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09 Novembro 2018

A esmola e a hospitalidade são valores prescritos tanto na Torá como no Evangelho. Ambas são mensuradas pela sinceridade do dom e do acolhimento, e não pelas somas de dinheiro despendido nem pelos recursos empregados. A liturgia da Palavra põe-nos diante de duas mulheres pobres que deram tudo o que possuíam para viver. Magníficos exemplos para nós, que celebramos Aquele que nos deu até mesmo a sua própria vida. 

A reflexão é de Marcel Domergue (+1922-2015), sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando o evangelho do 32º Domingo do Tempo Comum, do Ciclo B (11 de novembro de 2018). A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara.

Referências bíblicas
1ª leitura::«A mulher fez como Elias lhe tinha dito, e comeram, ele, ela e sua casa, durante muito tempo» (1 Reis 17,10-16).
Salmo: Sl. 145(146) - R/ Bendize, minha alma, bendize ao Senhor!
2ª leitura:: «Cristo se ofereceu uma vez por todas para tirar os pecados da multidão» (Hebreus 9,24-28).
Evangelho:: «Esta pobre viúva deu mais do que todos os outros» (Marcos 12,38-44).

 

Os outros nos fazem existir

A personagem da viúva aparece com frequência na Bíblia. Representa a solidão afetiva e, mais que isso, o ser humano indefeso, à mercê de tudo e de todos, além de não ter recursos. "A viúva e o órfão" praticamente são sem direitos; dependem, portanto, da boa vontade dos seus vizinhos. Mesmo assim Elias, na 1ª leitura, vendo uma viúva apanhar lenha, chama por ela, não para lhe dar alguma coisa, mas para pedir-lhe algo. A mulher, contudo, dispõe somente de cartas ruins: não tem marido e tem um filho para criar. E tudo isso num tempo de muita fome.

Mas se o profeta pede à viúva para alimentá-lo primeiro, avançando sobre o pouco que lhe resta para viver, não é por egoísmo. É para que ela deixe de contar com as suas reservas e passe a confiar totalmente na palavra que vem de Deus. "Não tenhas medo", o profeta lhe diz. Ela deve parar de ter os olhos fitos na morte, de acreditar na morte que deveria seguir-se à consumação das suas últimas reservas, e abri-los para o lado da vida. Uma vida que vem de outro lugar. E a viúva de Sarepta segue, então, este itinerário. É sempre a mesma mensagem: dar a própria vida para salvá-la; mesmo se este "dar" assuma primeiro um aspecto de perda de si mesmo. É disto que não devemos ter medo.

Dar de si mesmo para fazer com que outras pessoas vivam pode servir como definição do processo de geração. O "esquema" é o mesmo. Este é o preço da existência da humanidade. No fundo, se cada um tivesse tudo de que precisa, se não fôssemos obrigados a contar com os outros para viver, o intercâmbio, a partilha e o amor não seriam mais os constituintes necessários da humanidade.

 

Quem dá é quem ganha

A necessidade do outro, seja o outro a quem se dá seja aquele que nos dá, significa a nossa relação com Deus. Deus é amor. E onde não existe amor Deus está ausente; o que significa somente haver lugar para a morte. Nada de fato existe senão pela presença de Deus. Um mundo que fosse apenas justaposição de indivíduos autônomos não seria imagem de Deus, portanto, não existiria. É por sermos passagem para os outros que, todos juntos, somos a expressão do Pai, do Filho e do Espírito. Deus é união e temos de nos fazer união.

O que é fundamental não são as necessidades daqueles a quem nos damos, necessidades nem sempre tão evidentes, mas a necessidade que temos de dar para simplesmente existirmos. Vamos reler o evangelho: os escribas do versículo 38, que exibem suas riquezas materiais e espirituais à luz do dia, não retiram seus ganhos do orçamento alimentado pelas esmolas da sala de tesouro do Templo? Sem dúvida, pois Jesus diz que “eles devoram as casas das viúvas”. Neste caso, é a estes ricos que a viúva vai dar "tudo o que ela tem para viver". Ela, no entanto, é quem sai ganhando: ao dar a sua vida, ela a salva, enquanto os que dela a tomam (versículo 40), perdem-na. É o que significa o anúncio da condenação. Mas não esqueçamos que Cristo irá tomar sobre si esta condenação que deveria impedir o rico de entrar no Reino (versículos 23-27 deste mesmo capítulo 10).

 

A viúva habitada pelo Deus que se doa

Quando Jesus diz que a viúva de Sarepta deu tudo o que possuía para viver, provavelmente não é preciso que tomemos esta fórmula em sentido estritamente material. Aliás, como acabamos de dizer, esta mulher tirou "da sua indigência", em oposição aos que tiraram do "supérfluo". Mesmo se não lhe restasse senão "um punhado de farinha numa vasilha e um pouco de azeite na jarra" (1ª leitura), ela renunciou à sua segurança econômica; pôs a sua sobrevivência em perigo. Para isto foi preciso, de um modo ou outro, ter ela escutado o "não tenha medo" da 1ª leitura. Havia entrado, portanto, no campo da fé: tinha de alguma forma, mudado de universo. Um novo nascimento, para uma vida ao abrigo da perspectiva da morte. Daí em diante, está na dependência vital de uma generosidade exterior a ela mesma. Generosidade dos outros pela qual passa e se revela a generosidade divina, a única que nos liberta da morte.

Mas quem deu a sua vida sem nenhuma reserva? Quem se despojou de suas vestes, de sua honra, de sua própria vida? Contrariamente ao Sumo Sacerdote, que vinha oferecer um sangue alheio, quem deu o seu próprio sangue? Os escribas construíram a sua notoriedade e o seu prestígio sobre os bens das viúvas. Enquanto o Cristo entra na desonra, esposando a nossa miséria. O fato de que a viúva de Sarepta tivesse dado tudo o que tinha para viver mostra que o Cristo, secretamente, já está em ação desde o começo do mundo, através do dom de si mesmo realizado por uma multidão de homens e mulheres. Pela cruz de Cristo nos é revelada a plenitude do amor de Deus já figurada em suas criaturas. 

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