Hildegard de Bingen: espiritualidade, perspicácia e profecia

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Por: Jonas Jorge da Silva | 26 Setembro 2017

Eis uma tarefa crucial: recuperar o legado das mulheres na Igreja, ao longo da história, tendo presente os desafios da atual realidade eclesial. Diante de uma história de ocultação do pensamento feminino, entre tantas mulheres invisibilizadas, a figura de Hildegard de Bingen irrompe uma cortina de silêncio, tamanha a grandeza de sua espiritualidade, perspicácia e profecia. Torna-se, portanto, um dos ícones da grandeza do feminino na Igreja, a ponto de se somar, em 2012, ao seleto grupo de mulheres a receber oficialmente o título de Doutora da Igreja Universal, unindo-se a Teresa de Ávila, Catarina de Sena e Teresinha de Lisieux.

No último sábado, dia 23 de setembro, Hildegard de Bingen foi tema da iniciativa Rezar com os Místicos, promovida pelo CEPAT e que conta com o apoio do IHU. Tal dia de encontro busca incentivar o estudo e o aprofundamento da mística e da oração, a partir de grandes exemplos de vivência da espiritualidade cristã. Bortolo Valle, professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, foi quem conduziu a dinâmica do encontro, destacando pontos centrais da vida e obra desta mística da Idade Média.

Momento de reflexão e oração coletiva (Foto: Ana Paula Abranoski)

Embora ainda pouco conhecida para a maioria das pessoas, Hildegard de Bingen tem despertado o interesse de estudiosos em razão do vastíssimo leque de contribuições no campo da teologia, música, medicina, ciências naturais e outras. Inclusive, o professor Bortolo salientou que é possível inferir da obra de Hildegard aspectos do que hoje se considera a teoria da complexidade.

Hildegard de Bingen viveu no século XII, entre os anos de 1098 e 1179, em uma região que hoje compõe a Alemanha. Aos oito anos, foi enviada a um convento beneditino de Disibodenberg. A regra de São Bento será o arcabouço que sustentará a sua busca cristã em garantir uma adequada renovação da vida religiosa. Torna-se fundadora de dois mosteiros: um em Rupertsberg, próximo de Bingen, em 1150, e o outro em Eibingen, no ano de 1165.  

Mística visionária, Hildegard se destacou como voz profética, não eximindo de seu papel crítico em relação aos descaminhos do clero e aprofundando uma visão teológica sólida, renovadora e perscrutadora, a ponto de receber o reconhecimento de sua Igreja, em um momento histórico de grande desprestígio às mulheres. Conforme destacou o professor Bortolo Valle, Bernardo de Claraval considerou motivo de alegria a forma como a graça de Deus e o conhecimento interior estava presente em Hildegard. E diante da contundência de sua fé, o Papa Eugênio III a exortou a escrever suas visões, conferindo-lhe autoridade.    

Referindo-se à grande produção de Hildegard, Bortolo Valle mencionou os três principais tratados teológicos que narram suas visões e a incumbência divina de as transcrever: o Scivias, o Liber Vitae Meritorum e o Liber Divinorum Operum, enfatizando os seguintes aspectos:

- Scivias (Scito Vias Domini) - Conhecei os caminhos do Senhor -, única das três obras traduzida para o português (Paulus) e que contém um guia de doutrina cristã, buscando responder como um cristão deve viver para atingir a Cidade Celestial;

- Liber Vitae Meritorum abrange um total de trinta e cinco visões, descrevendo as virtudes como meio para definir seus vícios correspondentes e delineando o castigo e a penitência para cada um destes;

- Liber Divinorum Operum traz uma reflexão cosmológica sobre a revelação cristã, de um ponto de vista antropocêntrico: homens e mulheres, obras de Deus, recebem o chamado a cooperar ativamente com Ele e a aperfeiçoar Sua criação.

Atendo-se ao recente reconhecimento da Igreja à obra de Hildegard de Bingen, o professor Bortolo Valle citou a Carta Apostólica do então Papa Bento XVI, em 2012, que a proclama Doutora da Igreja Universal.

Ao proclamá-la doutora, Bento XVI enaltece que “o corpus dos seus escritos, pela quantidade, qualidade e variedade dos interesses, não tem comparação com nenhuma outra autora da Idade Média”. Além disso, “a linguagem de Hildegard, caracterizada por um estilo original e eficaz, recorre de bom grado a expressões poéticas de grande carga simbólica, com fulgurantes intuições, analogias e metáforas sugestivas”. De sua obra é possível concluir que “toda a vida humana pode ser interpretada como uma harmonia e uma sinfonia”.

Na carta, o Papa Bento XVI ainda destaca que: “O homem existe na forma masculina e feminina. Hildegard reconhece que nesta estrutura ontológica da condição humana se radica uma relação de reciprocidade e uma substancial igualdade entre homem e mulher”.

Na visão de Bortolo Valle, a teologia desenvolvida por Hildegard de Bingen conserva uma dimensão intuitiva, importantíssima neste início de século, que pede a todos nós um conhecimento que não despreze a razão, mas que leve em conta também o coração humano. Neste sentido, supera o dualismo entre corpo e alma, evidenciando também a dimensão do espírito, da busca do ser humano pela verdade do espírito.

Hildegard antecipa historicamente o que, atualmente, consideramos o esforço de uma visão holística do mundo, com a sua complexidade e o desafio de superar a fragmentação. Integra a intuição e a emoção, a mística com a dimensão intelectual. Enxerga o ser humano em sua relação com a natureza, buscando o saudável equilíbrio do microcosmo e deste com o macrocosmo.

A dimensão poética do trabalho teológico, na esteira de Hildegard de Bingen, confere ao mistério da Santíssima Trindade, da Encarnação, da Redenção e da Igreja uma beleza e profundidade ímpares, resultado de uma busca humana que não abandona o esforço próprio, mas que também é reconhecedora da graça divina.

Na vida do homem e mulher de fé, a metáfora é capaz de revelar verdades muito caras, que não estão em contradição com o saber científico, mas que, ao contrário, é capaz de dar a ele o princípio da harmonia universal.

Que esta mulher de Deus e para Deus, ajude a nossa Igreja a cada dia mais tornar visível a dimensão feminina de Sua presença conosco. E que seu exemplo de sabedoria, audácia profética e olhar feminino apresse a Igreja a tornar visível muitas outras mulheres que foram fundamentais para a nossa tradição cristã.

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