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12 Outubro 2018

O autor do Livro da Sabedoria, bem como o salmista, tecem louvores à Sabedoria, fruto de intensa busca constante e amorosa. O evangelho, por sua vez, ilustra até que ponto o apego às riquezas se torna um obstáculo a esta busca. Mesmo porque qualquer projeto pode reduzir-se a um nada, se "Só uma coisa te falta". Mas, então, quem poderá se salvar? Como obter a salvação?

A reflexão é de Marcel Domergue (+1922-2015), sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando o evangelho do 28º Domingo do Tempo Comum, do Ciclo B (15 de outubro de 2018). A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara.

Referências bíblicas
1ª leitura: «Preferi a Sabedoria e, em comparação com ela, julguei sem valor a riqueza» (Sabedoria 7,7-11).
Salmo: Sl.89(90) R/ Saciai-nos, ó Senhor, com vosso amor, e exultaremos de alegria!
2ª leitura: «A palavra de Deus julga os pensamentos e intenções do coração» (Hebreus 4,12-13).
Evangelho: «Vende tudo o que tens e dá aos pobres... Depois vem e segue-me!» (Marcos 10,17-30).

"Não sei o que quero"

Nos comentários às leituras do domingo passado, falamos da ambiguidade do desejo humano. São raras as pessoas que desejam algo "acima de tudo". Um destes é o Sábio da 1ª leitura, identificado a Salomão. Preferiu a Sabedoria à saúde, à beleza e à luz. No Novo Testamento, esta Sabedoria é o próprio Cristo. O evangelho põe-nos diante de um homem que acredita desejar a "vida eterna". Suas primeiras palavras já revelam a duplicidade do seu desejo: herdeiro de muitos bens, deseja mais outra "herança", a da vida eterna. A sequência do texto nos revelará qual de seus dois desejos será o mais forte: se conservar sua riqueza e seu status social ou deixar tudo para seguir Jesus. Ele, de início, ignora até mesmo para onde realmente vai seu desejo. Quando o descobre, sendo incapaz de superá-lo, vai embora «cheio de tristeza». Nesta passagem ficamos sabendo que a riqueza sozinha é incapaz de trazer felicidade. E que para tal ela nem mesmo é necessária. O que não significa que a miséria por si mesma possa ser benéfica. Riqueza ou indigência nada podem a nosso favor. O que nos traz a felicidade é poder manter com os outros uma relação verdadeira. Relação que, se plenamente bem sucedida, equivale a "seguir o Cristo". Pois então, de fato, prefere-se o amor a tudo mais. Mas o amor de verdade, amor autêntico, se funda em algo mais profundo, que é a fé no outro.

Aquilo que falta

O evangelho do domingo passado referiu-se à passagem do domínio da Lei (o que Moisés prescreveu) àquele da natureza das coisas (o ser humano tal como Deus o criou). Na história do homem rico, temos uma trajetória semelhante: Jesus primeiro o convida a seguir a Lei, os "mandamentos". Depois, num segundo momento, convida-o à superação da Lei, numa resposta de amor ao amor com que o Cristo olhou para ele (versículo 21). Mas, para isto, este homem, que representa todos nós, deve deixar o apego a tudo o que tem, bem como deixar seu pai e sua mãe, para fazer-se um só com o Ser amado. Preferir Cristo a todo o resto e unir-se a Ele, para segui-lo: esta é a aposta; é isto entrar no Reino, na "vida eterna". Temos de passar da preocupação "de estar em ordem com a nossa consciência" à familiaridade com esta Pessoa que nos habita e transforma o nosso ser tanto quanto o permitimos. Seguiremos então observando a Lei, mas não mais em nome da Lei. O amor é que será o motor das nossas vidas. Amor a Quem nos ama e, n’Ele, amor a todos os outros que Ele mesmo pôs no mundo e a quem Ele "esposa". O homem deste relato preferiu a riqueza ao amor. O Cristo foi quem o fez descobrir isto; Ele, que é esta Palavra «mais cortante do que qualquer espada de dois gumes». A Palavra que atravessa nossa psicologia de superfície e todas as suas ilusões, para colocar a nu as mais secretas intenções do nosso coração, conforme diz a 2ª leitura. Só o amor pode nos fazer superar a tristeza, que riqueza nenhuma conseguiria extirpar.

A Deus, tudo é possível

Por que é tão difícil "rico" entrar no Reino, nos domínios do Cristo? Porque a obsessão pela riqueza, material, psicológica, intelectual ou qualquer outra, sinaliza um medo fundamental que é o contrário da fé. Medo de não ser o bastante, de não "valer", de não ser importante... Não acreditamos que Deus nos queira assim como somos, e procuramos provar, para nós e para os outros, que somos alguém. Ligamo-nos, então, ao que nos faz aparecer e saímos da nossa verdade de filhos de Deus. Fechamos nossas portas para o que é a vida eterna. A fim de alcançar esta vida, é preciso passar por um novo nascimento. E, da mesma forma que para todo nascimento, só podemos vir à luz despidos, despojados. O que na prática significa preferir somente a Deus e tudo o que Ele, em seu Filho Jesus Cristo, nos dá. Fora isto, existe somente idolatria. O que pensávamos ser capaz de nos fazer felizes, finalmente só nos traz tristeza (versículo 22). Daí então podemos compreender a aflição dos discípulos: "Quem pode ser salvo?", perguntavam-se. Aparentemente, ninguém. Olhando as trajetórias de nossas condutas humanas, é forçoso constatar que todas vão dar no nada da morte, desta morte que nos despoja de toda riqueza ilusória. E, portanto, é impossível para nós alcançar a Vida, e muitos de nós estão a caminho das lágrimas e do ranger de dentes. Mas é aí que, então, Deus nos acolhe para uma nova criação. Em Cristo crucificado, Ele é quem se despoja de tudo, até da própria vida, para nos abrir as portas de um mundo novo.

 

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