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12 Janeiro 2018

Publicamos aqui o comentário do monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho deste 2º Domingo do Tempo Comum, 14 de janeiro (Jo 1, 35-42). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Neste domingo que se segue à festa do Batismo do Senhor, o ordo litúrgico nos propõe o encontro dos primeiros discípulos com Jesus, segundo o relato do quarto Evangelho.

Estamos na semana inaugural da vida pública de Jesus (cf. Jo 1,19-2,12). Dois dias após o interrogatório de João Batista por parte das autoridades sacerdotais que vieram de Jerusalém, Jesus passa e caminha na frente de João e de dois de seus discípulos. E, fixando o olhar em Jesus, o Batista afirma: “Eis o Cordeiro de Deus!”.

É uma verdadeira apresentação de Jesus, a indicação de que justamente ele é o Servo de Deus, o Cordeiro pascal que traz a libertação ao seu povo (o termo aramaico talja contém ambos os significados). João, como verdadeiro rabi e mestre, en-sina, faz um sinal aos discípulos e, assim, dá uma orientação à sua busca: ele não os havia se-duzido (trazidos para si mesmo), não os mantém junto de si, mas os e-duca, os conduz para fora, para o Messias. Ouvidas as palavras do Batista, logo os dois começam a seguir Jesus, põem-se nas suas pegadas, vão aonde ele vai.

E eis que, de repente, Jesus se volta, observa-os com um olhar penetrante e lhes pergunta: “O que procurais?”. Essa pergunta é inevitável para qualquer um que quiser se pôr no seguimento de Jesus, portanto, uma pergunta dirigida ainda hoje a nós que tentamos segui-lo.

“O que você realmente procura? Qual é o seu desejo mais profundo?” Essas são as primeiras palavras pronunciadas por Jesus de acordo com o quarto Evangelho; não uma afirmação, nem uma declaração, como talvez esperaríamos, mas uma pergunta: “O que você procura?”. Desse modo, Jesus mostra que o seu seguimento não pode acontecer por encantamento, por arrebatamento, por uma simples escolha de pertença: o discípulo pode tomar um caminho errado se não souber reconhecer o que e quem realmente procura – “si revera Deum quaerit”, “se você realmente procura Deus”, diz a Regra de Bento (58, 7) –, se não estiver envolvido na busca, disposto a deixar as suas seguranças para se abrir ao dom de Deus. Procurar é uma operação e uma atitude absolutamente necessárias para escutar e acolher a própria verdade presente no íntimo, lá onde o Senhor fala.

A essa pergunta, os dois discípulos respondem com outra pergunta: “Rabi, onde moras (verbo méno)?”. Jesus é definido por eles como “rabi”, mestre e guia, portanto querem conhecê-lo na sua casa, na sua morada, querem morar onde ele mora: não só escutar um ensinamento, mas estar envolvidos na sua vida.

Jesus lhes responde com muita simplicidade: “Vinde e vede”, isto é, venham e experimentem, venham e verão com um olhar que poderá até ver a glória de Jesus como Filho de Deus (cf. Jo 1, 14; 2, 11). Assim ocorreu o encontro com Jesus, um encontro que mudou profundamente as suas vidas, porque, a partir daquela hora (definida precisamente como a hora décima, ou seja, as quatro horas da tarde), eles começam a viver, a morar com ele.

Esses dois primeiros discípulos de Jesus são André e o outro que não tem um nome, mas que foi identificado pela tradição no discípulo anônimo, “aquele a quem Jesus amava” (Jo 13, 23; 19, 26; 20, 2; 21, 7.20), talvez o filho de Zebedeu.

Os sinóticos apresentam esse chamado dos primeiros discípulos com um relato muito diferente: na Galileia, nas margens do mar, Jesus passa e vê dois pares de irmãos, os chama atrás de si (“Sigam-me!”) e estes o seguem prontamente, sem demora (cf. Mc 1, 16-20 e par.). No quarto Evangelho, no entanto, a vocação é mediada pelo Batista, não é direta. Em ambos os casos, porém, o testemunho é concordante: antes de iniciar a sua pregação, Jesus forma uma comunidade ao seu redor, os chamados a fazerem parte põem-se no seu seguimento (verbo akolouthéo) e ele lhes pede para compartilharem a sua vida sempre, na perseverança, até o fim.

É claro, o discípulo anônimo, “aquele a quem Jesus amava” parece ser o modelo de todo discípulo que permanece com o Senhor mesmo durante a sua paixão, mesmo debaixo da cruz, e permanece como sinal profético até a sua vinda na glória (cf. Jo 19, 26; 21, 22).

