A nova arte do ‘Pope-Watching’. Artigo de Massimo Faggioli

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16 Outubro 2017

Monsenhor Vincenzo Tizzani, uma das testemunhas mais importantes da transição do século XIX do poder temporal à autoridade espiritual sem território, observava em 1871: "Nos salões do Vaticano o coração humano mostra-se raramente". Estava falando das estudadas sutilezas da corte de Roma, onde o papa, monarca aparentemente absoluto, era muito mais dependente da nobreza eclesiástica do que outros monarcas.

O artigo é de Massimo Faggioli, historiador italiano e professor da Villanova University, nos EUA, publicado por Commonweal, 12-10-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Tal tipo de corte papal não existe mais, o mundo de clientelas mais ou menos formalizadas já passou, ou melhor, as clientelas mudaram de nome. Hoje o cenário é muito menos vistoso, famílias como os Colonna, os Barberini e os Farnese, com toda a sua magnificência e munificência, foram suplantadas pelas classes médias do catolicismo, ou - como alguns temem com o papado de Francisco - pelo "povo".

No entanto, se aquela estética monárquica do Vaticano pertence há longa data ao passado, a arte do "pope-waching" está claramente passando por um renascimento. É uma arte que agora pode ser praticada mesmo à distância, dada a constante cobertura da mídia (tradicional e social) de tudo o que o papa faz e diz em público.

Efetivamente, há algo nessa cobertura, na forma de apresentar as atividades papais, que me lembra o fenômeno da "food-porn", definido pela Wikipédia como segue:

"uma apresentação espetacular e glamourizada do cozinhar ou comer em propagandas, infomerciais, blogs, programas de culinária, alimentos com alto teor de gordura e calorias, pratos exóticos que despertam o desejo de comer ou a glorificação da comida". Se vocês seguem o Instagram do Papa Francisco, por exemplo, poderão entender o que estou falando.

Ainda assim, a maneira muito particular de ser de Francisco exige a uma nova maneira de observar, de prestar a própria atenção. Por exemplo, suas homilias diárias na missa da manhã em Santa Marta tornam o papa mais parecido a um pároco do que qualquer outro papa antes dele. O Papa fala mais, e em uma variedade de gêneros que exigem um tipo diferente de análise do discurso papal. Ele também representa o passo sucessivo de uma dessacralização em ato da pessoa do papa, que podemos rastrear até ao papa João XXIII, que pediu para o Osservatore Romano parar de usar, sempre que o citava, a expressão "recebemos dos augustos lábios do Sumo Pontífice...". A partir de agora, ele disse aos repórteres do jornal oficial do Vaticano, vai ser suficiente "o papa disse isso" ou "o papa fez aquilo".

A atenção ao papado também mudou porque naquele tempo o Vaticano era importante praticamente apenas para os católicos, aliás, apenas para alguns católicos: o clero, os teólogos, os políticos católicos, um limitado número de diplomatas e agentes de inteligência estrangeiros (os arquivos dos serviços de inteligência estão lotados de notas relacionadas com as mudanças que ocorriam no catolicismo durante o Concílio Vaticano II e sobre as repercussões políticas e diplomáticas daquelas mudanças).

Especialmente a partir do Vaticano II, a visibilidade e a importância do papel do papa cresceram, tornando o Vaticano um cenário para o ecumenismo global, o diálogo interreligioso e para a projeção de um programa maior, mais inclusivo. A palavra papal tem se expandido de formas inimagináveis por aqueles que defendiam a "infalibilidade papal" no Vaticano I como resposta à modernidade cultural e política. Tudo isso também levou a uma expansão dos sujeitos que trabalham dentro do Vaticano.

O pessoal nos níveis mais elevados da Cúria tornou-se parte do show e é muito mais visível: o secretário do papa, os cardeais, os conselheiros, os adversários descontentes, os papáveis. Depois, há os jantares eclesiástico-políticos, as conferências teológicas em Roma e conferências não em Roma, que inevitavelmente assumem uma posição a favor ou contra Francisco. E a arte antigamente obscura de ler os sinais do palácio tornou-se agora um hobby mundial democratizado e possibilitado pela internet.

Um fator em especial tornou a arte do "pope-watching" mais complicada e provavelmente mais importante: a aposentadoria de Bento XVI, em fevereiro de 2013.

Mas este "material" adicional para os observadores do Vaticano também apresenta um significativo desafio para o próprio Vaticano e para o catolicismo romano. A cobertura da mídia sobre o antecessor de Francisco tornou-se uma espécie de substituto da reflexão teológica sobre e para as disposições legais para a instituição do chamado "papa emérito" (um termo em si impreciso, de acordo com um dos maiores canonistas da Roma papal, Gianfranco Ghirlanda). Parece que a imprensa esteja dando forma a uma visão popular de uma situação complicada que os teólogos e canonistas ainda não resolveram.

