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11 Outubro 2017

"O direito ao egoísmo, hoje, aqui e agora, comporta riscos imprevisíveis não só para a população mais vulnerável, mas também para as gerações futuras" escreve padre Alfredo J. Gonçalves, cs, assessor das Pastorais Sociais. 

Eis o artigo.

A liberdade sem limites, sem muros e sei leis habita hoje a visão de grande parte das pessoas. Liberdade aqui vem normalmente entendida como o “direito de fazer o que se quer”. Algum tempo atrás se dizia que “a minha liberdade começa onde termina a do outro”. As duas fórmulas dão asas ao egoísmo desenfreado em que nos movemos atualmente. De uma parte, a expressão “fazer o que se quer” ignora a existência e os direitos dos demais seres humanos. De outra, se a minha liberdade depende do término da liberdade do outro, esta, de igual modo, pode impor-se arbitrariamente sobre minha existências e meus direitos. Em ambos os casos, desemboca-se facilmente no beco sem saída da tirania e submissão.

As coisas se agravam quando estão em jogo as reservas naturais do planeta Terra, a luta pela preservação do meio ambiente e a busca de fontes alternativas de energia. A bióloga Sandra Steingraber coloca-nos diante de uma escolha extrema: “Estamos em uma encruzilhada energética. Um cartaz indica o futuro que utiliza a energia escavando do solo combustíveis fósseis e dando-lhes fogo. O outro indica a energia renovável. Não podemos seguir as duas direções. Incentivar a infraestrutura por uma das duas soluções penaliza a outra” (Citado por KLEIN, Naomi Una rivoluzione ci salverá – perché il capitalismo non è sostenibile, Edizione best BUR, Milano, nevembre 2015).

A liberdade que consiste em usar o combustível que se quer e quanto se quer através do transporte privado, de desperdiçar centenas de litros de água potável ao dia ou de jogar o lixo onde e quando se quer, contaminando o ar, as águas e o solo, fere o direito das demais formas de vida do planeta. O direito ao individualismo egoísta envenena o sentido profundo da liberdade. Mas a liberdade que se impõe desmedidamente sobre as outros, continuando a queimar sem trégua petróleo, carvão e gás, traz embutida uma contaminação global e o alto risco de uma ameça total à vida sobre a face da Terra. Se, de um lado, ambas são movidas pela ambição, o utilitarismo e o império do prazer imediato, momentâneo, de outro, suas consequências e implicações são diferenciadas. Igualmente diferenciadas serão suas responsabilidades pela saúde do planeta.

Em outros termos. Cada pessoa hoje é chamada a uma ação individual, familiar ou comunitária para reduzir a contaminação e a emissão de CO2 na atmosfera, evitando o aquecimento global e contribuindo para preservar todas as formas de vida: vegetal, animal e humana. Gesto simbólico importante, mas insuficiente. Os primeiros e maiores responsáveis são as nações ricas, centrais, superdesenvolvidas que há dois séculos, desde os primórdios da Revolução industrial, queimam combustíveis fósseis. Os gigantes da exploração das fontes de energia são os que devem pagar o maior preço. Buscando lucros sobre lucros, acumulando capital sobre capital, exploram à exaustão o potencial energético do subsolo, os subsídios do governo local e a mão-de-obra humana.

Neste caso, a liberdade do outro nunca termina. O direito ao egoísmo traduz-se no direito às reservas naturais, a impor as próprias leis aos governantes de plantão e a multiplicar os ganhos com o trabalho alheio. Chega-se uma “inevitável rota de colisão entre o atual modelo econômico e a vida no planeta”, insiste Klein. Rota de colisão que pode bater-se também com a produção de alimentos, quando a substituição da energia fóssil privilegia o caminho mais fácil da bioenergia, como o etanol da cana-de-açúcar e do milho. O sol, o vento e o mar representam as fontes mais limpas e renováveis: usam-se as forças naturais e sem necessidade de violentar a Terra.

O direito ao egoísmo, hoje, aqui e agora, comporta riscos imprevisíveis não só para a população mais vulnerável, mas também para as gerações futuras. Busca de alternativas, justiça e equidade social, participação democrática, respeito pela biodiversidade – eis os caminhos para superar o direito ao egoísmo.

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