Carta inédita do Papa Francisco ao Cardeal Sarah salienta a visão por uma Igreja engajada

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27 Outubro 2017

A notável carta que o Papa Francisco escreveu ao Cardeal Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino, não formulou uma pergunta ao purpurado e que eu agora gostaria de fazer: Como o senhor, Cardeal Sarah, traduziria a frase “Roma locuta, causa finita est”?

O comentário é de Michael Sean Winters, publicada por National Catholic Reporter, 25-10-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

É evidente que se tivesse de seguir as diretrizes dispostas em Liturgiam Authenticam, documento de 2001 que priorizava seguir servilmente o texto latino original, o cardeal verteria estas palavras assim: “Rome has spoken, the cause is finished” (Roma falou, a causa está terminada). Mas, no inglês moderno, não usamos “causa” desta maneira, portanto se concordarmos que o propósito da tradução é verter algo que seja compreensível, poderemos dizer: “Rome has spoken, case closed” (Roma falou, caso encerrado).

Esta carta do Santo Padre é sem precedentes. Busquei em minha memória e em meus livros de história e não consegui encontrar uma tal repreensão pública a um cardeal. (O uso da cantarella, do Papa Alexandre VI, para matar alguns de seus cardeais inimigos é produto da cultura popular, não um fato histórico.) O Cardeal Louis Billot, jesuíta, envolveu-se numa luta prolongada com o Papa Pio XI sobre a condenação que este papa fez da “Action Française”, e renunciou ao seu barrete cardinalício, porém a iniciativa foi aparentemente de Billot (Nota de IHU On-Line: outras versões afirmam que Billot entrou na audiência com Pio XI cardeal e saiu somente como padre). Com certeza, desde o Vaticano II não víamos palmadas públicas assim a um prelado de alto escalão.

Em questão esteve uma declaração feita por Sarah que sugeria que a Liturgiam Authenticam permanecia prescritivo, e com ele o direito do Vaticano de impor traduções litúrgicas às várias Conferências Episcopais, e não o recente documento emitido do Papa Francisco, o motu propio (“Por sua própria iniciativa”), sobre o assunto, intitulado Magnum Principium, que restaurou às Conferências Episcopais ao redor do mundo o papel central de aprovar as traduções. O comentário de Sarah apareceu na revista francesa L’Homme Nouveau e foi traduzido para outros idiomas.

Sempre inclinado à misericórdia, o papa incluiu na carta a possibilidade de que o comentário não fosse de Sarah. Alguns analistas conservadores, como o Pe. Zuhlsdorf, se apegaram a esta parte da missa para sugerir que Sarah não escreveu de fato o comentário, e que todos deveríamos relaxar. Claro, duas semanas atrás, quando apareceu pela primeira vez o artigo na L’Homme Nouveau, Zuhlsdorf elogiou Sarah pelo que este havia dito. Citou um artigo publicado no National Catholic Register [1], de Edward Pentin. Nenhum dos dois davam a entender que as palavras escritas não eram de Sarah. Portanto, com isso em mente, penso que podemos perguntar a Zuhlsdorf: Qual a expressão latina para “flexibilidade nas interpretações”? É isto o que o Papa Francisco estava proporcionando a Sarah, uma oportunidade de dizer que ele havia sido citado equivocadamente, ou citado fora de contexto, ou ainda que, de alguma forma, os editores da L’Homme Nouveau haviam entendido erradamente.

Uma abordagem ainda mais estranha à carta do papa encontramos no sítio eletrônico First Things, onde Marco Tosatti acha que os “ataques” contra Sarah são porque as pessoas em torno de Francisco não querem ver o cardeal eleito como o próximo papa. As fontes de Tosatti não são muito boas, e o que dizer dos editores de First Things? Eles aplaudem quando alguns teólogos obscuros emitem uma correção filial ao papa, mas enxergam planos sombrios quando este emite uma correção ao Cardeal Robert Sarah. Lembram da brincadeira “Onde está Wally?” A política editorial de First Things poderia ser caracterizada como “Onde está o magisterium?”

