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10 Agosto 2018

Publicamos aqui o comentário do monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho deste 19º Domingo do Tempo Comum, 12 de agosto (Jo 6, 41-51). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Estamos ainda envolvidos na lectio das palavras pronunciadas por Jesus na sinagoga de Cafarnaum: palavras suscitadas por reações e perguntas daqueles ouvintes definidos no quarto evangelho como “os judeus”, isto é, aqueles que creem no Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, alimentados pela ideologia judaica dominante, forjada pelos chefes religiosos do povo, hostis a Jesus e, depois, responsáveis, junto com os chefes políticos romanos, pela sua condenação.

Na parte do discurso proposta pelo ordo litúrgico para este domingo, acima de tudo, está testemunhada uma murmuração. Jesus havia falado de um pão, dado pelo seu Pai, que veio do céu, um pão capaz de dar a vida ao mundo (cf. Jo 6, 32-33). Em seguida, ele mesmo havia se identificado com esse pão: “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede” (Jo 6, 35), mas essas suas afirmações, aos ouvidos dos seus ouvintes, são uma pretensão louca, escandalosa, inédita.

Por isso, perguntam-se uns aos outros: como pode este homem, Jesus de Nazaré, que parece ser e é realmente um homem, revelar-se como alguém descido do céu, portanto, vindo de Deus, enviado por ele? Como pode se dizer pão, dizer-se alimento capaz de tirar a fome? Sua pretensão é inadmissível, portanto, não receptível, porque atenta contra o senhorio de Deus (cf. João 5, 18; 10, 33).

Justamente a humanidade de Jesus escandaliza, a sua carne e o seu sangue: o seu corpo frágil de criatura o declara terrestre, não descido do céu. Além disso, aqueles judeus têm um conhecimento preciso de Jesus, devido à realidade dos fatos: ele é o filho do carpinteiro de Nazaré, sua mãe também é bem conhecida, então ele vem simplesmente dessa pequena aldeia da Galileia, não do céu.

Diante dessas contestações e desse desprezo, Jesus reage, pedindo, em primeiro lugar, para se abster de murmurar; depois, declarando: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o atrai”. Eis o mistério da fé: não basta a inteligência humana, não são suficientes as faculdades humanas para discernir quem Jesus verdadeiramente é, mas é preciso uma ação de Deus, aquele que o próprio Jesus define como seu Pai.

Somente através da acolhida desse dom gratuito é que se pode acessar Jesus, atraídos por essa força divina. Aderir a Jesus, estar envolvido na sua vida é essencialmente graça que acompanha, com uma absoluta preeminência sobre o compromisso pessoal do discípulo. É claro que essa atração do Pai pode ser respondida com consciência, convicção, na liberdade e acessando o amor por Jesus, mas também se pode opor a ela uma rejeição, um fechamento.

Mas quando ocorre esse acesso convicto a Jesus, então a comunhão com a sua vida é tamanha que nem mesmo o obstáculo definitivo, a morte, pode vencê-la. De fato, Jesus mesmo, ele, o Ressuscitado fará ressurgir no último dia quem se confiou a ele compartilhando com ele a sua vida. Já estamos no tempo do cumprimento da profecia, e, se os profetas haviam anunciado que Deus mesmo iria instruir o seu povo, eis que essa ação de Deus no hoje se cumpre através da presença do Filho sobre a terra, não como instrução para a observância do Lei, mas como instrução voltada a aderir ao homem Jesus (cf. Is 54, 13; Jr 31, 33-34).

Todos os humanos, não só os filhos da antiga aliança, mas todos os filhos de Adão, toda a humanidade pode escutar a Deus, acolher o seu ensinamento e, portanto, ir a Jesus. Certamente ainda não há a possibilidade de ver a Deus face a face, porque isso nunca foi possível no regime da fé: só o Filho, que é de Deus, viu-o face a face (cf. Jo 1, 18) e é a sua narrativa, a interpretação única e verdadeira, porque quem vê o Filho vê o Pai (cf. Jo 14, 9).

Essas palavras também podem provocar escândalo, mas aqui estamos no coração da fé cristã: ir a Jesus significa encontrar um homem, com uma humanidade plena, com uma carne frágil, significa encontrar um homem que vive entre os outros, tem sentimentos humanos, fala uma língua humana, encontra os seres humanos, põe-se ao seu serviço, instrui-os, cuida deles e os cura.

É nessa sua humanidade que podemos ver a Deus e, portanto, cumprir o caminho que nos leva a aderir a ele. Sim, porque, como Jesus disse: “Ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14, 6). Então, retorna à boca de Jesus pela terceira vez a afirmação solene: “Eu sou (Egó eimi) o pão da vida, o pão vivo”. Quem fala é Egó eimi, o Nome santo de Deus revelado a Moisés (cf. Ex 3, 14), e define a sua identidade como pão, alimento para a vida.

Mas aqui devemos prestar muita atenção e, acima de tudo, não acabar dividindo “o pão da vida” de Jesus, o homem Jesus, o Filho de Deus feito carne. Nunca se deve desconectar o Cristo, o Filho, das suas palavras e do pão que ele deu ao mundo: seria um atentado à plenitude da identidade de Jesus! E não devemos nos deixar enganar pelo paralelismo que ele instaura entre o pão que desce do céu e o maná, porque só o movimento do céu para a terra o justifica. O maná que Deus dera aos pais no deserto depois da saída do Egito era, sim, um dom, mas para saciar a fome; não era um alimento que pudesse lhes oferecer a salvação, tanto que os destinatários desse dom, depois, morreram sem entrar na terra prometida.

“O pão descido do céu”, em vez disso, aquele que o Pai dá, é Jesus Cristo mesmo e é decisivo para a vida eterna. Quem participa no banquete desse pão – que o hino litúrgico para a festa do Corpo do Senhor define como panis vivus et vitalis – vive a vida eterna. Assimilar esse pão que é Jesus Cristo significa receber o antídoto contra a morte, começando a viver uma vida diferente da mortal, a própria vida do Filho de Deus.

É claro, devemos admitir: essas palavras de Jesus no quarto evangelho nos dão vertigem se as acolhemos com fé, enquanto nos escandalizam se não sentimos uma profunda e secreta atração por Jesus, despertada por Deus. Deus não nos força, nem mesmo se impõe, estendendo-nos o dom do Filho no seu amor por Deus e pelo mundo (cf. Jo 3, 16), mas nos faz uma oferta para que saibamos responder-lhe na liberdade e por amor.

E justamente em virtude dessa acolhida do dom daquele que desceu do céu “por nós e para a nossa salvação” e que deu a sua vida inteira, o seu corpo, a sua carne, o seu sangue e o seu espírito como um dom gratuito e por todos, vigiemos para sermos sempre capazes de crer, adorar e confessar Jesus como nosso único Senhor.

Nessa ótica, somos chamados a nunca separar a eucaristia da cristologia, com o risco de coisificar o sacramento e de empobrecê-lo da imensidão do mistério.

Esse sexto capítulo do Evangelho segundo João, ao insistir na única identidade daquele que é o Filho do Pai descido do céu, daquele que é palavra de Deus e é pão, alimento de vida eterna para aqueles que creem, torna-nos firmes na fé cristã, para a qual a fé eucarística é imanente.

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