cânone romano os repete em uma primeira série que começa com “Lino, Cleto, Clemente, Sisto, Cornélio, Cipriano etc.” e uma segunda que termina com “Ágata, Lúcia, Inês, Cecília, Anastácia”). Esses nomes, depois, entram em um calendário que fixa a memória do seu “natal no céu” e, posteriormente, em uma sequência que se tornou mais densa pelo fato de que, ao lado dos mártires, são acrescentados os santos identificados pelo culto das Igrejas ou dos concílios, antes que o papado advogasse para si o ato de canonização.

Nasceu assim o "martirológio": isto é, um calendário de mártires e santos. Conhecemos um siríaco desde o século III-IV, do qual derivam os gregos de Nicomédia e os que dariam origem ao Synaxarion da Igreja grega e ao Menologion da Rússia.

A tradição ítalo-gaulesa produziria outros martirológios: a do século V atribuído a Jerônimo e depois as suas refeituras, cada vez mais atentas em recordar um pedaço de vida para cada nome. Quanto a muitos outros aspectos, a reforma tridentina marcará uma virada decisiva: apagará esses patrimônios para impor um martirológio “romano” uniforme, promulgado por Gregório XIII em 1584 com base no trabalho histórico de Cesare Baronio – e depois remodelado pelos sucessores com a exigência de suprimir as figuras lendárias e integrar cada data com os novos nomes e as suas vidas. Exigência que percorreu a Igreja Católica até o Concílio Vaticano II, que dispôs uma reforma: o novo martirológio seria promulgado em 2001 com 6.538 nomes empilhados em 365 dias, para acolher as milhares de canonizações e beatificações de João Paulo II.

Uma abundância que, no fim, evidencia apenas as canonizações adiadas mesmo na presença de um martírio flagrante: como o de Dom Romero, morto ao altar, em San Salvador, em 1980; ou o dos trapistas de Tibhirine, decapitados na Argélia da guerra civil em 1996.

Porém, já então ficava evidente que o martirológio não podia mais ser o que fora: grande demais e, ao mesmo tempo, pequeno demais para acolher aquela nuvem de assassinados do século XX que o próprio Wojtyla, em uma liturgia tocante e constrangedora do ano 2000, em frente ao Coliseu, indicou como “testemunhas”. Um constrangimento que mostrava que havia três fatos contra os quais non valet argumentum.

O primeiro é que, diante do martírio, o povo de Deus – ao qual até o direito vigente da Igreja Católica reconhece um papel – se move em virtude do sensus fidei. Tanto no catolicismo, onde o Papa Francisco sanou as omissões e estabeleceu uma “quarta via” da santidade; quanto entre as Igrejas que já consideram Elizaveta Fedrovna ou Dietrich Bonhöffer ou Martin Luther King ou Oscar A. Romero como parte da própria tradição.

Pois – e este é o segundo fato – os assassinos dos cristãos (sejam ateus ou de outra ideologia religiosa) não distinguem com base na Igreja ou na distância teológica entre Igrejas. Eles matam com base em uma equivalência ideológica – cristianismo igual a Ocidente – que só é vista por eles e por aquele mundo ultraconservador pronto para recorrer à violência para fins políticos ou de ódio político.

Mas aqueles mártires que são de todos, crentes e não crentes, não pedem apenas que as Igrejas tenham um martirológio ecumênico, como o do Conselho Mundial de Igrejas, no qual os monges de Bose também trabalham. Eles pedem que se esclareça o quanto a divisão cristã (que criou muitos mártires recíprocos, começando em Ulster ou na Ucrânia) faz parte do ódio que intoxica o mundo e o que mais é preciso para uma comunhão plena que reconheça o Cristo no mesmo cálice, na mesma palavra e na carne do pobre.

Por fim, o terceiro fato: há um martírio que vê cristãos mortos não por ódio “à fé”, mas a um senso de justiça nutrido pelo Evangelho, como se entende pensando na história de Vittorio Bachelet, de Rosario Livatino, de Piersanti Mattarella e de tantos outros. E se prolonga nos milhares de fiéis, cristãos e não cristãos, que sofrem a violência com aquela mansidão consciente que é o traço “crístico”, antes ainda que cristão, do martírio.

O martirológio da humanidade em busca da justiça compõe uma espécie de livro dos livros que é de todos e de ninguém: e que mede toda pessoa com a mansa severidade do sangue inocente derramado por nada, como sempre.

Nota de IHU On-Line:

O Instituto Humanitas Unisinos - IHU publica na sua página eletrônica o Martirológio Latino-Americano. Confira aqui.

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