Na repreensão do papa, as traduções litúrgicas podem estar em causa, mas há mais em jogo. Em primeiro lugar, o Papa Francisco envia uma mensagem para a cúria inteira de que não mais vai tolerar insubordinação. Membros da cúria, incluídos os cardeais, trabalham para ajudar o papa em seu ministério apostólico, não o contrário. Normalmente, as pessoas escolhidas têm certa expertise na área de competência para o dicastério a que são nomeadas para liderar, muito embora – e aqui é uma crítica a Francisco – nada há na biografia de Sarah para sugerir qualquer competência especial em teologia litúrgica.

Em todo caso, estas figuras estão aí para ajudar o papa em seu trabalho, e todos nós já ouvimos histórias de pessoas na cúria tentando minar Francisco. No próximo mês de março, ele completará cinco anos como papa. É chegada a hora para todos na Cúria Romana subirem a bordo ou achar uma outra ocupação. O fato de Sarah ser um cardeal curial também explica por que motivo Francisco foi tão público e direto em sua repreensão, enquanto escolheu apenas ignorar silenciosamente os cardeais que formularam as falsas dubia sobre Amoris Laetitia.

Além da questão gerencial, há uma inquietação eclesiológica mais ampla. O Papa Francisco fez da sinodalidade um tema-chave deste pontificado. Ele a vê como um retorno à visão articulada, e vivenciada, no Concílio Vaticano II. Conceder às Conferências Episcopais do mundo inteiro um papel determinante nas traduções litúrgicas faz parte desta visão, mas vai além de quem deve decidir sobre “consubstancial” e “a queda do orvalho”. A concentração do processo decisório no Vaticano é um fenômeno recente, uma resposta ao fervor antirreligioso do século XIX e aos meios de comunicação melhorados disponíveis a nós hoje. No século XIII ou no século XVII, Roma podia emitir um decreto, mas ele precisaria ser traduzido pelos bispos locais, adaptado à situação regionais e os padres, por sua vez, teriam de adequar aquilo que receberam dos seus respectivos bispos para as circunstâncias dos fiéis confiados a seus cuidados. Hoje, o católico mediano é provavelmente o primeiro a saber de um pronunciamento vaticano no The New York Times – ou, se for sofisticado, no National Catholic Reporter. E as autoridades vaticanas têm sido muito frequentemente influenciadas pelos discursos de pouquíssimos – porém barulhentos – correspondentes, que as cercam com preocupações irrisórias bem como a seus bispos locais. Isto tem produzido uma Igreja esclerótica.

Francisco não é fã de esclerose. A visão que ele tem de uma Igreja engajada, a acompanhar o povo, um hospital de campanha, sujando-se nas ruas, é o contrário da mentalidade de “prisioneiro do Vaticano” que predominou na segunda metade do século XIX e que ainda predomina entre todos aqueles católicos doutrinários que se preocupam mais com a contaminação do que com a evangelização, aqueles que, involuntariamente, matam a tradição porque querem que ela seja estática e imóvel – irreformável, como gostam de dizer –, quando uma tradição, que é viva, está sempre se alargando, adaptando-se, estendendo a mão de volta às suas fontes mais profundas para ultrapassar as incrustações culturais que impedem o crescimento saudável.

Não devemos zombar destas incrustações culturais, tampouco deveriam elas ser abandonadas, pois representam as tentativas das gerações anteriores de viver a fé que tiveram, e uma fé que não gera cultura é uma fé morta. Mas a fé também morre quando confundimos estes antecedentes culturais com exemplos completamente adequados de inculturação para a nossa época e nossas culturas. Não honramos os que vieram antes de nós pondo os pingos nos nossos i’s e cruzando os nossos t’s de forma servil. Nós os honramos certificando-nos de que a nossa fé antiga, em nosso tempo, está gerando cultura também.

Nota:

[1] Artigo intitulado “Cardinal Sarah Confirms Vatican Retains Last Word on Translations” disponível, em inglês, aqui.

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