Defender os biomas brasileiros. “Não podemos abdicar de nossa tarefa”

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Por: Jonas Jorge da Silva | 08 Agosto 2017

A riqueza e a biodiversidade nos biomas brasileiros são imensas, mas os desafios frente a sua sistemática dilapidação são gigantescos. Buscar alternativas a esse sistema predatório é mais que urgente. “Não podemos abdicar de nossa tarefa”, afirma o ambientalista Roberto Malvezzi (Gogó), filósofo, teólogo, escritor e compositor. Trata-se de alguém forjado na luta que, desde inícios dos anos 1980, enraizou-se no nordeste brasileiro. Reside em Juazeiro, na Bahia, mas percorre todo o país, promovendo encontros, debates e oficinas. Com longa passagem pela Comissão Pastoral da Terra e sempre muito ativo no trabalho de assessoria junto à CNBB, atualmente, está empenhado no fortalecimento das ações da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM)

Roberto Malvezzi esteve em Curitiba, no último sábado, dia 05, para o 4º encontro pelo ciclo de debates Brasil: conjuntura, dilemas e possibilidades. Discorreu sobre o tema Análise dos biomas brasileiros: da biodiversidade à espoliação. O ciclo é promovido pelo CEPAT, em parceria com o Núcleo de Direitos Humanos da PUCPR, Cáritas Regional Paraná e apoio do IHU.

Em sintonia com a Campanha da Fraternidade deste ano, cujo tema é Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida e o lema: Cultivar e guardar a Criação, refletiu-se a respeito da vital importância de se conhecer, preservar e lutar em defesa dos biomas. No atual estágio da exploração capitalista, é preciso vencer a cegueira e passar a enxergar que todas as formas de vida são interdependentes, estão interligadas e que uma necessita da outra. É preciso superar a visão fragmentada e, para além dos discursos de conveniência, incorporar o debate ambiental na agenda de luta pelos direitos, principalmente na agenda daqueles que estão inseridos nas causas populares e de esquerda. O debate ambiental não pode ser um apêndice ou, simplesmente, algo alheio aos projetos que se pensa para as sociedades atuais e vindouras.

Malvezzi não iniciou sua fala a partir dos imensos desafios atuais frente à espoliação de nossos biomas, mas, sim, resgatando o sentido mais profundo da vida, que é o mistério. Para além de todos os avanços científicos, a vida segue sendo um mistério. Diante de tal mistério, cabe a reverência profunda, o respeito e a acolhida de tal gratuidade.

Tendo isto presente, Malvezzi trouxe a definição de bioma: “um conjunto organizado de vidas, em um espaço contínuo, com clima semelhante, com solo semelhante e relevo semelhante”. Em seguida, destacou elementos acerca dos seis biomas brasileiros: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa. E retomando Darcy Ribeiro, fez questão de enfatizar a riqueza étnica e cultural do povo brasileiro nesses seis biomas, ressaltando a resistência das comunidades tradicionais: índios, quilombolas, ribeirinhos, etc.

Um dos grandes desafios de um país tão rico em biodiversidade como o Brasil, mas ao mesmo tempo com intensa concentração demográfica nas áreas urbanas, é fazer com que aqueles que vivem cotidianamente nas cidades compreendam que também pertencem a um bioma e que a preservação deste é vital para a continuidade da vida de todos. “Muitos só se lembram da importância da água, quando a mesma falta em sua torneira”, lembrou Malvezzi, ao destacar como a preocupação com a preservação de nossos biomas ainda passa distante das inquietações ordinárias das pessoas.

O ciclo das águas brasileiras é apenas um dos exemplos apresentados acerca da centralidade dos biomas brasileiros. A partir dele, Malvezzi enfatizou como os biomas brasileiros são interdependentes para a produção de chuvas: “Sem a Amazônia não há produção de chuvas. Sem o cerrado não há aquíferos para abastecer as bacias brasileiras. Sem a Amazônia ou o Cerrado não há o Rio São Francisco tal qual o conhecemos. Sem a Amazônia e o Cerrado a região sudeste (área de maior concentração urbana do país) se transforma em deserto”.

Abaixo, indicamos o vídeo apresentado por Roberto Malvezzi, no qual o pesquisador Antonio Donato Nobre, autor do relatório O Futuro Climático da Amazônia, explica como e por que os Rios Voadores são ligados às florestas nativas, e qual as consequências benéficas para o ciclo hidrológico da América do Sul.

 

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