Mas eis que André – de acordo com a tradição grega o primeiro chamado –encontra o seu irmão Simão e logo lhe diz: “Encontramos o Messias, o Cristo”. Ele se sente impulsionado a comunicar a boa notícia do Messias tão esperado e agora presente, operante no meio do seu povo, acima de tudo ao seu irmão. Ele o leva a Jesus, porque Simão compartilhava essa espera, estando ele também em busca daquele do qual o Batista anunciava a vinda.

A espera acabou, a busca teve um resultado positivo. A expressão “encontramos”, no plural, já indica o nós da comunidade de Jesus, que, a partir desse momento, ressoará em todo o Evangelho para confessar a fé e dar testemunho.

De acordo com o quarto Evangelho, Simão não faz nenhuma ação, não toma nenhuma iniciativa, mas está diante de Jesus e escuta as suas palavras inequívocas. Jesus fixa o olhar sobre ele, como o Batista havia fixado no próprio Jesus, e lhe proclama a sua verdadeira identidade, vocação e missão: “Tu és Simão, filho de João; serás chamado Kephas (que quer dizer Pedro)”.

Não é simples interpretar a primeira parte dessa declaração: o que significa “filho de João”, dito àquele que é irmão de André, nunca chamado com esse patronímico? Talvez signifique: “Tu és Simão, o discípulo de João Batista”? A questão permanece em aberto, mas, em todo o caso, as palavras determinantes são as seguintes: “Serás chamado Kephas, Pedro”. Assim, Jesus revela quem Simão realmente é dentro da sua comunidade: é uma pedra, uma rocha imediatamente posta em posição de autoridade, ele que será o porta-voz dos Doze (cf. Jn 6, 67), ele que será o pastor do rebanho do Senhor (cf. Jo 21, 15-18).

Mas, se o quarto Evangelho nos fornece essa narrativa “outra” do chamado dos primeiros discípulos, imediatamente depois, no chamado de Filipe, que ocorre no dia seguinte, reaparece aquela palavra eficaz dirigida por Jesus ao discípulo: “Siga-me!” (akoloúthei moi: Jo 1, 43).

Afastando-se das margens do Jordão para a sua terra, Galileia, Jesus se encontra com Filipe, outro galileu de Betsaida (como Pedro e André). Não nos é dito nem onde nem em que situação Jesus lhe dirige essas palavras, mas o que é essencial é que ele lhe pede para segui-lo.

Filipe prontamente o segue e começa a fazer parte da comunidade dos discípulos, como testemunham também os sinóticos que o colocam entre os Doze (cf. Mc 3, 18 e par.). Portanto, vocação sem mediações, mas nem por isso menos contagiosa.

Assim que Filipe se encontrar com outro galileu, Natanael, proveniente de Caná, ele lhe comunica a boa notícia do cumprimento das Sagradas Escrituras, a Torá de Moisés e os Profetas: “Encontramos aquele de quem eles escreveram: é Jesus de Nazaré, o filho de José” (cf. Jo 1, 45).

Natanael responde com ceticismo e ironia: “Justamente a partir dessa periferia, dessa terra impura, de um vilarejo desconhecido da Galileia dos gentios pode vir algo de bom?” (cf. Jo 1, 46). Filipe rebate: “Venha e veja! Venha e experimente” (ibid.), eco das palavras dirigidas por Jesus aos dois primeiros discípulos.

Estes, de fato, são os passos constitutivos da fé: vir a Jesus, experimentar e conhecer a sua morada e, por fim, encontrar morada nele. E, enquanto Natanael vai ao encontro de Jesus junto com Filipe, eis que o próprio Jesus mostra, na realidade, que o precede no seu itinerário. Ele não afasta aqueles que se aproximam dele (cf. Jo 6, 37), apesar das suas perplexidades, mas descreve Natanael como um verdadeiro filho de Israel, sem falsidade, sem duplicidade (cf. Jo 1, 47).

Surpreso com essa afirmação, Natanael faz uma pergunta a Jesus: “De onde (póthen) me conheces?” (Jo 1,48). Ou seja, de onde você obtém o conhecimento da minha pessoa? Jesus não lhe responde diretamente, mas lhe assegura que o viu e o escolheu antes de cada uma de suas decisões de ir até ele. Segue-se, enfim, uma confissão de fé plena: “Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o rei de Israel” (Jo 1, 49). Natanael, especialista nas Escrituras, filho de Israel autêntico, confessa imediatamente o senhorio de Jesus, servindo-se de títulos que expressarão a fé da Igreja na paixão e na ressurreição do Senhor.

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