No Chile, um Francisco apocalíptico dá missão a universidades católicas

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19 Janeiro 2018

Nos majestosos arredores da Pontifícia Universidade Católica do Chile, na noite dessa quarta-feira, 17, o Papa Francisco fez um dos discursos mais inteligentes de seu pontificado, dando uma clara direção para as instituições educacionais católicas dos nossos tempos.

A reportagem é de Austen Ivereigh, publicada por Crux, 18-01-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Como eu geralmente destaco, Francisco é, se não sombrio, certamente apocalíptico sobre estes tempos. Ele acredita que a sociedade contemporânea enfrenta cada vez mais uma escolha de vida ou morte.

Ele vê as forças impulsionadas pela tecnologia da pós-modernidade globalizada dissolvendo os laços de pertença, varrendo as instituições e tornando-nos indivíduos consumistas obcecados com a gratificação e cada vez mais divorciados das raízes culturais e religiosas.

Em tal sociedade, como ele afirmou em Santiago, “vão desaparecendo os pontos de referência a partir de onde as pessoas possam se construir individual e socialmente”, de modo que “a ‘nuvem’ é o novo ponto de encontro” hoje, “marcado pela falta de estabilidade, já que tudo se volatiliza e, portanto, perde consistência”.

O resultado dessa consciência pública em desaparecimento, sob a onda do individualismo, dificulta a construção de uma nação ou até de qualquer comunidade, e, do modo como o papa vê isso, as consequências são cruéis.

“Sem o ‘nós’ de um povo, de uma família, de uma nação, e, ao mesmo tempo, sem o ‘nós’ do futuro, dos filhos e do amanhã; sem o ‘nós’ de uma cidade que ‘me’ transcenda e seja mais rica do que os interesses individuais, a vida será não só cada vez mais fraturada, mas também mais conflitiva e violenta”, disse Francisco.

A missão da universidade, nesse contexto, é gerar aquilo que Francisco chamou de “processos educativos também transformadores, inclusivos e de convivência”. Isso parece bastante banal, mas Francisco deixa claro que, por “processos”, ele não se refere a conteúdos, mas ao ensino de uma nova maneira de raciocinar e de pensar “de forma integrada” – uma forma mentis.

O termo que ele usou para isso em espanhol é “alfabetización integradora”, um novo tipo de alfabetização que permita que as pessoas pensem de forma integrada.

Ele continuou explicando o que queria dizer – “é necessário ensinar a pensar o que se sente e se faz; a sentir o que se pensa e se faz; a fazer o que se pensa e se sente” –, mas um claro relato de como isso se desdobraria não é o ponto mais forte do discurso. Como muitas vezes acontece com Francisco, o tema é lançado como uma intuição profunda, mas se deixa que os outros o desenvolvam.

Ironicamente, a razão dessa reticência não é que ele tenha pouco a dizer, mas que ele tem muito a dizer. O seu próprio trabalho de doutorado, que foi alimentado e, por sua vez, alimentou décadas do seu trabalho sobre as polaridades dialéticas, oferece um método sistemático de pensamento de forma a permitir a interação de ideias e valores contrastantes, integrando-os criativamente em um plano superior.

O que Francisco apresentou em Santiago foi um argumento para esse tipo de pensamento, não um modo sistemático de alcançá-lo.

No entanto, ele fundamentou tudo isso na teologia, argumentando que a tentação, em qualquer ambiente acadêmico, é de sujeitar a criação – a saber, aquilo que é dado por Deus – aos desígnios e desejos autônomos de conhecimento. Em outras palavras, a Queda não é o resultado do conhecimento em si mesmo, mas sim o divórcio do conhecimento em relação a suas raízes divinas.

(Esse, é claro, é o argumento da Laudato si’: o “paradigma tecnocrático” produziu uma mentalidade antagônica à Criação que leva à instrumentalização, mercantilização e exploração do mundo natural e das outras criaturas.)

Todo cenário acadêmico, disse Francisco, conterá “a tentação latente de reduzir a Criação a alguns esquemas interpretativos, privando-a do Mistério próprio que moveu gerações inteiras a buscar o que é justo, bom, belo e verdadeiro”.

“Quando um professor, pela sua sapiencialidade, se converte um ‘mestre’, então, sim, é capaz de despertar a capacidade de assombro em nossos estudantes”, disse Francisco, acrescentando: “Assombro perante um mundo e um universo a descobrir!”.

(O uso das palavras é interessante, senão controverso: Francisco aqui contrasta um “professor” como aquele que ensina seus próprios esquemas com um “mestre” que introduz seus estudantes no assombro diante do bem, do belo e do verdadeiro.)

Francisco apresentou dois outros pontos para apoiar essa grande ideia.

O primeiro é o equivalente acadêmico da “cultura popular evangelizada” sobre a qual ele fala na Evangelii gaudium.

Assim como a Igreja precisa se reconectar com o Cristo presente na religiosidade das pessoas comuns, ele pede com força que a sala de aula universitária se conecte com aquilo que ele chama de “sabedoria dos povos que formam esta abençoada terra” – incluindo, é claro, seus povos originários.

Essa “sinergia tão enriquecedora” entre “rigor científico e intuição popular” ajudará a preencher as fissuras intelectuais de hoje entre razão e ação, disse Francisco, entre pensar e sentir, entre conhecer e viver, e entre profissão e serviço.

A segunda ideia é que a forma mentis da universidade deve estar ao serviço da “convivência nacional”, tornando-se aquilo que ele chama de “um laboratório para o futuro do país” – que “consegue incorporar em seu seio a vida e o caminhar do povo, superando toda lógica antagônica e elitista do saber”.

Para os ouvidos anglo-saxões, a ideia de uma universidade a serviço de uma agenda nacional parecerá duvidosamente autoritária, o tipo de linguagem usada pelos generais Franco ou Perón nos anos 1950.

Mas o pressuposto de Francisco é que a missão de uma universidade de construção da nação será uma ação heroica, até mesmo profética, em um futuro em que o Estado será amplamente impotente diante das forças da tecnocracia global.

“Profético” é precisamente a palavra que ele usa no fim para descrever o papel da universidade católica no futuro líquido.

“Essa profecia que nos é pedida, impulsiona a buscar espaços recorrentes de diálogo mais do que de confronto; espaços de encontro mais do que de divisão; caminhos de amistosa discrepância, porque se discorda com respeito entre pessoas que caminham na busca honesta de avançar em comunidade rumo a uma renovada convivência nacional.”

Como slogan, isso pode parecer um pouco restrito. Mas ninguém pode dizer que o papa não deu uma missão às universidades católicas.

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