Estamos prestes a ter outra Reforma - 500 anos depois?

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13 Outubro 2017

De certa forma, o mundo de Martinho Lutero não era tão diferente do nosso. Em 1517 velhas certezas estavam caindo e a política estava em turbulência. Novas descobertas transformaram a compreensão e surgiram nacionalismos venenosos.

O comentário é de Ed Simon, editor da Marginalia Review of Books e colaborador de vários sites. Sua coleção America and Other Fictions: On Radical Faith and Post-Religion será lançada pela Zero Books em 2018. O artigo é publicado por La Croix International, 11-10-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.


Eis o artigo.

O dia 31 de outubro marca os 500 anos de um certo monge agostiniano que afixava suas 95 teses a uma porta da igreja de Wittenberg, na Alemanha - um momento perfeito para ponderar sobre a possibilidade de o evento acontecer novamente.

Comentaristas muitas vezes afirmam que o Islã precisa de uma Reforma. Mas talvez fosse bom para todos nós - cristãos e não cristãos, crentes e não crentes - ter uma Nova Reforma, que modificasse nosso sentido do que significa a palavra "religião". As condições atuais indicam que talvez estejamos prestes a ter outra Reforma.

De certa forma, o mundo de Martinho Lutero não era tão diferente do nosso. Em 1517, velhas certezas estavam caindo e a política estava em turbulência. Novas descobertas transformaram a compreensão e surgiram nacionalismos venenosos. A tecnologia da imprensa alterou a forma como as pessoas tinham acesso à informação.

E, o mais importante, uma crise religiosa marcou o mundo. Temos uma doença semelhante, que, ironicamente, em partes foi iniciada por esse monge valente.

Dependendo de quem vê, Lutero pode ser alguém por quem devemos ser gratos pela modernidade liberal ou alguém que tem culpa pela forma doutrinária e literalista do cristianismo atual. Os estudiosos discutem os detalhes da Reforma, tanto em termos cronológicos quanto de suas implicações, mas talvez ainda seja cedo demais para compreender toda a influência de Lutero.

De qualquer forma, o romance permanece meio milênio depois, a imagem do homem que declarou com alegria: "Aqui estou e não posso ser diferente".

Apesar da famosa imagem de Lutero, desde o início do século XX existe a suspeita assustadora entre alguns pensadores de que ele ajudou a desencadear o desencanto do Ocidente. Terry Eagleton afirma que "o protestante move-se com medo num mundo obscuro de forças aleatórias, assombrado por um Deus escondido".

Ele argumenta que a Reforma alterou a relação entre o sagrado e o profano. Todos somos protestantes agora, pois aderimos, em grande parte inconscientemente, aos parâmetros que marcavam a compreensão de Lutero sobre a religião. Sua ênfase na religião definida apenas pela fé tornou credos, confissões e denominações mais significativos do que deveriam.

Uma Nova Reforma poderia revigorar a prática, o ritual e a cultura da mera crença proposicional e, no processo, permitir uma definição mais ampla de religião.

O chamado de Lutero à "Escritura apenas", em última instância, privilegiava uma leitura literal, levou ao fundamentalismo. O literalismo não é a relíquia de um passado medieval bárbaro, mas o produto consumado da modernidade. O estudioso literário James Simpson descreve o método de leitura defendido pelos primeiros protestantes como "imensamente exigente e punitivo... marcado pela impessoalidade literalista".

Os pensadores medievais estavam à vontade com alegorias, mas essa leitura agora é minimizada e, em vez disso, um ídolo é criado a partir da "intenção original", seja na Bíblia ou em outro lugar.

Finalmente, com sua insistência na disposição interior da alma individual e sua relação não mediada com Deus, Lutero inadvertidamente enfraqueceu a conexão entre o significado e o mundo.

Os filósofos Hubert Dreyfus e Sean Dorrance Kelly explicam que "o cristianismo reformista teve o efeito de enfatizar o indivíduo definido por seus pensamentos e desejos internos à custa de... significados mundanos exteriores a ele". Com isso, Lutero acidentalmente "preparou o caminho para o niilismo ativo associado à morte de Deus".

Por tudo o que era valioso na revolução de Lutero - e inclusive a maioria dos católicos atualmente admitiria que ele tinha boas razões para estar insatisfeito com Roma -, vamos também reconhecer que a Reforma introduziu formas de pensar sobre a fé que a tornam mais limitada e mais rígida do que deveria.

Não estou argumentando que devemos retornar ao cristianismo primitivo, como Lutero afirmou ter feito. Nem estou defendendo um retorno a algum quadro medieval e artificial de relíquias, peregrinações e celebrações litúrgicas. Os coros quase arruinados ficarão vazios. Não há retorno; não há como desfazer ou escapar da modernidade.

E, no entanto, como uma crescente crise de significado parece cada vez mais evidente, é justo perguntar o que pode vir a seguir?

O historiador literário Andrew Delbanco diz que, na sociedade contemporânea, "a dor pelo sentido não é aliviada" e um "desejo insípido de transcendência" parece quase universal.

Onde há dores, existem, eventualmente, analgésicos; onde há desejo, em algum momento deve haver sustentação. A questão, portanto, não é se deve haver uma Nova Reforma, mas sim de que tipo.

Será um retiro para os prazeres da certeza, uma confirmação do literalismo? Ou oferecerá novas possibilidades para o significado sagrado, e até mesmo um novo encantamento? Poderia desafiar os ídolos da nossa era, tal como o mercado?

A verdade é que eu não sei. Não tenho teses para afixar às portas de alguma igreja. Mas que uma mudança na consciência religiosa é necessária para abordar as doenças com que nos confrontamos, do colapso ecológico ao autoritarismo, de coração, eu afirmo, pois não posso ser diferente.

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