Ainda não está claro como procederão para enfrentar esse desafio. Não há uma tradição consolidada nas formas (litúrgicas, mas não só) com que a Igreja deveria tratar um papa que se aposenta (embora a "tradição" tenha sido construída dia a dia, diante de nossos olhos, através das mídias tradicionais e sociais). Se há realmente pouca teologia sobre o "bispo diocesano emérito" (uma criatura do Concílio Vaticano II, de cinquenta anos atrás), há menos ainda sobre o "papa emérito". A única disposição canônica jurídica para o "papa emérito" aparece no Código de direito canônico de 1983, 332 §2:

"Se acontecer que o Romano Pontífice renuncie ao cargo, para a validade requer-se que a renúncia seja feita livremente, e devidamente manifestada, mas não que seja aceite por alguém". Não há nada na lei eclesiástica que diz algo sobre o momento sucessivo à aposentadoria do papa.

Cada papa no século passado mudou alguma coisa das regras para o conclave, re-formulando o procedimento para a escolha de seu sucessor, para o bem da Igreja, para quando ele saísse. A situação é diferente no caso do papa emérito. Para um papa, regulamentar a vida e o ministério de um bispo de Roma é como fazer os preparativos para a própria aposentadoria. Veremos no futuro como e quando a Igreja irá regulamentar a vida e o ministério do "bispo de Roma emérito" - seja ele quem for (ou quais forem, caso haja mais de um papa aposentado) - e se as regras serão diferentes daqueles poucas preparadas em segredo por Bento XVI nos meses que antecederam o anúncio da decisão de se aposentar. Nos últimos quatro anos e meio, não foi dado início a nenhuma lei (nem a qualquer discussão em mérito) para regulamentar a vida e o ministério do papa anterior, por razões óbvias: Bento XVI ainda está vivo e ninguém pensa que se preparar para casos futuros seja uma boa ideia agora, porque isso implicaria uma crítica à maneira com que Bento XVI está interpretando e vivendo o seu papel.

Isso criou uma espécie de vácuo no Vaticano, um vácuo que os jornalistas (e a comunidade dos fiéis interessados) têm inevitavelmente preenchido. Não há só a novidade da aposentadoria, mas também a novidade da pessoa e do modo de vida de Bento XVI depois da aposentadoria. Ele aposentou-se apenas em parte, não está mais ensinando oficialmente, mas é mentor de alguns de seus alunos e tem muitos seguidores através de canais midiáticos informais e das mídias sociais – ampliando assim as suas mensagens e expandindo seu público.

Justamente um ano atrás, foi publicado um livro-entrevista com Bento XVI, em parte uma tentativa de redefinir o seu legado. Bento não tem nenhum papel formal neste pontificado, mas cada vez que diz alguma coisa (como a mensagem lida no funeral do cardeal Joachim Meisner pelo secretário pessoal de Ratzinger, o arcebispo Georg Gänswein, algumas semanas atrás) ou escreve algo (como a nova introdução à edição russa de seus escritos sobre a liturgia), é notícia. É notícia, porque essas declarações ajudam a construir uma tradição completamente nova do "emérito". No entanto dever-se-ia notar que as intenções do emérito não são as mesmas dos jornalistas e dos comentaristas católicos simplesmente nostálgicos do seu pontificado. Existe uma relação de inegável afabilidade entre Bento e Francisco que contrasta com a acrimônia entre os campos opostos de comentaristas papais.

Enquanto isso, surgem indicações de que há um desejo por um processo de regulamentação. Recentemente, alguns teólogos e historiadores da Igreja alemães perguntavam ao emérito por que não renunciar ao uso da vestimenta branca papal e retomar o uso do hábito vermelho e preto de cardeal. Regras como essa teriam sentido, mas seriam apenas um começo. O que se tornou evidente com a vida de Bento depois de sua aposentadoria é a necessidade de estabelecer normas relativas ao acesso à mídia e por parte da mídia.

As circunstâncias logísticas organizadas por Bento XVI para a sua vida após o pontificado - um retiro monástico num mosteiro dentro dos muros do Vaticano - tornou a cobertura do emérito quase literalmente um exemplo de "jornalismo de acesso": conseguir falar com uma importante personalidade vai influenciar o que o repórter irá escrever, e por sua vez vai determinar o grau de acesso futuro. Essa organização exclui ainda o fato que teólogos e especialistas do direito canônico possam influenciar a forma como é definido o instituto do emérito.

A evolução do papel da teologia e do direito canônico para o catolicismo no período pós-Vaticano II levou a um papel mais importante da mídia, um papel percebido quase como "constitucional". Vamos considerar o chamado magistério dos gestos, como aplicado no encontro interreligioso convocado pelo Papa João Paulo II, em Assis, em 1986: fotos, vídeos e relatos da mídia sobre o evento nos comunicaram muito mais do que os breves textos magisteriais pronunciados durante o evento, e até mais do que a elaboração pós-evento na tradição católica. Parece que o mesmo esteja acontecendo com o "papa emérito". Porque, enquanto não surgir uma liderança teológica ou canônica para trazer sob controle a definição e regulação do instituto, a mídia ficará mais do que satisfeita de fazê-lo por sua própria conta.

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