Dilatar a política. Encontro com Alana Moraes

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Por: Jonas Jorge da Silva | 21 Agosto 2018

Ousar repensar as formas de fazer política é crucial e insurgente. Em um cenário de crise aguda do atual modelo de democracia representativa, encurralado pelos ditames neoliberais, ficam patentes as limitações de uma feitura política que já não é mais capaz de assinalar algo novo contra problemas velhos e persistentes na realidade brasileira e mundial. Impõe-se, então, debater Novas experiências de politização, tema do quarto encontro pelo ciclo de debates Cenários para o Brasil Contemporâneo, realizado no último dia 18 de agosto, pelo CEPAT, em parceria com Núcleo de Direitos Humanos da PUCPR, Cáritas - Regional Paraná, Comunidades de Vida Cristã (CVX) - Regional Sul e Instituto Humanitas UnisinosIHU.

A antropóloga Alana Moraes (UFRJ), que pesquisa novas formas de politização no Brasil a partir da experiência das ocupações urbanas do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) na periferia de São Paulo, apresentou uma radiografia da crise política atual, apontando seus desafios e possibilidades.

Em um cenário de disputas intensas sobre as sensibilidades, principalmente nesse período eleitoral, está em andamento a truculência de um projeto fascista de sociedade em contraposição aos que resistem e ousam pensar em novas formas de fazer política.

As práticas fascistas ficam escancaradas no predomínio da narrativa autoritária, racista e heteronormativa daqueles que içam a bandeira neoliberal a partir de um modelo de gestão técnica da política, buscando invisibilizar suas contradições latentes. Para que essa máquina funcione, entra em pleno funcionamento o que o pensador camaronês Achille Mbembe chama de a necropolítica, que institui zonas onde há corpos que são mais matáveis que outros, a partir de uma política de desaparecimento e extermínio. Trata-se de uma racionalidade política que parte de um processo de violação de direitos e desumanização que só se encerra, em seu propósito final, quando chega ao extermínio e aniquilação total daqueles e daquelas considerados menos humanos que outros (negros, indígenas, gays, lésbicas, mulheres, etc.).

Debate sobre novas experiências de politização (Foto: Ana Paula Abranoski)

Para Alana Moraes, em Jair Bolsonaro, por exemplo, a defesa destas práticas fascistas fica claramente escancarada, mas o caso de Geraldo Alckmin não é diferente. Por trás de seu discurso neoliberal, com a preponderância dos jargões da gestão técnica, tem atuado uma das polícias que mais mata no Brasil.

Em sua análise, Moraes destrincha o neoliberalismo, que mais do que um modelo político-econômico é uma máquina de produção de subjetividades, que fragiliza os vínculos e relações sociais, provocando um distanciamento entre a vida das pessoas e a política institucional.

Sendo assim, em sua pesquisa-luta, Moraes aponta para a novidade que vem das ocupações urbanas, da luta contra a violência e o extermínio, do modo como ocorre a reprodução da vida e a articulação das mulheres na periferia. A partir de um pragmatismo convocado pela própria realidade, emergem novas possibilidades políticas para a vida das pessoas. São destas experiências que surgem pistas para se pensar a política.

Das ocupações ecoam dimensões da vida que são invisibilizadas em outros contextos como, por exemplo, as formas de organização das tarefas coletivas do cotidiano: cozinhar, limpar, cuidar uns dos outros. Nesses espaços, há uma ruptura da separação entre o doméstico e o público, colocando em xeque as fronteiras erguidas pelo modelo hegemônico das famílias heteropatriarcais. Há um verdadeiro dilatamento do que se entende por política.

Desse modo, as fronteiras de gênero são abaladas. Se de um modo geral, a política é ainda uma língua majoritariamente masculina, na realidade das periferias ocorre uma incessante produção de políticas no feminino. As mulheres são as primeiras a clamar contra o extermínio de seus filhos, a organizar novos espaços de compartilhamento de cuidados uns com os outros. Sendo assim, respondem aos dispositivos autoritários do Estado com a força que nasce das vulnerabilidades patentes em seu cotidiano. O rompimento das fronteiras de gênero representa um golpe na espinha dorsal do capitalismo patriarcal.

Nesses espaços de politização que o Estado insiste em invisibilizar, Alana Moraes detecta uma luta pela própria sobrevivência, disposta nas seguintes questões: “Como nos manter vivos? Como produzir outros modos de vida?”.

Para manter viva a força que vem da luta e resistência popular, é preciso sair da mera linguagem da gestão do Estado, para a qual o Partido dos Trabalhadores arrastou muitos movimentos e organizações em seus anos no poder. Moraes considera que para aprender com as experiências de luta é preciso abandonar a pretensão de ser portador de uma consciência que se acredita ausente nas periferias. É emergencial construir alianças, reconhecendo o potencial desses espaços como produtores de uma nova imaginação política frente ao esgotamento presente em outras esferas da sociedade.

Se o neoliberalismo, com sua disciplina da dívida e fragilização dos vínculos sociais, produz a paralisia dos corpos e investe contra as políticas do comum, nas experiências tidas como periféricas, como as das ocupações, estão latentes verdadeiros processos de cura e estreitamento de laços sociais, a partir de práticas de cuidados coletivos e ressignificação de histórias de vida.

Alana Moraes adverte que é necessário construir um pensamento de esquerda a partir das experiências coladas à realidade. É preciso construir um vocabulário comum, produzindo conhecimento e apontando saídas a partir dos vínculos e alianças com a periferia. Infelizmente, o lulismo sufocou a experiência do que foi historicamente o petismo: auto-organização, senso de justiça e autonomia dos diferentes grupos e saberes. Nas experiências das ocupações urbanas, Moraes enxerga novos dinamismos políticos e de reconexão das lutas.

Atualmente, o desafio está em manter evidente a perspectiva de que a história é feita de decisões políticas. É o que o Movimento Passe Livre denunciava, em Junho de 2013, quando insistia em se contrapor ao discurso político da gestão técnica, dizendo que, sim, era possível baixar o custo do transporte público. Se o sistema hegemônico sempre diz não, com novas formas de organização política é possível e salutar dizer sim.

Assista à conferência Movimentos tradicionais e movimentos autonomistas. Possibilidades à reinvenção da política e da esquerda no Brasil ministrada por Alana Moraes, no IHU

 

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