A política do desprezo e o efeito-presépio. Artigo de Andrea Grillo

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05 Dezembro 2018

“O presépio significa que os últimos, estrangeiros e irregulares reconhecem Jesus, enquanto governadores, ministros e residentes regulares tentam matá-lo. Exatamente como, na Páscoa, quem sabe reconhecer Jesus são uma mulher de muitos maridos, uma pessoa deficiente grave como o cego de nascença e um cadáver como Lázaro, enquanto os poderosos o matam sem piedade. Essas são as categorias privilegiadas da Igreja!”

A opinião é do teólogo italiano Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, em Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Justina, em Pádua, em artigo publicado por Come Se Non, 03-12-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Há, nas tradições, lógicas profundas e complexas, que devem ser respeitadas justamente na sua complexidade. A tradição cristã, e em particular a católico-romana, também não foge a essas lógicas.

Há quase 70 anos, um pároco pôs fogo no Papai Noel, na praça da igreja, para “defender” o menino Jesus dos “cultos pagãos”. Esse episódio deu o impulso a C. Lévi-Strauss para escrever um belo livreto, intitulado “O suplício do Papai Noel”, em que ele trazia à tona a profunda continuidade entre o culto pagão e o culto cristão, baseado na antiga festa do Sol Invictus, em que os temas da luz, das plantas sempre verdes e dos “velhos/mortos” e das “crianças/bebês” se entrelaçam estruturalmente.

Ora, neste contexto, quando a polêmica se torna vazia e formal, podemos encontrar o paradoxo de que políticos sem verdadeiro pano de fundo de fé, cuja sensibilidade para com o estrangeiro é proverbial, tornam-se os “defensores do presépio” (e do crucifixo), pretendendo com que pastores e cristãos sejam vistos como “inimigos do povo”.

A questão decisiva, em tudo isso, é aquilo que, há muito tempo, eu chamo de “efeito-presépio”. Gostaria de tentar explicá-lo brevemente.

Em todas as grandes tradições, de fato, as passagens decisivas – no nosso caso católico, o Natal e a Páscoa – tornam-se “lugares de reconhecimento” não apenas religioso, mas também cultural e social. “Montar o presépio” no Natal e “visitar os túmulos” na Páscoa tornam-se lugares de identidade.

Mas, precisamente nessa passagem, as tradições se põem em risco, porque concentram em um ponto todas as “mensagens” e, justamente por causa dessa “sobrecarga”, correm o risco de perder o seu sentido.

O presépio e o crucifixo tornam-se, assim, meros símbolos de identidade, em que a comunidade se identifica “contra alguém”, contradizendo de modo vergonhoso o sentido do próprio símbolo.

O presépio, de modo exemplar, é um caso típico dessa “tentação”. Presépio diz, em latim, “manjedoura” e constitui a “versão de Lucas” do mostrar-se do Salvador. Que se revela aos pastores irregulares, e não aos bons fiéis regulares da época. A tensão, naquele texto de Lucas, está entre a grandeza do Senhor e a pequenez humana que só pode reconhecê-lo na irregularidade dos pastores.

Na versão de Mateus, por sua vez, a dose é ainda mais forte: a tensão é entre a estrela e os magos que a seguem, na sua condição de estrangeiros, e a hostilidade visceral dos residentes.

O “presépio”, misturando todas essas mensagens, corre o risco de não aumentar, mas de diminuir a força da tradição, reduzindo-a a um “bibelô” burguês. O presépio significa que os últimos, estrangeiros e irregulares reconhecem Jesus, enquanto governadores, ministros e residentes regulares tentam matá-lo. Exatamente como, na Páscoa, quem sabe reconhecer Jesus são uma mulher de muitos maridos, uma pessoa deficiente grave como o cego de nascença e um cadáver como Lázaro, enquanto os poderosos o matam sem piedade. Essas são as categorias privilegiadas da Igreja!

O que o mundo católico deve pedir, com palavras pacatas, é um passo à frente ao assumir o significado autêntico do presépio e do crucifixo, pedindo que os políticos deem um “passo atrás” sobre temas que não podem ser inseridos na torpe especulação política.

Eis como o bispo de Pádua disse isso, há alguns anos: “Dar um passo atrás não significa criar o vácuo ou favorecer intransigências laicistas, mas sim encontrar nas tradições, que nos pertencem e alimentam a nossa fé, germens de diálogo. O Natal, nesse sentido, é um exemplo extraordinário, uma oportunidade de encontro com os muçulmanos, que reconhecem em Jesus um profeta e veneram Maria”.

Somente com um pequeno passo atrás se dá um grande passo para a frente. Na pura tradição cristã. E não é por acaso que os políticos do ódio e da indiferença opõem a isso uma resistência visceral.

Querem expulsar os estrangeiros e os crucificados da Itália e ter em cada escritório crucifixos e presépios como bibelôs? Isso é simplesmente repugnante. Das duas, uma: ou enchemos de símbolos natalícios e pascais uma terra que saiba se demonstrar acolhedora e não indiferente; ou optamos por expulsar quem não tem casa e todos os crucificados da terra. Mas, pelo menos um mínimo de pudor, tentemos corar diante dos símbolos daquilo que não aceitamos e queremos apenas combater.

É óbvio que, para quem só joga com o ódio e o desprezo, o presépio e o crucifixo também podem se tornar não instrumentos simbólicos de comunhão, mas instrumentos diabólicos de desprezo. A esse uso distorcido e perverso dos grandes símbolos cristãos, sempre nos oporemos com absoluta determinação.

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